Parece conto de fadas, mas é real: a história do primeiro “arab idol” da Palestina

DaniPrandi_0188c_500No meio de todo sofrimento, a população de Gaza, na Palestina, não desgruda os olhos da TV. O ano é 2013 e o resultado do “Arab Idol” logo será anunciado. O programa que escolhe o melhor cantor(a) da temporada tem o poder de mudar vidas. Nada será como antes para aquele que for escolhido o “ídolo”, destaca o apresentador (sabemos que não é bem assim, tanto que, na versão brasileira, quem se lembra dos vencedores?). Mas, no mundo árabe, a incrível história de Mohammed Assaf, retratada no filme “O Ídolo”, será lembrada por muitas décadas por todo o simbolismo que carrega.

Com direção de Hany Abu-Assad, o mesmo de “Paradise Now” (2006) e “Omar” (2014), o filme, o escolhido da Palestina para disputar uma vaga no Oscar 2017 na categoria filme estrangeiro, emociona ao contar uma história real em tom de conto de fadas. Vale lembrar que seus dois filmes anteriores foram indicados ao Oscar, mas não levaram. Será que é desta vez?

Apesar da dureza do cenário, a alegria predomina, principalmente na primeira parte do filme, que revisita a infância do protagonista. Mohammed (Qais Atallah) tem o dom de cantar e, incentivado pela irmã mais velha, Nour (Hiba Atallah, um dos destaques do elenco), acredita que tudo é possível. O ano é 2005 e, de bicicleta pelas ruas e praias de Gaza, as crianças sonham com um mundo fora de seu alcance, para além dos muros que os impedem a passagem.

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O filme “O Ídolo” emociona com a história real, em tom de conto de fadas, de Mohammed Assaf

Nour é uma garota determinada, estudiosa, corajosa, que joga futebol, encara os meninos e não quer nem pensar no que o destino reserva quando chegar a hora de cumprir seu papel de mulher na sociedade muçulmana. Com o irmão e mais dois garotos, montam uma banda. Atrás de instrumentos de verdade, acabam nas mãos de um contrabandista que os engana e sentem na pele como a vida pode ser injusta.

Mas a banda supera as dificuldades e passa a tocar em festas de casamento. A voz de Mohammed é vista como uma bênção, mas a presença de uma menina no palco não é aceita, o que os faz criar uma solução inusitada: Nour passa a tocar sua guitarra escondida atrás de uma cortina. Durante uma das apresentações a menina passa mal e desmaia. No hospital, vem a má notícia: há uma séria doença renal e ela terá de fazer diálise e, quem sabe, “comprar” um novo rim. A família, humilde, se desespera.

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A voz de Mohammed é vista como uma bênção, mas a presença de uma menina no palco não é aceita

O irmão mais novo tenta de tudo para salvá-la, mas só fica a tristeza e a saudade. Anos depois, em 2012, Mohammed (agora interpretado por Tawfeek Barhom) trabalha de taxista em Gaza. Ao seu redor a destruição tomou conta, o pouco da beleza que restava foi embora. Um dos ex-integrantes da banda agora é da polícia religiosa, radical, que despreza a música por acreditar que ela o afasta de Alá; o clima é de total desesperança e o protagonista, com os olhos tristes, deixa seu dom de cantar de lado.

Um dia reencontra uma garota que conheceu no hospital, também doente crônica renal, e volta a sonhar. A sequência no qual canta para a jovem durante uma corrida de táxi, quando imagens reais de Gaza, que sofre com os bloqueios impostos por Israel desde 2007, se misturam com a ficção, é uma das mais belas do filme. A música está de volta e Mohammed tenta, via Skype, participar de uma audição de um show de calouros, mas as dificuldades são maiores que sua vontade. Até que, ao ver a chamada do “Arab Idol” na TV, resolve fugir. O Egito está logo ali, do outro lado do mar, e Mohammed busca o contrabandista que o enganou na infância para cobrar a dívida: quer um visto para escapar da Palestina.

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Mohammed (Qais Atallah) encanta o público, a mídia logo o transforma em exemplo de superação

A família o apoia e, como nos bons contos de fadas, o jovem cantor conta com a sorte e a ajuda de muitos durante sua escapada. No Cairo, um novo mundo o recebe. Seu talento é confirmado e, depois, vem aquela sequência de semanas e semanas de apresentações ao vivo no repetido formato do programa “Ídolos”, quando sua voz encanta o público e todo o mundo árabe. A mídia logo o coloca como um símbolo de superação. A pressão é tanta que o jovem chega a ter um ataque de pânico, mas vai adiante, até a final em Beirute, no Líbano.

E voltamos para aquela noite de 2013 quando, em toda a Palestina, as guerras, as desgraças e as injustiças são esquecidas. É hora de festejar. O “arab idol” é de Gaza pela primeira vez na história. Nas imagens finais, o verdadeiro Mohammad Assaf e, inclusive, o momento do anúncio de sua vitória no programa, emocionam.

“O Ídolo”, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros no dia 26 de janeiro.

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Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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5 comentários

  1. Dani…Feliz Natal e um Ano.Novo pleno de saúde.alegria e paz…amei a indicação do filme O ídolo…assim que possível quero assistí-lo…

    • Daniela Prandi Melillo

      Feliz Natal e um ótimo 2017 para vc e família Floripes! Assista sim que o filme é muito bacana!

  2. Jurandyr Pereira da Costa

    E dizer que essa jornalista esteve em nossa casa por dois dias. Não sei se 2017 será bom para mim; afirmo, no entanto, que este finalzinho de ano está sendo frutífero, fiz novos amigos, coisa rara nestes tempos de intolerância e distanciamentos. Foi nosso presente de Natal: conhecer Daniela e Marcos. Vou esperar que “O
    Ídolo” chegue a Cabo Frio”. Feliz 207 para você e Marcos.
    Jurandyr e Adélia

  3. Olá Jurandyr também gostamos muito de conhecer vocês! Que bom encontrar novos amigos! Desejamos um ótimo 2017, com muitos bons filmes e muita inspiração.

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