Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

Êita Via Crucis mais arretada, sô!

Crédito: Mark Hillary/creativecommons.org

Era um grupo de amigos muito unidos e todos cursavam Artes Cênicas na cidade grande. Nos feriados voltavam em peso pra cidadezinha natal e gozavam de um — sejamos honestos — injustificável prestígio por parte dos conterrâneos. Por isso, naquela Semana Santa não foi nada difícil convencer o pároco a deixá-los encenar a Paixão de Cristo pelas ruas do lugarejo e filmar a montagem, pra pontuar como projeto experimental da faculdade. Descolaram o vestuário, os apetrechos cênicos e até ensaiaram. Na Sexta-Feira da Paixão, horas antes da apresentação, armaram o ritual de “concentração”, como não podia deixar de rolar. Só um deles não pode se “concentrar”, justamente o mais bonitão, de olhos azuis, cabeludo, que faria o papel de Jesus: pai separado, era sua vez de ficar de babá da filhinha. Os outros cheiraram uma duna de pó e mamaram …

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Porque me desencantei com a morte

Crédito: Enric Martinez/creativecommons.org

(Em memória do saudoso Caio Tidei) Deixei o funeral de um amigo. No caminho, previa o que ia acontecer. Já contei aqui que na cidade alternativa que habitei um dia tinha sempre um poeta cego plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava. Até hoje ele adivinha os meus passos e se teleporta para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma suja de tempo. O daquele dia se chamava Porque me desencantei com a morte. Era assim: eu me criei no tempo dos enterros desfilantes matronas crocodilando lágrimas de vela deveras matraqueavam farfalhantes negras loucas vestes de todos os meses e praças destes feitos desta feita sem tragedianacional manchetável só aceitável naturação de morte unitária por vez vez que a família arrimada a salvo razoável véu na cara por tudo isso sem constrição possível só …

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Me chamaram de Deus. E fui feito refém

Crédito: Renee of the Future/creativecommons.org

Se você está lendo este relato é porque conseguiu decifrar a intrincada criptografia que apliquei e que me custou cinco meses de trabalho árduo e furtivo. Então, é sinal de que possui inteligência suficiente para entender a urgência da situação e talvez nos ajude a combater, ou ao menos, amenizar o perigo que toda a humanidade enfrenta. Meu nome é doutor H. e respondo como pesquisador sênior do Instituto de Aperfeiçoamento de Organismos Semissintéticos, o Iaos. Quer dizer, respondia, tempos atrás; agora o quadro é bem mais complicado. Há um semestre, nosso laboratório principal foi invadido por uma dúzia de homens fortemente armados e metidos em trajes militares que ostentam uma insígnia indicando pertencerem a alguma organização supremacista. Demonstrando treinamento aprimorado e senso de objetivo, eliminaram, de cara, os funcionários mais subalternos, só poupando os especialistas verdadeiramente qualificados. Logo em …

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Face a face

Crédito: Nasa

Quando você olha dentro do abismo, o abismo olha dentro de você. (Friedrich Nietzsche) A comandante Ethel mal conseguia conter o entusiasmo. E daí que sua vida pessoal tivesse havia muito se desintegrado ao longo de sua carreira? Ela era o primeiro ser humano a orbitar radicalmente, porém com segurança razoável, um buraco negro, com chances reais de obter imagens com altíssima resolução do que rolava “lá dentro”. O macete era manter a nave só um tiquinho aquém do horizonte de eventos de Sagittarius A*, o buraco negro monstruoso no centro da Via Láctea. Orbitalmente ancorada ali, ela poderia operar a otimização do sistema observacional e realizar o grande feito, nunca alcançado pela humanidade (e, provavelmente, nem por qualquer outra espécie). Passaram-se boas décadas desde que cientistas obtiveram a primeira imagem real do buraco negro. Na época, eles construíram um …

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Da criação das sombras

Crédito: Pwjamro/creativecommons.org

Ah, tá bom, tá bom, confesso que andei adiando isto aqui. Por que? Sei lá se por algum prurido idiota produzido pela carga emocional, ou porque a coisa ainda me espeta a alma caminheira em vã com uma carga poderosa de nostalgia. Ou só porque o tema é realmente muito triste. Resolva você, hipotético porém sempre generoso leitor deste nosso blog. O que nos interessa realmente é que chegou a hora de falar DELE. E que ninguém por aí ouse rir demais: zombar de crianças que nutrem amigos imaginários é politicamente muito, mas muito mesmo incorreto, né não? (e que ninguém por aí tampouco perca de vista que este pobre escriba sessentão que lhes enche o saco semanalmente nunca deixará de ser uma… criança). Pois bem, chega de papo furado, vamos então à sangria, ao que parece, necessária e inevitável, …

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Hora do corre-corre

Crédito: Kirt Edblom/creativecommons.org

O Ancião sabia que a videoconferência não tardaria a se completar na tela do computador: afinal, os convocados eram, na maioria, jovens tecnologicamente bem preparados naquela nação insular do Oceano Índico privilegiada com um Índice de Desenvolvimento Humano elevado, o 63º do mundo. E com a vantagem de se abrigar sob o regime de república parlamentarista, nada afeita a monitorar a internet. Assim que o mosaico multifacetado se estabilizou no monitor, ele saudou: — Prazer em me comunicar com vocês, guardiões! Após um breve retorno de burburinhos em resposta, o Ancião tratou de ir logo ao ponto: — Saibam que a presente convocação emergencial se justifica realmente por uma emergência. E, antes que alguma intervenção se consolidasse por parte dos mosaicados, ele transmitiu a notícia veiculada pela revista britânica Nature Communications: “Restos de antigo continente são encontrados nas Ilhas Maurício”. …

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Subiu à cabeça

Crédito: Steve Johnson/creativecommons.org

Initiu fora consagrado, sem contestações importantes da comunidade científica, o primeiro computador quântico definitivamente funcional. O projeto, desenvolvido por uma equipe internacional de pesquisadores, acabou apresentando um engenho capaz de resolver problemas complexos e mistérios do cosmos que exigiriam milhões de anos aos computadores convencionais mais potentes. Era baseado nas propriedades quânticas da matéria, segundo as quais uma partícula elementar pode ter diferentes estados simultaneamente, que passam de um a outro dando “saltos”, e não de forma contínua. Essa característica oferecia um potencial de cálculo infinitamente muito maior que os computadores originais, que utilizam o já arcaico sistema binário 0/1. * * * Os entusiasmados cientistas já estavam se esbaldando na resolução pá-puft de enigmas que perseguiam a humanidade há séculos quando se embasbacaram com outro, aparentemente mais prosaico, porém para o qual não encontravam respostas: por que, cargas de …

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Abram alas para o bloco dos patetas

Crédito: Arquivo pessoal

Pra mim, Carnaval e jornalismo passaram a ser palavrinhas difíceis de juntar depois de um certo episódio. Eu, que editava a capa do extinto e saudoso Diário do Povo, de Campinas, e o editor de fotografia dávamos tratos à bola pra parir uma manchete que não escancarasse tanto a pobreza plástica e conceitual que vitimava mais aquele Carnaval da nossa Região Metropolitana. Foi aí que o repórter e o fotógrafo chegaram à redação, eufóricos, mandando “parar as máquinas”, porque tinham a “grande matéria”. Apesar das caras amassadas deles, rescendendo a bebedeira incomensurável da noite anterior, nosso desespero era tal que fomos todos ouvidos pros intrépidos enviados a folia. O relato impressionou: imagine que uma escola de samba da região teve a coragem e a criatividade de homenagear o Galo de Ouro, o lendário bordel do Jardim Itatinga, onde, conta-se, texanos …

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Isso é no que dá confiar

Crédito: Interdimensional Guardians/creativecommons.org

A baixíssima estatura (menos que um metro e vinte e olhe lá) e o corpinho esquelético eram os meus trunfos para driblar os fiscais da prefeitura durante os rapas”, cada vez mais frequentes e agressivos no camelódromo: eu conseguia ziguezaguear quase imperceptivelmente entre as pernas dos transeuntes, trôpegas por causa do reboliço. Certo que minha cabeçorra oferecia alguma dificuldade, porém nada que uns “licencinha!, licencinha!”, grunhidos com minha voz algo metálica, não resolvessem. Já a uma distância segura da repressão, ainda ouvia a torcida dos colegas camelôs que não tiveram a mesma sorte: “Força, anão, você vai conseguir mais uma vez!” Após adentrar, esbaforido, o quarto da pensão, antes mesmo de tomar fôlego, tratei de conferir se havia conseguido entochar todas as minhas mercadorias dentro da mochila surrada: tinha sim, os prosaicos e simpáticos bonequinhos de epóxi estavam lá, prontos …

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Home office

Crédito: ND Strupler/creativecommons.org

A Pensão da Tia Marilda para Rapazes Solteiros era, sem sombra de dúvidas, o fim do poço a que um desempregado crônico e cachaceiro como eu poderia chegar. Ou até não: abusando do restinho do salário-desemprego, até que consegui alugar um quartinho individual, dádiva, visto que naquela altura do campeonato, o que eu menos queria suportar seria dividir o espaço com outros losers iguais ou até piores do que eu. Historicamente funcionando sem alvará nem anjo da guarda no cinturão urbano em torno da antiga estação rodoviária, a pensão não fazia perguntas demais — e nem nós, os hóspedes, naturalmente. E tinha outra vantagem: ficava próxima do centro da cidade, o que facilitava muito minha atividade atual como camelô, que abracei havia alguns anos desde que levei um pé na bunda da firma onde trabalhava como almoxarife; a localização também …

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