Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

E a coisa era outra coisa…

Crédito: iStock

Desempregado há um ano e meio, claro que não vi problema algum em me candidatar ao trampinho oferecido pela internet: “Precisa-se de cobaias para experimento inovador do Laboratório Avançado de Estudos Neuronais. Procedimento não prejudicial a saúde. Remunera-se bem. Candidatos devem ser maiores de idade, passarem em testes de acuidade cognitiva, se absterem de álcool, tabaco, drogas ilícitas e medicamentos psicoativos por no mínimo 48 horas, e terem, no mínimo, formação escolar média”. Ora, que preju adviria de deixar que uns doidos de jaleco me metessem uns sensores na cachola? O problema: não imaginei que a merda me transformaria, contra minha vontade, num viajante extradimensional, mais perdido que cachorro em dia de mudança. * * * Tá, cheguei no lugar indicado, entrei numa fila com alguns outros candidatos pingados, me inscrevi. Quando chegou minha vez, o que não demorou nadica, …

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Nascido em plena guerra

Crédito: “Trilhos e Linhas – História do Transporte Urbano Em Campinas”, de Marcos Pimentel Bicalho

O dia 12 de novembro de 1985 foi uma terça-feira de guerra em Campinas. Uma greve no transporte coletivo virava a cidade de cabeça pra baixo, numa época em que greves ainda eram episódios heroicos e os sindicalistas não eram tão suscetíveis a negociatas obscuras como hoje. Tudo muito emocionante, mas a verdade é que sobrava pros repórteres: piquetes aqui, prisões ali, protestos acolá, congestionamentos no trânsito, sempre. Foi no meio desse turbilhão que nasceu meu filho. Prematuro. Eu na rua. A surpresa me atingiu quando liguei pra redação do saudoso Diário do Povo, para consolidar a pauta. De orelhão. — celular? Rádio? Não, o futuro ainda não tinha chegado. Alguém lá na redação tinha recebido a notícia do nascimento antes de mim. Voei pra maternidade. Depois de atropelar uns três funcionários e invadir um monte de áreas restritas, cheguei …

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Caí no fosso

Crédito: Gustave Doré (Domínio Público)

Até hoje não consigo atinar qual divindade maligna ou antimusa maledita foram responsáveis por aquele sufoco esquisito pelo qual passei; como dizem — ou diziam — o melhor mal feito é o que sabe ocultar suas origens. Só tenho certeza de que, de alguma forma, a culpa foi das estrelas (as da morte, especificamente). Bem, sei como tudo começou: como autor de ficção, sempre fui guiado pelas distopias. Não por opção maliciosa, é que o “lado negro da força”, indubitavelmente, rende histórias mais empolgantes. Então, na costumeira punhetagem mental para parir mais um texto para este glorioso blog, eis que travei numa dada madrugada. Creio que meu erro foram as escapadelas para plagas da internet, nas quais pululavam disparates como escola sem partido e sem discussão de gênero, mas com religião; ódio e censura a manifestações artísticas em museus, pelo …

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O direito de nascer

Crédito: Spiltshire

(Favor não confundir com a antológica novela)   Prometech irrompeu na reunião, atrasado como sempre, excitado como sempre, aqueles alguns zumbidos estridentes brotando de seu âmago complicado. Auto imprimindo uma expressão severa na cara, embora sem ofuscar o indelével desenho feminino, Salossafo emputeceu-se. Como sempre. — Porra de plasma, Prometech, — rugiu, num tom metálico capaz de obliterar os mimimis máquino-intestinais do recém-chegado — você nunca é capaz de chegar no horário, e sem esse frenesi de borboleta sintética alucinada? Sei que nem precisaria perguntar, mas lá vai, de novo: por onde o senhor andou? Não obstante não precisasse exatamente, o retardatário esbaforido confessou, sem demonstrar arrependimento: — Desculpe, Primeira Conselheira… eu… eu estava na… maternidade. Não resisti e fui conferir a produção dos novos rebentos. São lindos, e… Salossafo explodiu em fúria (como sempre): — Merda de silício podre, …

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Ah, se eu soubesse…

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Quem não viu não acredita, mas uma horta de cogumelos irrompeu do carpete de uma quitinete onde morei. Atrás de uma estante, numa faixa que costumava acumular resíduos dos únicos líquidos que corriam naquela morada desvairada: cerveja, cerveja, cerveja… e só um tiquinho de detergente, vez ou outra. Eram apenas esses os adubos possíveis. E os bichinhos eram uns bitelos luzidios, a parte interna do “chapéu” tingida de um púrpura infernal. Quando a notícia se espalhou, teve o mesmo efeito dos relatos de aparições de rostos de santas nas vidraças dos lares piedosos. A quiti virou meca de peregrinação da malucaiada. A assembleia insana permanente berrava: “Vamos fazer chá!” “Não, mistura com vinho!” “Tem que ser comido ao natural!” Foi quando a moça que puxava meu freio de mão naqueles tempos chamou a galera à razão: “Tão doidos? Vai saber …

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Criador & criatura

Crédito Jay Mantri (Shutterstock)

Sabe aquela história “eu mesmo invento, depois fico com medo”? Bem, nem tudo é invenção, mas que fiquei com medo, fiquei. E o episódio me ensinou que mentir, mesmo que um pouquinho, na nossa profissão, não só é pouco ético, como consegue até ser perigoso. O povo da Vila Costa e Silva ligava sem parar na redação do saudoso Diário do Povo, denunciando um cara que aprontava todas, de roubo de carros a cantadas em mulheres alheias. Detalhe: montado num garboso cavalo branco. Partimos pro bairro. Colhemos pilhas de relatos escabrosos da comunidade. Só que nada do malfeitor. Na delegacia, monte de BOs… de “autoria desconhecida”. De volta à redação, premido pelo dead line, não vi outra alternativa a não ser tascar: “Cavaleiro da Costa e Silva aterroriza o bairro”. Ora, não era de tudo ficcional: o Cavaleiro da Costa …

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O último congresso das Lendas Urbanas

Crédito: creativecommons.org

Dava pra se engasgar com a atmosfera de derrota que dominava aquele congresso das Lendas Urbanas. Sentindo-se esmagadas pelo que se chama por aí de “modernidade”, elas resolveram se reunir pra discutir formas de brecar sua extinção iminente. A Loira do Banheiro abriu os trabalhos: “Pra vocês terem uma ideia do quanto a nossa situação anda crítica, imaginem que na última vez que tentei assombrar um banheiro de escola, fui ameaçada por uns moleques armados até os dentes, que me acusaram de estar atrapalhando uma transação de crack. Logo que entenderam que iam desperdiçar bala num fantasma, eles me cobriram de porrada e até me fizeram engolir os chumaços de algodão que eu usava nos ouvidos.” O Ladrão de Rins foi o próximo: “Preparei a banheira com gelo no maior capricho e quando abri a vítima que havia posto pra …

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Os vampirim: garotos mais do que perdidos

Crédito: Spilt shire

Petrônio Prosinha era um caça-talentos e, principalmente, um homem do seu tempo. Anos atrás, buscou um cinema no shopping e até encarou uma sessão dupla da saga blockbuster Crepúsculo só pra se convencer de vez: os vampiros voltaram à moda. Mas atenção: junto à galera teen in (tinim? Hum…). O que significava: fora o velho e embolorado Drácula, com seu capote cheirando a naftalina, e sinal verde para os garotões com barriga de tanquinho e cheios de amor emo pra dar. Com o fenômeno mercadológico bem caracterizado, restava agora a Pretrônio partir pro trabalho de campo. Imagina se aquela cidadona não teria sua parcela de vampirinhos gostosinhos pra ofertar ao sedento altar de Hollywood! Pelo sempre eficiente — e mais do que barato — boca a boca, fez chegar aos grotões e gretas da metrópole a notícia de que estava …

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Luzes, câmeras e… que baita confusão!

Crédito: Daniel Jagger Segundos/creativecommons.org

Uma última do bom Portuga e Lud Vic, o publicitário inspirado… Levou um bom tempo para que o bom Portuga e Lud Vic, o publicitário inspirado, se reconciliassem, após o incidente da “deliciosa rabadinha”. Quando Lud Vic finalmente voltou a adentrar o boteco, foi com o projeto mais visionário de todos: produzir um comercial para entronizar o bar do Portuga definitivamente no mapa dos points in da cidade. “Veja, seu Portuga, o seu estabelecimento já é bem frequentado na noite… estudantes, artistas, jornalistas… imagina então quando a gente veicular o comercial em todas as emissoras de TV da região… vai bombar legal, seu Portuga!” Por um desses mistérios que levamos para o túmulo sem solução, o bom Portuga sempre acabava caindo na lábia de Lud Vic, por mais que o tivesse na conta dos “maiores-tranqueiras-que-cá-esquentam-o-traseiro-e-a-goela”, como se referia a ele. …

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É a alma ou o espírito de porco do negócio?

Crédito: Splitshire

De volta ao boteco do bom Portuga. Ludovico Pascoal era um publicitário sempre prenhe de ótimas ideias, que ficavam melhores ainda quando irrigadas com uns bons drinques. Por isso, Lud Vic – como gostava de ser chamado – fazia do bar do Portuga seu QG. Desde que o boteco abria, até a melancólica hora da saideira, lá estava Lud Vic numa mesinha de canto, rabiscando seus estupendos brainstormings em pilhas de guardanapos de papel, que ocupavam tanto espaço na mesa, que viviam ameaçando o equilíbrio da já precária “cortina de vidro” formada pelas garrafas que ia esvaziando noite afora. Se o Portuga se orgulhava de tão ilustre e fecundo freguês? Nem a pau! Motivo simples: o outro punhado de papéis que Lud Vic fazia questão de acumular, desta vez do lado de dentro do balcão… é, as malditas pinduras. Mas, …

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