Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

Os vampirim: garotos mais do que perdidos

Crédito: Spilt shire

Petrônio Prosinha era um caça-talentos e, principalmente, um homem do seu tempo. Anos atrás, buscou um cinema no shopping e até encarou uma sessão dupla da saga blockbuster Crepúsculo só pra se convencer de vez: os vampiros voltaram à moda. Mas atenção: junto à galera teen in (tinim? Hum…). O que significava: fora o velho e embolorado Drácula, com seu capote cheirando a naftalina, e sinal verde para os garotões com barriga de tanquinho e cheios de amor emo pra dar. Com o fenômeno mercadológico bem caracterizado, restava agora a Pretrônio partir pro trabalho de campo. Imagina se aquela cidadona não teria sua parcela de vampirinhos gostosinhos pra ofertar ao sedento altar de Hollywood! Pelo sempre eficiente — e mais do que barato — boca a boca, fez chegar aos grotões e gretas da metrópole a notícia de que estava …

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Luzes, câmeras e… que baita confusão!

Crédito: Daniel Jagger Segundos/creativecommons.org

Uma última do bom Portuga e Lud Vic, o publicitário inspirado… Levou um bom tempo para que o bom Portuga e Lud Vic, o publicitário inspirado, se reconciliassem, após o incidente da “deliciosa rabadinha”. Quando Lud Vic finalmente voltou a adentrar o boteco, foi com o projeto mais visionário de todos: produzir um comercial para entronizar o bar do Portuga definitivamente no mapa dos points in da cidade. “Veja, seu Portuga, o seu estabelecimento já é bem frequentado na noite… estudantes, artistas, jornalistas… imagina então quando a gente veicular o comercial em todas as emissoras de TV da região… vai bombar legal, seu Portuga!” Por um desses mistérios que levamos para o túmulo sem solução, o bom Portuga sempre acabava caindo na lábia de Lud Vic, por mais que o tivesse na conta dos “maiores-tranqueiras-que-cá-esquentam-o-traseiro-e-a-goela”, como se referia a ele. …

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É a alma ou o espírito de porco do negócio?

Crédito: Splitshire

De volta ao boteco do bom Portuga. Ludovico Pascoal era um publicitário sempre prenhe de ótimas ideias, que ficavam melhores ainda quando irrigadas com uns bons drinques. Por isso, Lud Vic – como gostava de ser chamado – fazia do bar do Portuga seu QG. Desde que o boteco abria, até a melancólica hora da saideira, lá estava Lud Vic numa mesinha de canto, rabiscando seus estupendos brainstormings em pilhas de guardanapos de papel, que ocupavam tanto espaço na mesa, que viviam ameaçando o equilíbrio da já precária “cortina de vidro” formada pelas garrafas que ia esvaziando noite afora. Se o Portuga se orgulhava de tão ilustre e fecundo freguês? Nem a pau! Motivo simples: o outro punhado de papéis que Lud Vic fazia questão de acumular, desta vez do lado de dentro do balcão… é, as malditas pinduras. Mas, …

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Alguém tem que pagar o preço da modernidade

Crédito: FreeImages

Foi no boteco do bom Portuga que, confesso, conclui verdadeiramente a graduação de meu curso de comunicação social (que me perdoe a santíssima PUC-Campinas… afinal, a gente não escolhe o infernal torno que nos entortará pro mundo) O bom Portuga resolveu aderir à modernidade: afinal, seu bar cinquentão evoluíra da “vendinha” nas cercanias do centrão para boteco fervilhante da noite. Comprou um freezer capaz de fazer frente à demanda crescente de cervejas estupidamente geladas que vinha enfrentando ultimamente. Os garçons — eram numerosos — comemoraram: já não aguentavam mais levar xingo de fregueses descontentes com a temperatura das brejas. O técnico chegou para as medições de instalação. Foi direto à área paralela ao balcão, do lado de dentro. O Portuga corrigiu a trajetória do homem; apontando para cima, revelou que tinha um plano bem definido para a instalação do freezer: …

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O dia em que o padre João causou na zona

Paulinho (Foto Reprodução)

Depois de uma lamentável ausência — que, pros que engolem fácil desculpas esfarrapadas, justifico pela correria do meu regresso ao jornalismo diário — volto a postar no blog. Texto que, sem perder de vista o sacramento mor do Insônia Insana, pretende maravilhar e surpreender o leitor. Mas, este post tem um objetivo específico: ajudar um amigo querido que realmente precisa de ajuda. No último parágrafo libero as dicas de como fazê-lo. Então, por favor, leve a bargaça a sério! (a história é real, porém à exceção do protagonista, deste mediano narrador e da cidade onde a história começa, nomes de personagens foram trocados e o da outra localidade omitido, pelo simples fato de que não tive tempo de pedir autorização) Eu tinha 16 anos quando me mudei pra Campinas, vindo de Minas, com minha família. Por conta dos ideais que …

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Questão de família

Crédito: Oleg Mikhaylov/ Pexels

Como sempre, bebeu e cheirou como se não houvesse amanhã. E, como sempre, tombou “heroicamente” no primeiro vão que a cidade fria lhe oferecia. Sim, estava “curtindo” mais um rompimento amoroso: afinal, que mulher aguentaria tanta manguaça e falta de plumo? Meio que acordou por força das botinadas obstinadas que sentiu estar recebendo, mas os olhos ainda estavam nublados pelos resíduos dos excessos a que se dera o luxo antes de desmontar na calçada (como sempre). Assim, conseguiu vislumbrar apenas a silhueta do cara alto que o fitava, as mãos enluvadas alojadas arrogantemente na cintura. Mesmo após recobrar um pouco mais da consciência, não entendeu bem o que via: o cara vestia uma roupa estranha, que emitia certos brilhos que pareciam brincar de pique-esconde com a pouca luz emitida pelo poste mequetrefe. Semblante duro. Cabelos grisalhos, denotando ser mais velho …

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Paradeiro

Crédito: Steve Baxter/domínio público

Não eram maltratados, isso o rapaz era obrigado a reconhecer. Tinham alimentação balanceada, acomodações razoáveis e até atividades de lazer. Claro que, além da sacanagem de terem sido, de alguma forma, sequestrados, havia inconvenientes típicos de um campo de concentração, mesmo um hi-tech como aquele. As filas no refeitório, por exemplo, eram absurdas: naquele momento mesmo, o local estava apinhado pelos 3 mil soldados chineses que juravam terem sumido no ar em 10 de novembro de 1939, durante a guerra sino-japonesa! Após anos de convivência forçada, as barreiras linguísticas/culturais e as inibições cediam naturalmente, o que permitiu ao rapaz conhecer a história contada e recontada pelos chineses. Segundo eles, tudo aconteceu quando estavam acampados próximos a uma frente de combate, sob o comando do coronel Li Fu Sien. Quando seus equipamentos de rádio deixaram de transmitir, as equipes de busca …

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Adrenalina

(Crédito: Hans Glaser/Zentralbibliothek/reprodução)

Hibernados em lan houses bem distantes entre si, Ahgrr Awa e Sepza Trinchyey-A seguiam a rotina diária, que ora determinava a vitória de um, ora a do outro, indistintamente. Apesar do generoso estoque de bebidas energéticas, barras de chocolate e comprimidos de metanfetaminas que jazia aos pés dos consoles, tinham a inequívoca certeza de que aquele exercício não passava de um pálido arremedo das grandes aventuras que viviam antigamente, antes do decreto de proibição baixado pela Federação do Sistema Galáctico Anphro-12. Infelizmente, por enquanto se viam obrigados a se restringir aos prosaicos videogames terráqueos de combates espaciais. Até para não enferrujarem de vez. E até que conseguissem, durasse o tempo que durasse, restabelecer a tecnologia que os permitiria alcançar os céus de novo, gloriosamente. Os competidores esportivos de combates sub-orbitais irritavam a federação havia muito tempo, já que escancaravam precocemente …

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Olimpiana (ou de quando paguei minha boca)

Crédito: Painel Histórico de Campinas

Nunca foi exatamente raro que alguns olimpianos mais salientes adorassem dar umas escapadinhas para a Terra e aprontar pegadinhas com os incautos humanos. Ares fez isso diversas e sempre catastróficas vezes. Afrodite e Eros já preferiam a esportiva prática de soltar a franga no meio — muitas vezes literalmente “no meio” — dos pobres mortais (Curiosamente, Atena nunca se mostrou tentada a dar tais escapadinhas… ). Até que Zeus, soltando raios pelas ventas, resolveu coibir os excessos e passou a manter a galera divina em rédeas curtas. O que pode ter funcionado razoavelmente para o pessoal da casa, mas em se tratando de um titã… a coisa fica bem mais difícil. É claro que eu não sabia de nada disso antes de esta história começar, propriamente. Findo mais um ato público contra ditadura militar, deixávamos o largo que era palco …

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A volta do meu poeta cego e insano

Crédito: Pexels

Já contei aqui que, na cidade alternativa que habitei um dia, tinha sempre um poeta cego e insano plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava, com meu cortejo de fantasmas sedentos de sei lá o que. Ele adivinhava os meus passos e se teleportava para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma. Houve uma vez que o poema se chamou Anotações de emergência ao pé do semáforo. Era assim:   Imóvel à porta do meu paraíso interditado. Telepatias cessam cancelo o mundo. Madrugada avenida.   Anotações de emergência ao pé do semáforo.   Luz vermelha tecendo o homem impossível vertical no asfalto.   Os minúsculos pássaros cinzas que perturbam a substância dos neons têm asas lentas demais para não acabar no fio de água que corta a avenida e vai dar no sono mineral …

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