Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

Olimpiana (ou de quando paguei minha boca)

Crédito: Painel Histórico de Campinas

Nunca foi exatamente raro que alguns olimpianos mais salientes adorassem dar umas escapadinhas para a Terra e aprontar pegadinhas com os incautos humanos. Ares fez isso diversas e sempre catastróficas vezes. Afrodite e Eros já preferiam a esportiva prática de soltar a franga no meio — muitas vezes literalmente “no meio” — dos pobres mortais (Curiosamente, Atena nunca se mostrou tentada a dar tais escapadinhas… ). Até que Zeus, soltando raios pelas ventas, resolveu coibir os excessos e passou a manter a galera divina em rédeas curtas. O que pode ter funcionado razoavelmente para o pessoal da casa, mas em se tratando de um titã… a coisa fica bem mais difícil. É claro que eu não sabia de nada disso antes de esta história começar, propriamente. Findo mais um ato público contra ditadura militar, deixávamos o largo que era palco …

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A volta do meu poeta cego e insano

Crédito: Pexels

Já contei aqui que, na cidade alternativa que habitei um dia, tinha sempre um poeta cego e insano plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava, com meu cortejo de fantasmas sedentos de sei lá o que. Ele adivinhava os meus passos e se teleportava para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma. Houve uma vez que o poema se chamou Anotações de emergência ao pé do semáforo. Era assim:   Imóvel à porta do meu paraíso interditado. Telepatias cessam cancelo o mundo. Madrugada avenida.   Anotações de emergência ao pé do semáforo.   Luz vermelha tecendo o homem impossível vertical no asfalto.   Os minúsculos pássaros cinzas que perturbam a substância dos neons têm asas lentas demais para não acabar no fio de água que corta a avenida e vai dar no sono mineral …

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Gran Circus

Crédito: Shutterstock

“Rrrespeitááável público!” “Mestre” Ângelo quase tinha um orgasmo quando tonitruava o bordão para a plateia magnetizada do Gran Circus Exoticus, na verdade, provavelmente o último freak show ainda circulante no mundo. Claro que entidades de defesa dos seres excepcionais tentaram que tentaram embargar a iniciativa, porém nunca conseguiam nada, porque os próprios protagonistas depunham que eram voluntários e até recebiam salários regulares (mixaria, porém regulares). E o pior: a última reforma das leis trabalhistas perpetrada pelo governo dava respaldo àquilo, ignorando solenemente os argumentos de que se trataria de exploração indigna de humanos diferenciados; ora, se as próprias ditas vítimas não se opunham e até classificavam sua participação no elenco “exótico” como “meio de vida”, fazer-se o quê, né? No entanto, “mestre” Ângelo já estava impaciente: seu ah… fornecedor já esperava ao volante da van na qual os protagonistas da …

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Uma outra conversa na Catedral

Crédito: Ricardo Giaviti/creativecommons.org

Eu adorava os passeios dominicais por Campinas, levado pelas mãos carinhosas da tia Lídia. Até porque, no final de cada um, ela me regalava com pastéis do Voga e gibis comprados na Banca do Alemão. O daquela tarde, lembro-me bem, foi um exemplar em preto e branco que mixava personagens de Walt Disney com Pernalonga e outros mascotes corporacionais da Warner Brothers (crossovers não eram tão comuns nas HQs da época): edição rara, que guardo até hoje. Entretanto, menino recém-chegado, o que me maravilhava mesmo eram os pontos históricos da “cidade grande”. Por isso, foi com muita animação que adentrei com ela a Catedral Metropolitana. Minhas inclinações religiosas já não eram lá muito acentuadas à época: o que me deixou boquiaberto foi a grandiosidade e suntuosidade do estilo neogótico do templo, inaugurado oficialmente em 1883 (e que até hoje passa …

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O verdadeiro destino de Laika

Crédito: Agência Espacial Soviética/reprodução

Mais uma vez, como ocorria historicamente nos últimos 50 anos (contagem baseada no padrão temporal do planetinha cujos habitantes chamam de Terra), a moção dividia ferozmente as posições dos participantes do Conselho das Espécies de Cabeça Feita (CoEsCaFe) já reunidos, via teleconferência, na 5ª Deliberação Decenal sobre a Questão T (é, “T” de Terra, o que justificava adotarem o padrão temporal daquele planeta tão controverso). Só que, na verdade, ninguém duvidava sobre para qual decisão a balança penderia quando finalmente ingressasse na comunicação os conselheiros do planeta Caxotturus — que sempre demoravam um pouco mais para se manifestar, talvez pela lentidão natural da conexão, face ao distanciamento do planeta do centro de deliberações; ou porque apenas eram soberbamente folgados, mesmo. E bota soberba: com seus corpos peludos, porém esguios, deslizando eretos, com as mandíbulas erguidas e caudas eriçadas, eles foram …

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Panteão dos desvalidos

Milton Jung/creativecommons.org

Para os transeuntes apressados, rumo ou de volta ao trabalho e outros afazeres de “gente normal”, aquele trecho do centro velho da cidadona não passava de uma infestação por moradores de rua, entregues à apatia e à malandragem típica dos sobreviventes sociais. Estavam certos, de certo modo. Porém, não sabiam tudo. Tampouco modificava a percepção os pedaços de diálogos eventualmente entreouvidos: afinal, aqueles desafortunados estavam sempre sob efeito de uma dieta maléfica à base de muita pinga batizada com metanol e algumas pedritas de crack. Por isso, pode ter passado totalmente batido o papo esperto travado entre Fidid0 e Mestre Ranço. O primeiro era mais um sem-teto indistinguível naquela massa de desvalidos. Já Mestre Ranço demonstrava razoável capacidade de memória e, mentisse ou não, teria origem até nobre: pertencera a uma família de inclinação protestante histórica e chegara até a ser …

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A volta do poeta cego da minha cidade alternativa

Crédito: Dan Flavin/creativecommons.org

  Já andei dizendo por aqui: na cidade alternativa que habitei um dia tinha sempre um poeta cego plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava. Ele adivinhava os meus passos e se teletransportava para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma. Um dia se chamou Calçadão da 13. Era assim: o mundo está completo primavera covardia últimos inocentes se exibem no circo em chamas nus a beijar cometas e navalhas a cidade em flashes do avesso na carne vítrea dos manequins putas de voz cava filam cigarros no Calçadão da 13 seus olhos barbitúricos são as comportas da noite esta noite de ancas trêmulas e quilômetros embaralhados esta bandeira ensopada de veneno estendida sobre o arco dos pentelhos neons sanitos esôfagos baratas breves chamas sujas no intervalo dos passos oh as pastelarias e seus …

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O enlace

Crédito: PROHenrik Sandklef/creativecommons.org

Caráeo, custou muito empenho, dinheiro — e muito, muito tempo, — mas M. finalmente estava prestes a realizar um feito que, embora valorizasse no plano emocional, teria um efeito sociopolítico devastador: se tornaria o primeiro representante da Casta Cognitiva Superior (CaCoSu) a conseguir se casar legalmente com um integrante da Massa de Cognição Inferior (MaCoIn). O alcance da façanha se devia ao fato histórico de que, em nenhuma época os entraves que já marcaram enlaces inter-raciais ou homo-afetivos chegaram aos pés do tabu que sempre cercou a possibilidade de união legal entre CaCoSus e MaCoIns, ainda mais com a iniciativa partindo de um CaCoSu. A base da intolerância situava-se na realidade incontestável: enquanto os CaCoSus governavam o mundo, tanto nas questões de poder político, economia, ciência e tendências filosóficas/artísticas, aos MaCoIns eram delegadas funções subalternas, braçais ou meramente burocráticas: eram …

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Caíram direitinho

Crédito: European Space Agency/creativecommons.org

Os sabichões da Interagência Espacial (InterEsp) mijaram de rir nas doutas e imaculadas cuecas/calcinhas quando decodificaram os dados enviados pelo cinturão de satélites de vigilância: “Revoada de unicórnios translúcidos na mesosfera”; “Aproximação crítica de asteroide envolto em escudo de invisibilidade”; “Van lotada por palhaços cósmicos do mal iniciando orbitação”. O mais engraçado era que os “dados” não só se faziam acompanhar de cálculos com fachada de coerência, como se davam ao luxo de produzir imagens hiper-realistas dos “fenômenos”. O que não estava visível para a gargalhante e elitista plateia da InterEsp eram as frenéticas atividades industriais em curso no cenário insólito pintado pelos dados malucos (também acompanhadas por risinhos, muitos risinhos…). Os cientistas terráqueos já estavam acostumados com as brincadeiras de “hackers espaciais”, que pentelhavam o mundo sério desde os idos tempos das atividades dos satélites Swift e Fermi, coletores …

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A intenção foi boa…

A vibração se alastrou rapidamente por todas as porções de solo úmido do planeta. O engraçado era que a fonte da interferência nunca poderia ser detectada facilmente, face que encontrava-se a milhões de anos-luz. O que não impedia que todos os espécimes de cogumelos da Terra que carregavam os genes dos “percussores” percebessem nitidamente o fenômeno. Estava posta a assembleia. “Pois é, bravos operativos”, — batucou cosmicamente a suprema e longínqua intervenção — “Já tínhamos previsto o desdobramento, mas a questão agora é que, finalmente, a ‘ficha caiu’ de vez”. Os “bravos operativos” captaram a mensagem, inscrita com precisão no cerne de seus pés, parcialmente enterrados nos substratos, e que suportam os chapéus. Contudo, sua primeira reação foi um imenso “?” O vozeirão quase imaterial, porém semi-silencioso, prosseguiu: “Até que enfim, respeitáveis centros de etnobotânica concluíram que o consumo habitual …

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