Treta com as minhas rugas

 

carlaozinho_0256_400x400Tinha acabado a sempre enfadonha tarefa de me barbear pra mais um dia de batente quando, sei lá porque, cedi à compulsão — dispensável havia muito — de encarar mais demoradamente o reflexo da minha fuça no espelho. Confesso que fiquei impressionado pela assinatura intensa das rugas…

Sabe o que foi estranho, mesmo? A ruga mais pronunciada sob o olho esquerdo — sou canhoto, a quem possa interessar — começou a tremelicar e, como num desenho animado importado magicamente de O mundo louco de Tex Avery, se transmutou numa boquinha freneticamente tagarela:

— Qualé, seis-ponto-zero, vai dar pra nos estranhar agora? Conforme-se, velhote!

Assim que me desengasguei de um restinho de espuma pra barbear que havia engolido de puro susto, tratei de conferir as informações no rótulo do tubo: não, até onde iam minhas parcas memórias de química elementar, não havia qualquer informação sobre substâncias capazes de induzir alucinações (sabe-se lá, vai ver eu havia comprado algum refugo dos anos 1960 — embora tenha sido uma época na qual não se barbeava muito…).

Resignei-me a dar trela à ruguinha cheia de prosa. Porém, pra minha surpresa, foi outra que entrou na conversa, uma também grandona, sob o outro olho:

— O velho Michel Eyquem de Montaigne nos ensinou que “as rugas são os caminhos por onde a experiência que chega encontra as ilusões que se vão”.

Crédito: Norland Zhang/creativecommons.org
Crédito: Norland Zhang/creativecommons.org

Mesmo convicto de que sofria de um severo ataque de demência, deixei rolar. Até perscrutei mais o meu sofrido reflexo, atrás de novas manifestações. Concentrei-me numa rugona mais abaixo, que singrava uma das bochechas. A danada também se abriu em boca:

— “A velhice faz-nos mais rugas no espírito do que na cara”, sacou o poeta, também velho, Jules Petit-Senn.

Cultas e metidas essas rugas, né?

— Mas qualé, só sabem citar o clube dos poetas mortos? Assim fica difícil conversar. — provoquei, e foi útil: uma ruga na testa, que eu nem sabia existir, se manifestou:

— “Para todos que envelhecem o tempo traz as rugas, mas para poucos enrugados ele suscita a sabedoria.” Tá bom pra você? Isto é de Marcus Demingo, psicólogo baiano nascido em 1976 e ainda vivo (até onde sei).

Como todo bobo frente a um enigma, desatei a caçar mais rugas falantes. Foquei numa bem profunda, que zinguezagueava diagonalmente bem no meio do sobrolho.

— Uai, eu nem sabia que uma de vocês me torna uma espécie de cover do Harry Potter!

Antes que eu emendasse com outra brincadeira oca, do tipo “preciso de varinha mágica pra conversar contigo?”, a coisinha rugiu:

— Tá me tirando de ruga, decrépito? Porra, eu sou uma cicatriz! Ci-ca-triz!

Crédito: Dschmieding/creativecommons.org
Crédito: Dschmieding/creativecommons.org

Claro que eu não saquei a enunciada grande diferença, e a irascível “Madame Ci” castigou:

— Tua mente deteriorada nem lembra mais como e quando me adquiriu, né? Óbvio que não. Mas refresco tua memória bichada: na infância, em Minas, você e sua gangue viviam invadindo o quintal do esquentado Paolo Italianão, pra roubar frutas do pomar dele. Naquela tarde, as jabuticabeiras estavam especialmente carregadas. Vocês estavam em pleno furto quando foram surpreendidos pelo dono do pedaço, com a indefectível cartucheira carregada com cargas de sal. Vocês, pirralhos larápios, já sabiam o quanto aquilo ardia. Se puseram em fuga descabelada. Você optou por transpor a cerca de arame farpado e, lerdo como era, teve a testona enganchada numa farpa; ficou lá um tempinho, com o sangue escorrendo pela cara toda, até conseguir se safar. Não sem levar sua merecida saraivada de sal na bunda.

— Ha ha ha! É, me lembro agora. Foi muito foda, mesmo… — aquiesci, numa nuvem de nostalgia tão densa que até obscurecia a memória da dor.

— Pior sorte teve aquele teu amigo gordinho que tinha uma mãe muito da casca-grossa: — ô dona cicatriz. que nunca haverá de sofrer de Alzheimer! — depois de testemunhar a tua agonia no arame farpado, ele, que, acima de tudo, queria poupar de qualquer dano a camiseta branquinha e novinha que estava estreando justo naquele dia, optou por pular o muro alto. Só que, guloso como era, antes de bater em retirada, teve a infeliz ideia de enfiar a camisa sob o short e, pela gola, abastecê-la com um monte de jabuticabas madurinhas. Eita!: Faltou-lhe impulso e o coitado bateu com a barriga no topo do muro! A camiseta zero-bala ganhou uma bela mancha roxa e o desafortunado, uns bons cascudos da mamãe ogra.

Ri mais um pouco, porém insisti:

— Bem lembrado, amiga. Mas por que, cargas de merda, essa histórica pitoresca a tornaria mais importante do que as rugas?

— Como anotou o escritor Cormac Mccarthy, “as cicatrizes têm o estranho poder de nos lembrar que o passado é real.”

As rugas reagiram em protesto à empáfia da gloriosa cicatriz.

Como já estava atrasado pro trampo, tratei de encerrar as tratativas ao espelho. Contudo, pelo resto do dia, aquela assembleia furiosa continuou zumbindo nos meus ouvidos.

Ao voltar pra casa, a noite, tratei de mandar pra dentro uma dose dupla de Old Parr.

Só assim consegui dormir.

Até sonhei: me empanturrava de deliciosas jabuticabas, sem o trauma de sangue empapando a cara, sal ardendo no traseiro, nem amigo sendo castigado.

O engraçado era que as jabuticabas tinham um leve e delicios0 sabor de blended scotch.

Ao menos, as rugas e cicatrizes calaram a boca.

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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