Insônia causa Alzheimer que causa insônia

Se um funcionário de uma empresa no Japão cair de sono no meio de uma reunião, talvez ele conseguirá uma promoção por estar trabalhando muito e dormindo pouco, um sinal de dedicação e esforço para a empresa. A isso os japoneses chamam de inemuri, o ato de cair exausto de sono em qualquer lugar.

Não dormir apropriadamente está ligado a diversas enfermidades. Há um tempo, falei sobre a  relação entre os telômeros e as poucas horas de sono dormidas por crianças, e a relação com o envelhecimento celular.

Dormir bem, hoje em dia, talvez seja o sonho de muitas pessoas; pela vida ocupada ou pelo stress estamos dormindo cada dia menos. Privar-se de dormir pode ter sérias consequências para a saúde mental, inclusive para o desenvolvimento da doença de Alzheimer.

Mais de 44 milhões de pessoas ao redor do mundo sofrem dessa doença.

Vemos um aumento no número de pessoas diagnosticadas, na mesma medida em que a expectativa de vida aumenta, e junto com isso também vemos um decréscimo no total de horas dormidas.

(Sleep, autor: Jon Åslund, creative commons)
(Sleep, autor: Jon Åslund, creative commons)

Não só os problemas em dormir desempenham um papel na diminuição das habilidades mentais que caracterizam a doença de Alzheimer, mas dormir o suficiente é um dos fatores mais importantes que determinam se você desenvolverá a condição dessa doença no futuro.

O Alzheimer ocorre quando uma forma anormal de uma proteína chamada de beta-amiloide se acumula e se agrupa como placas em certas áreas do cérebro, prejudicando as funções deste. O mais curioso é que essas placas se agrupam somente em algumas partes do cérebro, e as razões disso ainda não são muito claras. Existe um padrão na localização no cérebro onde as placas amiloides se acumulam, que é na parte central do lobo frontal. Essa região no cérebro é essencial para a geração elétrica do sono profundo chamado NREM.

Não dormir suficientemente, noite após noite, ano após ano, aumentaria o acúmulo dessas placas no cérebro e aumentaria diretamente o risco de se desenvolver a doença.

O pesquisador Dr. Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, fez uma descoberta incrível e espetacular no campo das pesquisas do sono. Trabalhando com ratos, ele encontrou uma espécie de rede de limpeza de resíduos, chamada de sistema glinfático que existe dentro do cérebro. Esse sistema é formado pelas células gliais que promovem uma eliminação eficiente de proteínas e metabólitos do sistema nervoso central. Como o sistema linfático drena contaminantes do nosso corpo, o sistema glinfático usa o líquido cérebro espinhal para coletar e destruir “sujeiras” geradas pelo trabalho árduo de nossos neurônios.

Apesar do sistema glinfático ser de alguma maneira ativo durante o dia, é no sono NREM que o sistema de sanitização atinge o ponto máximo, expelindo de 10 a 20 vezes mais que durante o dia.

Essa descoberta já não sendo incrível o suficiente, Dr. Nedergaard fez uma segunda descoberta e que explica por que o sistema é tão eficiente na limpeza durante a noite. Durante o sono NREM, as células gliais encolhem de tamanho em incríveis 60% o que cria um espaço enorme para o líquido cerebroespinhal limpar esses “entulhos”. Imaginem que os prédios de uma grande metrópole encolhessem de tamanho, assim o serviço de limpeza municipal teria acesso mais fácil a locais para remover o lixo.

Mas, o que essa descoberta tem a ver com Alzheimer? Dr. Nedergaard demostrou que dentre as “sujeiras” limpadas, durante a noite, pelo sistema glinfático está também a proteína beta-amiloide. Lembre-se que a doença é causada pelo acúmulo dessa proteína.

(Foto Arquivo Pessoal)
(Foto Arquivo Pessoal)

Outro trabalho, esse feito pelo professor David Holtzman, da Universidade de Washington, impediu ratos de atingir o sono NREM mantendo eles acordados, durante algum tempo, e o pesquisador pôde encontrar um acúmulo enorme da proteína beta-amiloide no cérebro.

Isso é uma evidência de que a falta de dormir causa um acúmulo dessa proteína em certas áreas do cérebro. Essas descobertas mostram que o dormir inadequadamente e a doença de Alzheimer casualmente interagem em um círculo vicioso. A perda de sono profundo impede que proteínas amiloides sejam removidas do cérebro, e isso resulta numa maior acumulação da proteína, pois quanto mais proteínas se acumulam no cérebro menos sono profundo você terá e dessa forma o ciclo ocorre e segue em frente.

Isso nos leva a uma preocupante situação: dormir pouco durante nossa vida irá aumentar significantemente o risco de desenvolver a doença do Alzheimer. A falta de sono é apenas um dos diversos fatores de risco associados com a doença. Dormir não irá erradicar a demência, porém, priorizar seu sono é um caminho para reduzir o risco de ela se desenvolver.

 

 

Para saber mais, a revista científica Neurochemical Research publicou, em 2015, um artigo sobre o sistema glinfático, e ele está disponibilizado gratuitamente no seguinte endereço

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4636982/

 

O texto contém trechos traduzidos da revista New Science (14 de outubro de 2017, páginas 31 a 33) escrita pelo professor Dr. Matthew Walker, diretor do Centro para Ciência do Sono em Humanos da Universidade da California. Ele também é autor do livro “porque nós dormimos”

https://www.amazon.com/Why-We-Sleep-Unlocking-Dreams/dp/1501144316

Trechos podem ser lidos pelo site da Amazon.

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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