Metamorfose & encontro

carlaozinho_0256_400x400Açoitado pelo vento gélido que varria a pracinha, o menino tiritante se encolhia no desconjuntado banco de madeira, naquela noite. Porra: a mãe trabalhara a vida inteira como faxineira da praça pra que ele fosse descartado, tão vulnerável e fodido daquele jeito?! A coitada era tão dedicada que tirava o pó até das folhas das árvores frondosas…

Contudo, o que mais incomodava o menino, mais do que o frio, era a impossibilidade de enxergar cores: um inverno preto e branco pode ser muito mais cruel.

Do outro lado da pracinha, o flagelo gélido também castigava a menina, que igualmente se encolhia noutro desconjuntado banco de madeira. Porra: o pai trabalhara a vida inteira como jardineiro da praça pra que ela fosse descartada, tão vulnerável e fodida daquele jeito?! Logo aquele velho trabalhador dedicado, que não deixava que qualquer erva daninha enfeasse a paisagem…

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Crédito: Daft Pupil/creativescommons.org

Igualmente, o que mais incomodava a menina, mais do que o frio cortante, era a impossibilidade de enxergar as cores do mundo.

Simultaneamente e sem que um percebesse o outro, os corpos debilitados foram se enrijecendo e tomando uma forma alongada e cilíndrica, multicolor e recoberta por pelinhos defensivos contra interventores quaisquer.

Menino & menina se alimentavam das folhas das árvores, tão cuidados pelos respectivos progenitores, responsáveis também pela postura dos ovos. Que viraram larvas. Depois, pupas.

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Crédito: Craig Cloutier/creativescommons.org

Enquanto eram larvas, prendiam-se às superfícies por resistentes fios de seda. Evoluindo para pupas, permaneceram imóveis, sobrevivendo graças às reservas nutritivas acumuladas na fase de larva.

Quando os seres lá dentro ficaram completamente formados, as pupas abriram e eles puderam ganhar o exterior. Já haviam alcançado o status de imago, no qual podiam se mover e reproduzir.

A primeira novidade que notaram, na manhã que já raiara, foi a película entre eles, na qual perceberam cores pela primeira vez na vida.

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Crédito: Kenneth Freeman/creativescommons.org

Hipnoticamente, sentiram-se atraídos pelo tênue show de cores, e caminharam, cada um a partir do ponto de onde eclodiram, até se encontrarem sob o instável arco-íris.

E aí, se beijaram longamente.

Como? Ah, você, caro leitor, esperava que no gran finale os amantes ostentassem belas e brilhantes asas? Desculpe decepcioná-lo, porém isso nunca esteve nos planos…

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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