André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

A balada do jogador de sinuca

(Foto do banco do CC)

É indiscutível que, em nossa era, as pessoas estão vivendo mais e melhor do que alguns anos atrás. Avanços da medicina, associados à tecnologia, estão propiciando uma qualidade de vida nunca antes vista e, em nossos dias,  é possível viver completamente saudável estando acima dos 80 anos. Diante dessa maior expectativa de vida, temos de pagar alguns preços: a tendência é que algumas coisas tendem a cair (mais do que nossas pálpebras). De acordo com dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, a disfunção erétil (DE) afetará cerca de 322 milhões de homens até 2025 em todo mundo. No Brasil, a doença já atinge cerca de 30% da população masculina, o que representa cerca de 15 milhões de homens. A disfunção erétil, além de um problema fisico, é, sem as dúvidas costumeiras, também um problema social: muitos homens têm …

Leia Mais »

Se sujar faz bem

Meu sobrinho Gabriel, criado como deve ser (Foto André Sarria)

Há algum tempo, uma empresa de sabão em pó lançava, na televisão, uma campanha publicitária na qual se dizia que “se sujar fazia bem”. O comercial mostrava crianças totalmente enlameadas pisando em poças de água, outras brincavam com animais, colhiam flores, descalças, ou subiam em árvores enquanto uma voz dizia “se sujar faz bem”. O anúncio fazia uma óbvia afirmação, a de que se a criança está suja e brincando é porque não está doente. Eu sempre usava esse argumento, o do “se sujar faz bem”, quando levava bronca de minha cunhada raivosa, diante de seus filhos cobertos de lama dos pés ao último fio de cabelo da cabeça. A cada dia, estudos científicos têm comprovado a importância de uma criança ser exposta a agentes externos, como poeiras, pólen, animais e germes, para desenvolver seu sistema imunológico. A falta de …

Leia Mais »

Entre grilos e estômagos vazios

Salgadinhos de insetos: nova opção culinária? (Foto André Sarria)

Talvez a grande pergunta para as próximas décadas seja: “Como iremos conseguir alimentar tanta gente?” Estatísticas mostram que, em meados de 2050, a população mundial dará um salto para mais de 10 bilhões de habitantes. Para se ter uma ideia, somente hoje, mais de 800 milhões de pessoas não farão nenhuma refeição por todo o dia, e muitas delas morrerão por conta disso. A maneira como iremos alimentar tanta gente sem destruir o planeta é um dos maiores desafios da humanidade, pois aquecimento global versus água e temperaturas elevadas; terras agriculturáveis versus desmatamentos; controle de pragas agrícolas versus redução de agroquímicos constituem apenas a ponta de um iceberg feito de 10 bilhões de pessoas. Produzir alimentos para todos vai exigir muita criatividade e algumas medidas, eu diria, serão impalatáveis desafios. Digo impalatável porque, em algum momento, teremos de mudar nossos …

Leia Mais »

Plantas que brincam de telefone sem fio

Ilustração: Moa

Os terços rezados nas casas dos sítios eram um evento social muito importante para nós, moleques no auge de nossos 11 ou 12 anos de idade. Eles eram rezados, na maioria das vezes, pela Dona Nega do Gerardin, “A melhor rezadeira”, diziam as pessoas. Nunca soube muito bem a ordem dos sítios onde eles seriam realizados, mas me lembro de que uma vez ele foi feito no sítio da minha vó, onde morávamos. Minha mãe, logo cedo, varreu todo o quintal, meu pai buscou lenha para acender o fogão, onde seriam preparados os chás e achocolatados (que eram servidos junto com outras guloseimas logo após o final da ladainha de Nossa Senhora), meus irmãos buscavam as tábuas para fazer os bancos, e cada um na sua função deixava tudo pronto. A estrela principal era o altar: rosas feitas de papel …

Leia Mais »

O que minha tia reclamava ao vendedor de verduras

Os tomates vão recuperar o seu gosto? (Foto André Sarria)

Toda semana passava, lá na rua de casa, um “verdureiro”. Ele vinha toda quinta-feira com a carroceria de sua velha Saveiro abarrotada de frutas e verduras. Ainda me lembro de sua voz sonolenta que anunciava o preço do tomate: “traz a bacia minha senhora, que hoje você leva dois quilos…” Um dia desses, escutei minha tia reclamando pra ele que os tomates já não tinham mais o mesmo gosto. Dizia ela que, antigamente, os tomates eram mais cheirosos e que tinham mais gosto do que os de hoje. “Sei lá”, dizia ela, “antigamente, parecia que as fruta e as verdura tinha mais gosto, hoje em dia os tomate não têm gosto de nada, de que adianta ser tão vermelho se são tudo aguado…” Recentemente, saiu na revista Science um trabalho provando exatamente o que minha tia tanto reclamava: “Os tomates …

Leia Mais »

O demônio que devasta ao meio-dia e os cogumelos mágicos

Cogumelos são objeto de importantes pesquisas (Foto Arquivo Pessoal/André Sarria)

“Não temas a peste que se move sorrateira nas trevas, nem o demônio que devasta ao meio-dia” Salmos 91:6   Todos os seres humanos irão experimentar quadros de depressão em algum momento de suas vidas. Para uma pessoa isso será passageiro, mas, para outra, isso se tornará um fardo tão pesado que ela estará disposta a desistir de sua própria vida para se livrar dele. A depressão é uma doença que afeta mais de 350 milhões de pessoas em todo o mundo. O tratamento, muitas vezes incerto, se baseia em medicamentos e sessões de psicoterapia. Digo incerto, porque cada paciente responde diferentemente a um mesmo medicamento e não existe um tratamento feito especificamente para cada um deles. A revista científica Neuropsychopharmacology da Nature publicou um trabalho realizado pelo professor de psiquiatria Dr. Carmine Pariante e sua equipe do King’s College mostrando …

Leia Mais »

As irmãs da kombi, suas estrelinhas e açúcares em meteoros

Ilustração: Mateus S. Nogarol

Umas das coisas que eu gostava bastante na minha época de escolinha era a visita das freiras. Elas apareciam na porta da sala de aula quase sempre sem aviso prévio, diziam que queriam falar algumas palavras para se assegurar de que suas estrelinhas estavam seguindo corretamente os santos caminhos propostos. Nunca sabíamos muito bem quando elas iriam aparecer, e suas visitas eram sempre esperadas com muito prazer, pois nos livraríamos, mesmo que por alguns minutos, das atividades da tia Edna. Uma delas era grandona, seu hábito parecia sempre lhe apertar o pescoço, ela dirigia uma Kombi branca. Era engraçado ver aquele monte de irmãs se apertando para caber lá dentro. Ela nos chamava de estrelinhas. Uma das coisas de que eu mais gostava em suas visitas era um jogo que ela fazia com a turma antes de ir embora. A …

Leia Mais »

O grande John e suas três patas

O grande John (Foto André Sarria / Arquivo Pessoal)

Minha família tem em casa o grande John, um cachorrinho que quando filhote se assemelhava a um morceguinho. John é uma mistura de alguma coisa com coisa nenhuma: pretinho, pequeno, magrinho e CHATO! E bota chato nisso! Ele tem um latido histérico e uma coragem que ultrapassa seu limite de tamanho, é daqueles pequeninos que impõem respeito, ou pelo menos ele acha isso. Mas nem tudo é maravilha no reino do poderio do grande John. Um dia, durante uma briga com outros dois vira-latas, ele foi atropelado e, infelizmente, os veterinários tiveram que amputar uma de suas patas traseiras. Após algum tempo de recuperação John voltou a ser o velho chato de sempre, e não perdeu sua dignidade por nenhum momento. Bem, alguma ele perdeu. Suas tentativas de fazer xixi num poste definitivamente não parecem nada digno. John sofre muito com …

Leia Mais »

O que os cachorros de Seu Pedrinho nos ensinam sobre cooperação?

Ilustração: Well Junio, do estúdio Padoca

Seu Pedrinho foi alguém que ficou marcado nas minhas memórias de criança. Ele era daquelas pessoas típicas do interior de São Paulo, como as representadas pelo ator Mazzaropi. Não era dado a luxos, vivia com sua família numa modesta casa num sítio em Cajobi. Não sei por que, mas, ainda hoje, sua imagem me vem à cabeça: ele tinha uma voz rouca… falava baixinho… Possuía uma charrete que usava para vender queijos frescos, e a sua chegada era sempre ouvida a quilômetros de distância pelos latidos de seus mais de vinte cachorros que o acompanhavam em todos os lugares aonde ele ia. Seu Pedrinho os adorava e, ao que parecia, o sentimento era recíproco, pois, em todas as vezes que ele se agachava para fazer seu cigarro, todos os seus cães prontamente o cercavam. Eu, aos oito anos, imaginava a …

Leia Mais »

As galinhas que limpavam o quintal da casa de minha avó

As galinhas e seu grande potencial

Minha avó dizia que galinhas são muito boas pra limpar o quintal. “Elas comem de tudo, comem barata, comem aranha, comem escorpião e comem até cobra”. “Se tiver galinha no quintal nem me preocupo em achar um escorpião dentro da minha botina”. “Elas não deixam um nem pra remédio, são bicho abençoado”, dizia ela enquanto torcia o pescoço de um frango que seria feito na janta daquele dia. Galinhas são bem competentes para controlar pragas em quintais. Elas comem insetos e ajudam a manter um controle sobre eles. Mas além de devoradoras elas também têm desempenhando um importante papel no combate ao mosquito transmissor da malária. Pode parecer um pouco estranho mas é exatamente isso que cientistas suecos descobriram e que foi publicada em julho do ano passado na revista científica “Malaria Journal”. A malária é uma das doenças negligenciáveis …

Leia Mais »