O verdadeiro destino de Laika

Mais uma vez, como ocorria historicamente nos últimos 50 anos (contagem baseada no padrão temporal do planetinha cujos habitantes chamam de Terra), a moção dividia ferozmente as posições dos participantes do Conselho das Espécies de Cabeça Feita (CoEsCaFe) já reunidos, via teleconferência, na 5ª Deliberação Decenal sobre a Questão T (é, “T” de Terra, o que justificava adotarem o padrão temporal daquele planeta tão controverso).

Só que, na verdade, ninguém duvidava sobre para qual decisão a balança penderia quando finalmente ingressasse na comunicação os conselheiros do planeta Caxotturus — que sempre demoravam um pouco mais para se manifestar, talvez pela lentidão natural da conexão, face ao distanciamento do planeta do centro de deliberações; ou porque apenas eram soberbamente folgados, mesmo.

E bota soberba: com seus corpos peludos, porém esguios, deslizando eretos, com as mandíbulas erguidas e caudas eriçadas, eles foram ocupando todos os espaços, corações, mentes e pixels. Só para proclamar o óbvio, nas palavras do porta-voz:

— Nobres pares, infelizmente a resposta de nossa conselheira-mor, Laika, ainda é “não; eles não estão prontos…”

À frente da elegante delegação caxotturiana estava a própria Laika. Os demais participantes da teleconferência não deixaram de notar que, não obstante 60 anos (medida terráquea, novamente) de treinamento, ela ainda tinha muita dificuldade em se manter bípede, como seus companheiros canídeos. Talvez fosse por isso que ela nunca se animasse a anunciar pessoalmente o voto do glorioso povo de Caxotturus.

O relator da deliberação ainda tentou:

— Amigos caxotturianos, entendemos vossa reserva, porém, devo observar que o povo dominante da Terra tem avançado muito na conscientização sobre a defesa e preservação de seus seres vivos co-existentes. O próprio caso da Laika, inclusive, suscitou uma mudança de mentalidade das agências espaciais sobre o uso dos chamados “animais”, deixando, há muito, de enviar espécimes em missões sem a garantia de regresso seguro.

— Sabemos disso, relator, — interpôs o porta-voz caxotturiano — porém, ainda enviam espécimes ao espaço, macacos e até micro-organismos, arbitrariamente, mesmo com todos os riscos que podem advir dessa decisão.

Laika continua encarando isso como inaceitável.

Crédito: New lluminati/creativecommons.org
Crédito: New lluminati/creativecommons.org

Ante o silêncio generalizado na videoconferência, o porta-voz recrudesceu:

— Sem contar que são mínimos os esforços humanos pra consolidar fontes de energia nutricional e de fornecimento de matérias-primas que não impliquem sacrifício de outros seres vivos. Temos também escabrosos exemplos de maus tratos, incluindo trabalho escravo. Sem contar que a espécie humana já representa um sério perigo de destruição do próprio planeta, por causa de suas escolhas ambientais inadequadas.

Pronto: a partir dali, os demais conselheiros já se resignaram que o CoEsCaFe seria obrigado a esperar mais uma década (tempo padrão da Terra, lembra?) para tentarem de novo revogar o embargo ao desenvolvimento da tecnologia terráquea concernente a conquistas espaciais. Se não fosse o embargo, certamente os cientistas terráqueos já teriam, há anos, dominado o acesso a buracos de minhoca, dobra espacial etc. Os mundos congregados no CoEsCaFe continuariam, remotamente, embaralhando equações e obscurecendo teorias que permitiriam os avanços.

* * *

Já convicta da nova vitória, Laika se deu ao luxo de perder-se em reminiscências.

“Eu era só uma cadelinha de rua, levemente aparentada com raças de cães similares ao husky, oriundas da Sibéria. Quando me cataram, para iniciar os preparativos, eu tinha uns três anos de idade e não pesava mais do que 6kg. Antes que eu fosse oficialmente batizada como ‘Laika’, me deram uma sucessão de nomes: Kudryavka (crespinha), Zhuchka (bichinho) e Limonchik (limãozinho). Finalmente optaram por ‘Laika’, que é o termo genérico pra designar cães com os quais eu tinha algum parentesco.

Eu dominava lá a linguagem de minha espécie, porém não atinava ainda com o propósito daquilo que meus captores chamavam de ‘missão’. E isso, mesmo sabendo depois, que duas coleguinhas minhas já tinham sido usadas em testes; fatais pra elas.

Fui lançada ao espaço a bordo da nave Sputnik 2, em 3 de novembro de 1957. Nem senti muito desconforto, graças ao treinamento e à adaptação do Sputnik à minha morfologia. Minha tristeza, porém, foi cimentada pelo conhecimento que só adquiri depois: os cientistas já previam que o Sputnik 2 não estava preparado para regressar à Terra de forma segura, pelo que já se sabia que Laika não sobreviveria à viagem.

Eles até planejaram dar-me comida envenenada, que eu consumiria forçosamente depois de dez dias. No entanto, isso não ocorreu como planejado. Durante anos, houve explicações contraditórias sobre a minha morte, dizendo-se, às vezes, que eu havia morrido por asfixia quando as baterias falharam, ou que haviam feito eutanásia conforme ‘planos originais’. Em 1999, fontes da agência espacial asseguraram que sobrevivi pelo menos quatro dias, e depois pereci por causa do superaquecimento da nave. Triste réquiem, não?”

* * *

Crédito: Agência Espacial Soviética/reprodução
Crédito: Agência Espacial Soviética/reprodução

“Ainda bem que não foi nada disso que ocorreu: quando o Sputnik já entrava em colapso e eu definhava, uma nave enorme e brilhante nos recolheu. A minha cápsula foi descartada como o lixo espacial que deveras se tornara, mas eu fui medicada e alimentada por aqueles cachorros diferentões, que me levaram para o planeta deles. Onde me submeteram a melhoramentos gênicos que, inclusive, ampliaram em muito minha inteligência e longevidade.

E, mais que tudo, me honraram com o posto de conselheira-mor do bondoso e justo mundo de Caxotturus.

Sendo assim, terráqueos sem noção: antes de conhecerem verdadeiramente os mistérios cósmicos, aprendam a ser gente!”

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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