A dança dos desajustados

DaniPrandi_0188c_500A vida sempre nos apresenta novos caminhos, mas, geralmente, por medo ou preguiça, paramos em algum ponto e não saímos mais dali, metidos na tal da zona de conforto. É o que aconteceu com o grandalhão Fúsi (Gunnar Jónsson), que todos os dias come sucrilhos no café da manhã, vai trabalhar no setor de bagagens do aeroporto, volta para casa, dedica-se ao hobby das miniaturas da Segunda Guerra Mundial, e assim a vida vai passando. Aos 40 e poucos anos, ainda virgem, é tímido, bondoso e carrega em seu corpanzil toda a gentileza do mundo. Fúsi é o protagonista de um belo, singelo e imperdível filme da Islândia que tem feito sucesso no circuito alternativo com o terrível título de “Desajustados”.

O título original do filme é justamente Fúsi. Para a questão sobre quem é “ajustado” ou “desajustado” nessa história deixo a explicação para o responsável pela nomeação em terra nacional.

Dirigido por Dagur Kári, diretor que nasceu na França mas foi criado na terra natal dos pais, a Islândia, “Fúsi” (vamos ficar com o título original) é daqueles filmes que te acompanha depois que a luz acende. Na pequena sala de cinema alternativo no bairro Botafogo, no Rio, com praticamente todos os 60 lugares ocupados em um chuvoso fim de tarde de uma segunda-feira, o silêncio respeitoso que um bom filme merece só era cortado por alguns risinhos aqui e ali. É que, apesar do tom melancólico, “Fúsi” tem graça.

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Fúsi é o protagonista de “Desajustados”, filme islandês que é sucesso no circuito alternativo

O protagonista sofre de tudo um pouco. É obeso, solitário, descobre que a mãe, com quem mora, está de namorado novo, que não o quer por perto, sofre bullyng pesado no trabalho e tem uma incomunicabilidade de dar nos nervos. Uma menina, Hera (Franziska Una Dagsdóttir), muda-se para seu prédio e, ambos em extrema solidão, acabam envolvidos em um grande mal-entendido. Há, sim, um único amigo em sua vida, com o qual compartilha o hobby das miniaturas de guerra, e responsável por um dos melhores diálogos do filme, mas é só.

O grandalhão segue uma rotina espartana na gélida Islândia, cujo frio e neve tomam conta do cenário: todas às sextas vai ao mesmo restaurante, pede o mesmo prato e, depois, telefona para a rádio local para pedir uma música heavy metal. Sozinho no carro, ouve o som pesadão e volta para casa. E ponto final.

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Aos 40 e poucos anos, o grandalhão Fúsi é tímido, bondoso e carrega toda a gentileza do mundo

Até que um dia o tal namorado da mãe tem a brilhante ideia de o presentear, no seu aniversário, com um curso de dança. E não é qualquer dança. É curso para aprender a bailar ao estilo dos cowboys, com direito a Dolly Parton na trilha sonora. Fúsi ganha até mesmo um chapéu. Apesar de não ter coragem para bailar, quer o destino que uma garota, Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir), cruze o seu caminho. E, como o título brasileiro antecipa, agora são dois “desajustados”.

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A história de Fúsi é do tipo que vai acompanhar o público depois que a luz acende

O filme, que levou três prêmios no Festival de Tribeca em 2015 – melhor narrativa, roteiro e ator (Jónsson) – consegue escapar dos clichês ao acompanhar os “ajustes” e “desajustes” desse casal sem muito futuro. Não há caminhos fáceis, sair da zona de conforto exige abnegação e a aceitação do imprevisível.

Para quem está acostumado com as tragédias ou o lugar-comum dos filmes padrão Hollywood, o desfecho vai por uma outra via, mais realista, mas mesmo assim de uma doçura encantadora. O roteiro, também assinado pelo diretor, transborda ternura, assim como Fúsi.

Trailer

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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2 comentários

  1. Daniela,achei muito legal esse texto descrito,parece mesmo que o filme nos toca profundamente.,tenho acompanhado todos os seus comentários e tenho achado ótimos.

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