O “milagre ateu” da Flip ou quem quer namorar Pilar, a viúva de Saramago?

DaniPrandi_0188c_500Desde “José e Pilar”, documentário que revelou a intimidade intelectual do casal José Saramago e Pilar del Río, a personalidade provocadora da jornalista espanhola chamou minha atenção. Anos depois, conferir sua apresentação no lugar destinado ao altar da Igreja Matriz, palco central da Flip 2017, a Feira Literária Internacional de Paraty (RJ), foi um “milagre ateu”, como a própria definiu.

Pilar brilhou na mais politizada das edições da Flip, que chegou aos 15 anos com muitas mulheres na programação após a polêmica edição anterior, que teve um reduzido número de convidadas. Foi a estrela entre escritores e aficionados que encaravam o tortuoso caminho pelas ruas de pedra entre a Matriz e a Casa Amado Saramago, um dos pontos altos da programação paralela. Para muitos, a missão (cumprida) era conseguir uma foto, uma palavra, um autógrafo ou um sorriso de Pilar.

O debate na Igreja Matriz, palco central da Flip 2017 (Foto Daniela Prandi)
O debate na Igreja Matriz, palco central da Flip 2017 (Foto Daniela Prandi)

Apesar de tanta atenção, a jornalista, que era 28 anos mais nova que o marido, Nobel de Literatura de 1998, mostrou que está carente. Pilar, que já disse várias vezes que não gosta de ser chamada de “a viúva”, tem 68 anos e, pelo que demonstrou, poderia (e gostaria) de viver um novo romance. Corajosamente, porém, lamentou: “Nunca recusei nenhum convite, a verdade é que não houve convites.”

Durante a Flip teve um certo clima “quem quer namorar a Pilar?” que, por pouco, não rouba a cena. A própria ajudou, quando pareceu um pouco ansiosa ao enviar um recado escrito ao ator e agora autor Lázaro Ramos no primeiro dia da programação. No “correio-elegante” tascou logo um “quer casar comigo?”. O ator encarou na brincadeira, mas espalhou nas redes sociais. No dia seguinte, a “notícia” era destaque nas colunas de fofocas.

O já legendário bilhete para Lázaro Ramos, outra estrela da Flip deste ano (Foto Reprodução)
O já legendário bilhete para Lázaro Ramos, outra estrela da Flip deste ano (Foto Reprodução)

Pilar brincou sobre o caso durante sua apresentação na programação principal com o mediador Alexandre Vidal Porto, que também teve que encarar uma “proposta”. Homossexual, Porto foi sincero e aplaudido. A princípio, Pilar iria dividir a mesa com a arqueóloga Niéde Guidon, que cancelou sua participação por questões de saúde. No “monólogo” no palco montando na Igreja Matriz, a espanhola, então, teve tempo para variar os assuntos e, por diversas vezes, arrancou aplausos “em cena”.

Provocadora, falou principalmente sobre feminismo e, inevitavelmente, sua relação amorosa com Saramago. “Foi um encontro num hotel de Lisboa. No bar, que fique claro, não no quarto, isso veio depois”, relatou, sobre quando o conheceu. “Ele disse que sentiu a terra tremer quando eu entrei. Mas escritores são bons em fazer frases”, brincou.

Além do romance, o dia a dia também foi lembrado com humor. “Saramago escrevia no andar de cima e trabalhava ouvindo música. Eu não consigo escrever ouvindo música. Não era fácil, principalmente porque ele ouvia cinco vezes seguidas o mesmo disco de Leonard Cohen”, contou.

Pilar: sempre sorrisos em Paraty (Foto Daniela Prandi)
Pilar: sempre sorrisos em Paraty (Foto Daniela Prandi)

Para tornar tudo ainda mais íntimo, mostrou que leva “a aliança de Saramago e um mundo, com pedras que representam todos nós, representam que podemos conviver, estar juntos” na correntinha enrolada no pescoço.

Ao comentar sobre política e cultura, destacou a importância da ética e da consciência. “A razão pode estar governada pela ética. Que a usemos humanamente.” O trabalho na Fundação José Saramago também teve vez, assim como o trabalho permanente de resgate da Declaração Universal de Deveres Humanos, proposta formulada por Saramago para o discurso do Prêmio Nobel, em 1998, episódio também lembrado por Pilar.

Durante a Flip, uma pequena multidão esticava o pescoço para conferir o que acontecia na pequena sala da Casa Amado Saramago, que reuniu pensadores em torno de temas que podem ser resumidos simplesmente e utopicamente em “como fazer um mundo melhor”, a maioria das vezes com a presença de Pilar. Na casa, além do lançamento do livro “Jorge Amado e José Saramago – Com o Mar Por Meio”, com a troca de cartas entre os dois, uma exposição de fotos registrava a amizade dos escritores. Ali era a melhor oportunidade para encontrar Pilar, sempre disposta a sorrir.

Livro com cartas entre Saramago e Jorge Amado foi lançado na Flip 2017: conversas em alto nível (Foto Daniela Prandi)
Livro com cartas entre Saramago e Jorge Amado foi lançado na Flip 2017: conversas em alto nível (Foto Daniela Prandi)

E, como o universo aqui é cinema, vale revisitar o documentário “José e Pilar”, que uniu duas produtoras renomadas, a brasileira O2, de Fernando Meirelles, e a espanhola El Deseo, dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar para bancar o projeto do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. O documentário registrou o cotidiano de Saramago entre 2006 e 2009. O português, que morreu em 2010, chegou a assistir e aprovar uma primeira versão do filme, lançado naquele mesmo ano.

Mendes deu início aos trabalhos quando Saramago começou a escrever “A Viagem do Elefante”, seu penúltimo romance, mas é a relação entre o casal que mais chamou atenção. E, mesmo sendo um documentário, é um filme romântico e responsável por revelar ao mundo uma das mulheres mais interessantes desses nossos tempos. Gracias Pilar!

 

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Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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