Sonhos, acalantos e telômeros

Andre_PB_400x400Crianças detestam ir para a cama sem sono e também detestam quando têm de sair delas.

Levantem as mãos aqueles pais ou responsáveis que nunca encontraram dificuldade em despertar seus pimpolhos pelas manhãs! Chegar atrasado ao colégio é algo tão rotineiro quanto ficar horas convencendo o pequeno a se levantar, é como se eles estivessem dopados com algum calmante de cavalo, simplesmente não se levantam e, quando o fazem, andam como zumbis rastejando pelos cantos enquanto expressam resmungos impronunciáveis.

Dormir é de fundamental importância para o desenvolvimento físico e psicológico de qualquer pessoa, e a falta de sono é ainda mais sério quando se trata de crianças; isso vai além do típico mau humor matinal.

Pesquisadores da Universidade de Princeton e Columbia, nos EUA, descobriram que crianças que dormem pouco apresentam envelhecimento celular comparável a um adulto. Isso é causado por um processo de encolhimento nos chamados telômeros.

A pequena Gabriela como tantas outras crianças e a importância de se dormir bem (Foto Arquivo Pessoal)
A pequena Gabriela como tantas outras crianças e a importância de se dormir bem (Foto Arquivo Pessoal)

Os telômeros são estruturas de DNA-Proteínas encontradas nas extremidades dos cromossomos, e parte do papel dos telômeros é proteger nosso DNA e ajudar a célula a se dividir – crucial para o crescimento e a reparação do corpo. Essa espécie de “capa protetora” dos cromossomos fica cada vez mais curta. À medida que as células se dividem, é gradual e lento, mas algo constante. Quando os telômeros ficam muito pequenos, a célula já não é mais capaz de se dividir e, assim, fica impossibilitada de reparar os tecidos do corpo, sendo que isso está relacionado com o envelhecimento.

Não é de hoje que pesquisadores sabem que o comprimento do telômero está envolvido com processos de envelhecimento. Esse encurtamento sempre foi estudado em adultos, mas é a primeira vez que isso foi observado em crianças, o que torna esse trabalho inédito e de grande ajuda para os cuidados infantis e para profissionais de saúde.

Os pesquisadores buscaram em um banco de dados, e ali coletaram informações de 1567 crianças com idade de 9 anos, incluindo dados sobre as horas diárias de sono de cada uma delas. Após, foi coletado DNA de suas salivas para calcular o comprimento dos telômeros e, com isso, puderam comparar o comprimento com as horas de sono de cada criança. Eles descobriram que todas as crianças que apresentaram poucas horas diárias de sono tinham telômeros menores quando comparados com aquelas crianças que dormiam mais.

É importante ressaltar que essa pesquisa não veio trazer à tona nenhuma descoberta médica assustadora, pois ainda não se sabe bem como as horas de sono interferem no comprimento dos telômeros, mas existem vínculos fortes entre telômeros curtos e algumas doenças cardíacas e também com o baixo desenvolvimento cognitivo.

Os cientistas que fizeram essa descoberta ainda não sabem se crianças com os telômeros reduzidos podem reverter essa situação voltando a dormir mais, mas o estudo veio reiterar a importância das horas de sono. Estudos sugerem que crianças devem dormir entre 9 e 11 horas de sono diariamente.

 

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E nossas crianças no Brasil, elas estão dormindo suficientemente? Em períodos letivos vemos a velha batalha diária com a cama, ter de levantar logo cedo realmente é um pesadelo para os pequenos. Não sou favorável ao horário de aulas no Brasil ser tão cedo, não sei bem quem estipulou esse horário, mas suspeito que isso tenha sido mais um ajuste exigido pelo mercado de trabalho do que propriamente algo pensado por pedagogos e psicólogos. No Brasil, o horário de trabalho “coincide” com o horário letivo algo feito para facilitar a vida – deixo o filho no colégio e sigo ao trabalho. Vejo uma mudança desse porte como algo bem difícil de alcançar. Por ora, colocamos nossas crias mais cedo na cama e, assim, podemos manter as 9-11 horas de sono.

 

 

 

O trabalho “Sleep Duration and Telomere Length in Children” foi publicado pela revista medica The Journal of Pediatrics e pode ser encontradohttp://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022347617306352

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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