Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

O direito de nascer

Crédito: Spiltshire

(Favor não confundir com a antológica novela)   Prometech irrompeu na reunião, atrasado como sempre, excitado como sempre, aqueles alguns zumbidos estridentes brotando de seu âmago complicado. Auto imprimindo uma expressão severa na cara, embora sem ofuscar o indelével desenho feminino, Salossafo emputeceu-se. Como sempre. — Porra de plasma, Prometech, — rugiu, num tom metálico capaz de obliterar os mimimis máquino-intestinais do recém-chegado — você nunca é capaz de chegar no horário, e sem esse frenesi de borboleta sintética alucinada? Sei que nem precisaria perguntar, mas lá vai, de novo: por onde o senhor andou? Não obstante não precisasse exatamente, o retardatário esbaforido confessou, sem demonstrar arrependimento: — Desculpe, Primeira Conselheira… eu… eu estava na… maternidade. Não resisti e fui conferir a produção dos novos rebentos. São lindos, e… Salossafo explodiu em fúria (como sempre): — Merda de silício podre, …

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Ah, se eu soubesse…

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Quem não viu não acredita, mas uma horta de cogumelos irrompeu do carpete de uma quitinete onde morei. Atrás de uma estante, numa faixa que costumava acumular resíduos dos únicos líquidos que corriam naquela morada desvairada: cerveja, cerveja, cerveja… e só um tiquinho de detergente, vez ou outra. Eram apenas esses os adubos possíveis. E os bichinhos eram uns bitelos luzidios, a parte interna do “chapéu” tingida de um púrpura infernal. Quando a notícia se espalhou, teve o mesmo efeito dos relatos de aparições de rostos de santas nas vidraças dos lares piedosos. A quiti virou meca de peregrinação da malucaiada. A assembleia insana permanente berrava: “Vamos fazer chá!” “Não, mistura com vinho!” “Tem que ser comido ao natural!” Foi quando a moça que puxava meu freio de mão naqueles tempos chamou a galera à razão: “Tão doidos? Vai saber …

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Criador & criatura

Crédito Jay Mantri (Shutterstock)

Sabe aquela história “eu mesmo invento, depois fico com medo”? Bem, nem tudo é invenção, mas que fiquei com medo, fiquei. E o episódio me ensinou que mentir, mesmo que um pouquinho, na nossa profissão, não só é pouco ético, como consegue até ser perigoso. O povo da Vila Costa e Silva ligava sem parar na redação do saudoso Diário do Povo, denunciando um cara que aprontava todas, de roubo de carros a cantadas em mulheres alheias. Detalhe: montado num garboso cavalo branco. Partimos pro bairro. Colhemos pilhas de relatos escabrosos da comunidade. Só que nada do malfeitor. Na delegacia, monte de BOs… de “autoria desconhecida”. De volta à redação, premido pelo dead line, não vi outra alternativa a não ser tascar: “Cavaleiro da Costa e Silva aterroriza o bairro”. Ora, não era de tudo ficcional: o Cavaleiro da Costa …

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O último congresso das Lendas Urbanas

Crédito: creativecommons.org

Dava pra se engasgar com a atmosfera de derrota que dominava aquele congresso das Lendas Urbanas. Sentindo-se esmagadas pelo que se chama por aí de “modernidade”, elas resolveram se reunir pra discutir formas de brecar sua extinção iminente. A Loira do Banheiro abriu os trabalhos: “Pra vocês terem uma ideia do quanto a nossa situação anda crítica, imaginem que na última vez que tentei assombrar um banheiro de escola, fui ameaçada por uns moleques armados até os dentes, que me acusaram de estar atrapalhando uma transação de crack. Logo que entenderam que iam desperdiçar bala num fantasma, eles me cobriram de porrada e até me fizeram engolir os chumaços de algodão que eu usava nos ouvidos.” O Ladrão de Rins foi o próximo: “Preparei a banheira com gelo no maior capricho e quando abri a vítima que havia posto pra …

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Os vampirim: garotos mais do que perdidos

Crédito: Spilt shire

Petrônio Prosinha era um caça-talentos e, principalmente, um homem do seu tempo. Anos atrás, buscou um cinema no shopping e até encarou uma sessão dupla da saga blockbuster Crepúsculo só pra se convencer de vez: os vampiros voltaram à moda. Mas atenção: junto à galera teen in (tinim? Hum…). O que significava: fora o velho e embolorado Drácula, com seu capote cheirando a naftalina, e sinal verde para os garotões com barriga de tanquinho e cheios de amor emo pra dar. Com o fenômeno mercadológico bem caracterizado, restava agora a Pretrônio partir pro trabalho de campo. Imagina se aquela cidadona não teria sua parcela de vampirinhos gostosinhos pra ofertar ao sedento altar de Hollywood! Pelo sempre eficiente — e mais do que barato — boca a boca, fez chegar aos grotões e gretas da metrópole a notícia de que estava …

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Luzes, câmeras e… que baita confusão!

Crédito: Daniel Jagger Segundos/creativecommons.org

Uma última do bom Portuga e Lud Vic, o publicitário inspirado… Levou um bom tempo para que o bom Portuga e Lud Vic, o publicitário inspirado, se reconciliassem, após o incidente da “deliciosa rabadinha”. Quando Lud Vic finalmente voltou a adentrar o boteco, foi com o projeto mais visionário de todos: produzir um comercial para entronizar o bar do Portuga definitivamente no mapa dos points in da cidade. “Veja, seu Portuga, o seu estabelecimento já é bem frequentado na noite… estudantes, artistas, jornalistas… imagina então quando a gente veicular o comercial em todas as emissoras de TV da região… vai bombar legal, seu Portuga!” Por um desses mistérios que levamos para o túmulo sem solução, o bom Portuga sempre acabava caindo na lábia de Lud Vic, por mais que o tivesse na conta dos “maiores-tranqueiras-que-cá-esquentam-o-traseiro-e-a-goela”, como se referia a ele. …

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É a alma ou o espírito de porco do negócio?

Crédito: Splitshire

De volta ao boteco do bom Portuga. Ludovico Pascoal era um publicitário sempre prenhe de ótimas ideias, que ficavam melhores ainda quando irrigadas com uns bons drinques. Por isso, Lud Vic – como gostava de ser chamado – fazia do bar do Portuga seu QG. Desde que o boteco abria, até a melancólica hora da saideira, lá estava Lud Vic numa mesinha de canto, rabiscando seus estupendos brainstormings em pilhas de guardanapos de papel, que ocupavam tanto espaço na mesa, que viviam ameaçando o equilíbrio da já precária “cortina de vidro” formada pelas garrafas que ia esvaziando noite afora. Se o Portuga se orgulhava de tão ilustre e fecundo freguês? Nem a pau! Motivo simples: o outro punhado de papéis que Lud Vic fazia questão de acumular, desta vez do lado de dentro do balcão… é, as malditas pinduras. Mas, …

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Alguém tem que pagar o preço da modernidade

Crédito: FreeImages

Foi no boteco do bom Portuga que, confesso, conclui verdadeiramente a graduação de meu curso de comunicação social (que me perdoe a santíssima PUC-Campinas… afinal, a gente não escolhe o infernal torno que nos entortará pro mundo) O bom Portuga resolveu aderir à modernidade: afinal, seu bar cinquentão evoluíra da “vendinha” nas cercanias do centrão para boteco fervilhante da noite. Comprou um freezer capaz de fazer frente à demanda crescente de cervejas estupidamente geladas que vinha enfrentando ultimamente. Os garçons — eram numerosos — comemoraram: já não aguentavam mais levar xingo de fregueses descontentes com a temperatura das brejas. O técnico chegou para as medições de instalação. Foi direto à área paralela ao balcão, do lado de dentro. O Portuga corrigiu a trajetória do homem; apontando para cima, revelou que tinha um plano bem definido para a instalação do freezer: …

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O dia em que o padre João causou na zona

Paulinho (Foto Reprodução)

Depois de uma lamentável ausência — que, pros que engolem fácil desculpas esfarrapadas, justifico pela correria do meu regresso ao jornalismo diário — volto a postar no blog. Texto que, sem perder de vista o sacramento mor do Insônia Insana, pretende maravilhar e surpreender o leitor. Mas, este post tem um objetivo específico: ajudar um amigo querido que realmente precisa de ajuda. No último parágrafo libero as dicas de como fazê-lo. Então, por favor, leve a bargaça a sério! (a história é real, porém à exceção do protagonista, deste mediano narrador e da cidade onde a história começa, nomes de personagens foram trocados e o da outra localidade omitido, pelo simples fato de que não tive tempo de pedir autorização) Eu tinha 16 anos quando me mudei pra Campinas, vindo de Minas, com minha família. Por conta dos ideais que …

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Questão de família

Crédito: Oleg Mikhaylov/ Pexels

Como sempre, bebeu e cheirou como se não houvesse amanhã. E, como sempre, tombou “heroicamente” no primeiro vão que a cidade fria lhe oferecia. Sim, estava “curtindo” mais um rompimento amoroso: afinal, que mulher aguentaria tanta manguaça e falta de plumo? Meio que acordou por força das botinadas obstinadas que sentiu estar recebendo, mas os olhos ainda estavam nublados pelos resíduos dos excessos a que se dera o luxo antes de desmontar na calçada (como sempre). Assim, conseguiu vislumbrar apenas a silhueta do cara alto que o fitava, as mãos enluvadas alojadas arrogantemente na cintura. Mesmo após recobrar um pouco mais da consciência, não entendeu bem o que via: o cara vestia uma roupa estranha, que emitia certos brilhos que pareciam brincar de pique-esconde com a pouca luz emitida pelo poste mequetrefe. Semblante duro. Cabelos grisalhos, denotando ser mais velho …

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