Filme “A Chegada” recebe os ETs com inteligência – e entenda quem puder

DaniPrandi_0188c_500A linguista Louise Banks (Amy Adams) está pronta para dar uma aula sobre a “romântica” língua portuguesa quando é interrompida pelos telefones de seus alunos, todos dando o alerta de que algo inesperado aconteceu. Em 12 pontos diferentes do mundo extraterrestres estacionaram uma espécie de casulo, mas permanecem em silêncio. A abertura de “A Chegada”, do diretor canadense Denis Villeneuve, filme que abriu o Festival de Cinema do Rio e já no circuito, é de uma tensão imensa.

O tema escapa da esfera do cinema-catástrofe que marca o gênero para construir uma fábula sobre tempo x espaço, comunicação x incomunicabilidade, medo x coragem. Baseado em um conto do escritor Ted Chiang chamado “A História de sua Vida”, “A Chegada” desafia a inteligência do espectador ao abordar questões que a humanidade não se cansa de fazer e que há tempos ocupam as mentes dos mais pensadores.

Resolvida a questão de que há, sim, extraterrestres (!), outras perguntas se sucedem: o que eles querem de nós? Como saber? A professora Louise Banks é recrutada para uma força-tarefa que tem como missão abrir um canal de comunicação com os aliens. Ao lado do cientista Ian Donnely (Jeremy Renner), a especialista em linguagem tem a ideia de “alfabetizar” os recém-chegados e, após uma série de contatos, ela até que consegue, por assim dizer, entender o que eles “querem”. As sequências da dupla de ETs, apelidados de Abbott e Costello, “escrevendo” é impressionante. Pois é, fizemos contato.

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Amy Adams vive a linguista Louise Banks no filme do canadense Denis Villeneuve

Enquanto isso, nos outros pontos do mundo onde estão os casulos, outros grupos de cientistas, de outros governos, também buscam suas respostas. Não demora para que a inspiração bélica de uns supere o espírito filosófico de outros. No caso, por ser um filme de Hollywood, nada mais óbvio do que colocar a China como a nação mais ameaçadora, seguida da Rússia. Mas, ironicamente, é a partir de uma iniciativa do governo chinês que parte do dilema encontra sua resposta.

Entre uma e outra sequência dos apuros da humanidade para tentar estabelecer a comunicação, o espectador conhece um pouco da vida da professora, especialista em línguas, que já havia atuado para o governo norte-americano.  “Você fez um trabalho rápido com os vídeos dos rebeldes”, diz o coronel interpretado por Forest Whitaker, ao lembrar um trabalho feito no passado. “E vocês fizeram um trabalho rápido com os rebeldes”, responde ela, com certo rancor. Cenas esparsas revelam que houve um marido, uma filha que trouxe muitas alegrias, mas que morreu na adolescência após uma doença rara.

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A fotografia, de Bradford Young, é bela e inteligente, com alternâcia de closes e planos abertos

Como o tempo é relativo, presente, passado e futuro não existem como estamos acostumados a entender e, aos poucos, o que é, o que era e o que será se confundem. Em uma grande jogada de roteiro, é a passagem do tempo a chave para a existência da humanidade, mas, também, de quem vem de outros mundos. Ao compreender os ETs, a humanidade poderia, então, compreender a si mesma. O desfecho é um tanto quanto utópico, mas manda o recado. Entende quem quiser – ou puder.

“A Chegada” é um filme de grandes acertos. Além de um roteiro formidável, assinado por Eric Heisserer, e de um visual estonteante, há a fotografia de Bradford Young, que alterna closes e planos abertos com muita inteligência, e a trilha sonora do islandês Jóhann Jóhannsson, constante parceiro de Villeneuve, que vai além da música ao criar gritos e sussurros de arrepiar. Seriam humanos ou aliens? Será que importa?

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Filme é baseado no conto “A História de sua Vida”, do escritor Ted Chiang

“A Chegada” já é cotado como um dos filmes fortes para o Oscar e aumenta a expectativa em torno da sequência do clássico da ficção-científica “Blade Runner”, que será dirigida pelo mesmo Dennis Villeneuve no ano que vem. O canadense, o mesmo de filmes como “Incêndios”, “Sicario” e “O Homem Duplicado”, entre outros, resolveu manter um segredo no desfecho do filme. Mas o roteirista Heisserer não se conteve e entregou nas redes sociais: a frase dita em mandarim nos momentos finais é “Na guerra não há vencedores, só viúvos”.

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Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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