Mãe é mãe, paca é paca.

Cacalo FernandesO que uma bola daquele tamanho estaria fazendo no meio da rua. Mas estava presa por um cabo de aço. Parecia o mundo agarrado pelo rabo.

Comecei a andar um pouco mais rápido. Virei a esquina. Espiei pelo rabo de olho. Nada. Espiei de novo. E não é que ela apareceu? Que praga era aquela? Acelerei ainda mais os passos. Virei outra esquina.

Olhei de novo pelo canto dos olhos. Nada. De novo. Nada. Ufa! Desacelerei os passos. Passou a desgraça. Ia olhar pra cima. Resolvi Não fazer nada. Anda rápido, vai.

E não é que a “redonda” apareceu de novo. Ela ocupava a rua toda. Resolvi correr. E quanto mais eu corria mais ela caminhava rápida. Não acredito. Entrei em outra rua. Mas era uma sem saída! No final tinha um muro enorme. Tentei pular. Não deu. Pulei mais forte. Mais forte ainda. Impossível! Socorro!!!!

Acorda menino! Você vai cair da cama!

Cacalo Fernandes_bola grande

Despertei com os gritos de minha mãe. Abri os olhos. Não tinha mais ninguém no quarto. Abri os olhos. Passou.

Tomei um café. Quer dizer, comecei engolindo o que tinha na mesa. Depois relaxei. Fui de leve. “Pegue cada coisa como uma hóstia”, pensei. E comi mansamente, parecia guiado pelo Papa. Era um santo. Saí.

Estava preparado para caminhar na lagoa. Era um lugar interessante. Entre as árvores que sinalizavam o caminho, tinha uma lagoa. Ali os patos nadavam em ritmo suave. Era meu lugar preferido para andar. E cada volta tinha quase quatro mil metros. Parti.

Cacalo Fernandes_lagoa com patos 4

A primeira volta era a mais complicada. Dava vontade de parar. Mas fui adiante. Na hora em que terminasse a primeira volta era só seguir. Poderia aumentar o ritmo. Olhei um pouco para o lago. Mas não dava para fazer isso muito. Senão não era mais caminhada. Virava passeio.

Terminei a primeira. Nem olhei mais de lado. E lá fui para a segunda volta. Aumentei as passadas. Pensei na minha mãe. “Acorda menino”… Eu não era mais menino. Eu já passara por muitos caminhos. Por isso que dizem que mãe é mãe. Os filhos estarão sempre na partida da vida.

Cacalo Fernandes_lagoa com patos 1

 

Estava caminhando bem. Não estava com muita canseira, mas o suficiente para querer apagar minha mente. Mas não olhava mais para pato nenhum. Atrapalhava. Será que com todo mundo acontece isso? Mas comigo acontecia. Minha cabeça começava a dormir. Minhas pernas, ainda não.

Era agora a derradeira volta. Não acelerei nem acalmei os passos. Fui enfim para aquela que seria minha última volta. No final estava bem cansado. Estava chegando. Não caía no chão por que não ficava bem.

Depois de três voltas estava curado.

Curado de que?

Não importa. Estava curado.

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Foto Martinho Caires

 

Sobre Cacalo Fernandes

Ser paulistano foi o início de uma história de quem certo dia decidiu ser um escrevinhador. Mas quando a calça deixou de ser curta, lá no início, ajudou a construir esse lado que um dia pareceu esquisito. E hoje acho que não poderia ser outro.

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