E o palhaço o que é? Drogado, frustrado e exagerado em “Bingo – O Rei das Manhãs”

DaniPrandi_0188c_500Uma panorâmica pelo Centro de São Paulo não deixa dúvidas. Estamos de volta à década de 1980 e o Mappin se destaca no cenário. Parece que foi ontem quando as manhãs do SBT eram animadas pelo Bozo, um palhaço cuja franquia importada dos EUA conseguiu derrubar a audiência do Xou da Xuxa zoando com as crianças pra valer. A máscara do palhaço foi usada por 12 atores diferentes em dez anos, mas quem entrou para a história foi Arlindo Barreto. E não da melhor maneira.

Em sua estreia na direção, Daniel Rezende, mais conhecido como editor do já lendário “Cidade de Deus”, leva para as telas a polêmica trajetória de Arlindo Barreto em “Bingo – O Rei das Manhãs”. Rezende, que tem 42 anos e, na infância, foi ao programa do Bozo, preferiu fazer um filme “inspirado” em fatos reais. Então, Arlindo é Augusto, Bozo é Bingo, Xuxa é Lulu e a TV Globo é a TV Mundial, por exemplo. E nada disso faz diferença.

Bingo e Gretchen (Emanuelle Araújo), única personagem com nome mantido (Foto Divulgação)
Bingo e Gretchen (Emanuelle Araújo), única personagem com nome mantido (Foto Divulgação)

Vladimir Brichta cumpre muito bem o papel de protagonista de uma trajetória de vida marcada por excessos e que um dia foi parar na manchete do extinto jornal “Notícias Populares”: “Bozo era movido a cocaína”. Para extrair o drama da comédia, o roteirista Luiz Bolognesi aposta em um jogo de camadas que vão sendo descobertas, em uma referência que lembra o ato do palhaço que vai retirando sua máscara. O filme está longe, muito longe, da comédia pastelão, apesar de arrancar risadas.

No filme, Augusto é um ator de pornochanchada em busca da fama. A ex-mulher é a mocinha da novela das oito e ele começa a história divertindo o filho fazendo sombras na parede antes de gravar uma cena pelado. Após uma experiência frustrante em uma novela da TV Mundial, chefiada por um poderoso vivido por Pedro Bial, acaba fazendo, por acaso, um teste para viver o Bozo na emissora concorrente. Seu estilo irreverente, e bota irreverente nisso, agrada e lá vai ele esconder o rosto atrás da máscara de palhaço. Por contrato, ninguém pode saber quem é Bingo.

Vladimir Brichta encara muito bem o protagonista (Foto Divulgação)
Vladimir Brichta encara muito bem o protagonista (Foto Divulgação)

O protagonista busca ajuda no melhor lugar, o picadeiro. No circo, um dos “professores” é Domingos Montagner, que morreu no ano passado afogado no Rio São Francisco durante o intervalo da gravação de uma novela. Montagner integrava a trupe La Mínima e foi sob a lona erguida em Cidade Tiradentes, na periferia paulistana, que Brichta fez seu “batismo” vestido de palhaço.

Logo fica evidente que o humor dos gringos não vai funcionar por aqui. Até que o protagonista tem a brilhante ideia de abrir o programa, que chegou a ficar quatro horas ao vivo, para a participação por telefone. É impossível controlar o que será dito e, assim, entre anjinhos e diabinhos, o palhaço tem se virar para escapar de xingamentos, piadas de mau gosto e outras situações nem um pouco desejadas pela emissora enquanto o programa atrai cada vez mais a atenção do público.

Filme está distante da comédia pastelão (Foto Divulgação)
Filme está distante da comédia pastelão (Foto Divulgação)

Filho de uma atriz decadente, vivida por Ana Lúcia Torres, o personagem Augusto tomou gosto pelos palcos ainda na infância, quando acompanhava a mãe nos aplausos finais. Agora, escondido atrás da máscara de palhaço, sua alegria vai embora balada após balada, regadas a álcool, muitas drogas e muitas mulheres.

Em uma boate conhece a rebolativa Gretchen, a única personagem cujo nome foi mantido. Na vida real, Arlindo e a cantora tiveram um caso e por isso “Conga, Conga, Conga” foi parar em um programa infantil, com close vocês sabem onde, em pleno horário da manhã na TV. Emanuelle Araújo, apesar de não ter o principal atributo de Gretchen, encara muito bem o papel. No elenco, Leandra Leal, que faz a produtora do programa de TV, e Augusto Madeiro, o cinegrafista, se destacam.

O saudosismo toma conta quando um Fiat 147 Azul, um Opala SS laranja, fitas cassete Basf ou o brinquedo Aquaplay aparecem. Mas é a trilha sonora que deixa tudo ainda mais nostálgico, com “Tudo Pode Mudar”, da banda Metrô, ou “Serão Extra”, do Dr. Silvana, entre tantas outras escolhas certeiras.

 

 

 

 

 

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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