Tudo ao mesmo tempo para Isabelle Huppert

Sabe aquele filme recente com a Isabelle Huppert? Qual? Tem “Elle”, “O Vale do Amor”, “O Que Está Por Vir”… são tantos filmes estrelados pela atriz de 64 anos nos últimos meses que vem a pergunta: como é que ela consegue? A francesa muda de personagem como quem troca de roupa e a cada atuação, além de elogios e prêmios, fica a comprovação de que é uma das grandes atrizes dos nossos tempos. Com seu tipo “comum”, consegue realmente se transformar, o que rendeu a ela o apelido, não sei se maldoso, de “Meryl Streep da França”.

Entre os filmes recentes da atriz, o que mais provocou polêmica e, portanto, saiu do circuito cult para se tornar notícia, foi “Elle”. Pela interpretação da fria empresária dona de uma empresa de games que é violentada, Isabelle Huppert chamou atenção e ultrapassou fronteiras. Venceu o Globo de Ouro em janeiro e foi indicada pela primeira vez ao Oscar, que perdeu para Emma Stone, por “La La Land”.

“Elle” tem direção do holandês Paul Verhoeven, de “Instinto Selvagem” (1992), que está no auge aos 78 anos e é famoso por seu gosto pelas perversidades. A doentia “relação” entre a personagem de Isabelle Huppert e seu agressor rendeu debates sobre a suposta misoginia presente no filme e gerou discursos feministas acalorados, mas o que fica depois do barulho é o bom e estranho cinema de Verhoeven, que segue um estilo Hitchcock moderno, carrega na tensão e gosta mesmo é de provocar. O filme é baseado em livro do mesmo autor do cultuado “Betty Blue”, o francês Philippe Djian, e a personagem segue a linha daquelas mulheres que são “difíceis de entender”.

Com Gerard Depardieu em "Vale do Amor" (Foto Divulgação)
Com Gerard Depardieu em “Vale do Amor” (Foto Divulgação)

Em outro filme tocante, mas bem menos badalado, a atriz surge praticamente como ela mesma. “Vale do Amor” reúne, mais de 30 anos depois de “Loulou”, de Maurice Pialat, a dupla Isabelle Huppet e Gerard Depardieu. Com direção de Guillaume Nicloux, o filme acompanha o reencontro de um casal de atores franceses divorciado há muito tempo que enfrenta o suicídio do filho em pleno Grand Canyon. A vida imita a arte ou ao contrário e, em “Vale do Amor”, eles enfrentam o calor do deserto e discutem a relação em uma trama com um toque metafísico e um tom nostálgico.

O filho, antes do suicídio, enviou aos pais informações de como faria “contato” com o mundo dos vivos. E lá vão eles, incrédulos ou nem tanto, seguir as orientações para esperar que o fantasma do rapaz finalmente apareça para que eles possam ter alguma explicação sobre a perda do filho. O filme é praticamente um duelo entre dois dos grandes nomes do cinema francês e é triste, duro e implacável ao retratar a passagem do tempo e dos arrependimentos.

Outra atuação de Isabelle que impressionou nesta temporada foi em “O Que Está Por Vir”, tema de coluna anterior neste Blog (leia aqui http://asn.blog.br/2016/12/21/o-que-esta-por-vir-retrata-o-implacavel-futuro-que-nos-espera-logo-ali/).

E ainda teremos muito mais Isabelle Huppert nos próximos meses. No Festival de Cannes 2017, de 17 a 28 de maio, cuja seleção de filmes foi anunciada na semana passada (13 de abril), a atriz estará em dois trabalhos escolhidos para a mostra principal: “Happy End”, do austríaco Michael Haneke, e “Claire’s Camera”, do sul-coreano Hong Sang-soo.

O primeiro, sobre uma família francesa que tem que lidar com refugiados em Calais, desde o anúncio já está entre os mais cotados para os principais prêmios. Haneke, vale lembrar, é duas vezes vencedor em Cannes, com “A Fita Branca” e “Amor”, e Isabelle Huppert é presença querida no prestigiado festival: além de levar o prêmio de melhor atriz duas vezes (em 1978, por “Violete”, de Claude Chabrol, e em 2001, pelo belo “A Professora de Piano”), já foi presidente do Júri, em 2009.

Para quem quiser conferir, tanto “Elle” quanto “Vale do Amor” e “O Que Está Por Vir” estão disponíveis no Brasil nos serviços on-demand, como o Now, da Net.

 

TRAILERS

ELLE

 

VALE DO AMOR

 

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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