Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

Ele também cresceu

Crédito: Hotagrami/creativecommons.org

Deu a última lambida na cria: sim, o paper estava finalmente nos conformes das exigências do 3º Congresso de Novas Abordagens na Psicologia Infantil, no qual seria apresentado, e cuja data tanto se avizinhava. Ufa! Aquilo demandara dois árduos anos de estudos e pesquisas até que tivesse o rigor pra impulsionar sua carreira acadêmica. Na “lambida” final, focou com atenção redobrada trechos cruciais do texto que buscava lançar luz sobre o fenômeno popularmente conhecido como “amigos imaginários”, algo que se verifica geralmente com crianças entre 3 e 7 anos, porém às vezes se prolonga um pouco mais. O paper começava por se render ao óbvio: todos nós, independentemente da idade ou status intelectual, vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum; perambulamos por mídias sociais e trocamos informações e segredos com pessoas com quem …

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Sob a maldição das agendas fantasmas

Crédito: Dafne Cholet/creativecommons.org

Uns admitem mais abertamente, outros nem com reza brava, mas a verdade é que esse lance de “resoluções de ano novo” é o caô coletivo/histórico/cultural mais deslavado que existe. A megadieta prometida ao deus Narciso sobrevive só o tempo suficiente de a comilança do fim do ano que passou fazer digestão; como academia todo dia, com essa chuvarada de verão?; melhorar o mau gênio de que jeito, se todos os crápulas da sua vida resolveram, mais uma vez, formar uma superliga contra você? Breque no cartão de crédito vira missão impossível, porque descobrimos que aquela merdinha de plástico tem vida própria. Bem, já deu pra notar que sou do time dos que admitem o caôzão. A minha vergonha extra, entretanto, é que, como sou um cara das antigas, daqueles afeiçoados a papel, sempre tive a mania de registrar minhas “resoluções” …

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A ciência e as resoluções de ano novo

Crédito: Chip Harlan/creativecommons.org

Deixei de respeitar a ideia de “resoluções de ano novo” há muito tempo. Mas, até há pouco, continuava reverenciando a ciência. Se eu não tivesse cismado de misturar as duas coisas, poderia muito bem ter evitado aumentar meu poço de ceticismo. Já reparou que todo regime pra emagrecer fracassado começa num dia emblemático? Segundas-feiras, entrada do inverno (pra ficar sarado até as temporadas quentes) e — claro — inícios de anos. O calendário é a Babilônia dos auto-iludidos. Sem querer justificar a minha fraqueza, mas tentando justificar mesmo assim, creio que o que derrubou minha fortaleza já no alvorecer do ano passado foi uma doída puxada de orelha que levei de meu médico, devidamente reforçada por um mapa de pressão arterial estratosférico e um hemograma no qual o colesterol era sucesso de bilheteria. Aí, bastou um empurrãozinho da notícia publicada …

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Sai dessa agora, velho batuta!

Crédito: Vincent Tijms/creativecommons.org

Na única vez em que não consegui evitar ir a um shopping nesta época natalina, me assombrei com uma cena infernal: uma criancinha aos berros no colo de um Papai Noel com cara de bundão. Lembrei-me então de um dos ditados favoritos do meu avô meio índio, meio ET: “Gente ruim pode enganar qualquer um, mas não engana criança nem cachorro.” Resolvi pesquisar. Que a figura mítica do “Pai Natal” (“Noel” é a forma francesa arcaica de “Natal”) teria sido inspirada na persona real de Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia do século 4, que virou santo católico, até a criancinha que chorava no shopping deve ter ouvido falar. Até aí, tudo bem, afinal o cara era realmente bondoso a ponto de presentear a criançada. E para evitar confusão, é bom frisar que Santa Claus, o nome dado na …

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O democrático presépio da tia Genoveva

Crédito: Petticoat Brenda/creativescommons.org

Pra mim, o Natal não tem a importância mística a ele atribuído por muitos, simplesmente porque eu não tenho religião. Mas devo a essa incensada “data magna da cristandade” a primeira e, seguramente, uma das mais impactantes lições de tolerância da minha vida. Lá no sul de Minas, onde nasci, — pensando bem, acho que em todas as regiões do país — as famílias católicas tratavam de iniciar a montagem do presépio com semanas de antecedência ao Natal, aquele lance de ir progredindo a marcha dos reizinhos magos e povoando a manjedoura de bichinhos fofos. Tia Genoveva era professora aposentada, já velhinha, ainda que vistosamente empertigada como uma dama estampada num camafeu. Aristocraticamente culta, era ela que “tomava as lições” da filharada e sobrinhada, com o rigor que merecíamos. Católica fervorosa, das hostes das Filhas de Maria, é lógico que …

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Tiro pela culatra

Crédito: V Dark Day/creativecommons.org

Dona Ana, de 79 anos, fincou a ponta da bengala no meio fio da calçada e, ao contrário do que seria lógico, esperou o semáforo liberar o fluxo para veículos e atravessou a movimentada avenida, fora da faixa de pedestres e em plena hora do rush, como se nem houvesse tido consciência da imprudência que lhe custou a vida: foi destroçada por uma van do transporte coletivo clandestino. O “suicídio da anciã” ganhou rapidamente as manchetes da mídia, impulsionado pelo conhecimento prévio de que a quase octogenária andava com bengala porque fora justamente atropelada anteriormente, o que deveria ter-lhe “vacinado” contra aquele surto de porralouquice. Segundo namorada e amigos, Zé Luiz, de 37 anos, sempre fora severamente acometido por uma rara combinação de acrofobia e agorafobia. O que não o impediu de, naquela manhã chuvosa, sair do apartamento térreo e …

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Metamorfose & encontro

Crédito: Thomas Rousing/creativescommons.org

Açoitado pelo vento gélido que varria a pracinha, o menino tiritante se encolhia no desconjuntado banco de madeira, naquela noite. Porra: a mãe trabalhara a vida inteira como faxineira da praça pra que ele fosse descartado, tão vulnerável e fodido daquele jeito?! A coitada era tão dedicada que tirava o pó até das folhas das árvores frondosas… Contudo, o que mais incomodava o menino, mais do que o frio, era a impossibilidade de enxergar cores: um inverno preto e branco pode ser muito mais cruel. Do outro lado da pracinha, o flagelo gélido também castigava a menina, que igualmente se encolhia noutro desconjuntado banco de madeira. Porra: o pai trabalhara a vida inteira como jardineiro da praça pra que ela fosse descartada, tão vulnerável e fodida daquele jeito?! Logo aquele velho trabalhador dedicado, que não deixava que qualquer erva daninha …

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Um churras desastroso

Crédito: Alex Guerrero/creativecommons.org

“Tô c’uma fome fedaputa!” O mantra, que já enchia muito o saco dos outros integrantes da expedição, era repetido à exaustão, lógico, pelo cadete Adriângelo 32, o glutão da galera, mas tão glutão, que jamais se convencia dos valores nutricionais da alimentação sintética acondicionada em cápsulas esterilizadas que deveriam garantir o sustento dos expedicionários. “Afinal, são só bagulhinhos sem sabor algum!”, detonava o esfomeado. O comandante Puethgarr 19, mais uma vez, se viu obrigado a remonitorar o quadro. Ok: todos usavam as vestes isolantes (até mesmo o comilão reclamação), então, o risco de contaminação ambiental/histórica do período continuava descartado. Ora, que o bebê guloso continuasse a chorar, foda-se! Afinal, a missão deveria prosseguir sem sobressaltos. Desde que a ciência lhes abriu as portas para o passado,— o futuro ainda era inescrutável, uma sopa quântica de multipossibilidades mutáveis incontrolavelmente — desenvolveram …

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Nunca mexa com a Loira do Banheiro

Crédito: Photo Atelier/creativescommons.o

A maioria dos alunos daquela tradicional escola pública nunca ouvira a tal lenda urbana (a ignorância quase sempre é uma dádiva). E, mesmo os nerds aficionados da série Supernatural preferiam ficar na miúda; afinal, todos ali compartilhavam uma urgência: manter em alta o movimento de ocupação de não menos que 600 estabelecimentos no país contra a medida provisória da reforma do ensino médio e a proposta de emenda constitucional que tenta impor um teto ridículo para os gastos públicos ao longo dos próximos 20 anos. Porém, o problema foi que se acumularam relatos sobre a aparição do fantasma da Loira do Banheiro; tanto nos sanitários para meninos quanto para meninas. Com tal intensidade, que os líderes da ocupação se renderam à necessidade de averiguar o caso: afinal, não podiam se dar ao luxo de deixar que a opinião pública — …

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Propaganda enganosa

Crédito: photographymontreal/creativecommons.org

Valdinho estava irremediavelmente a perigo: depois de arruinar — ou ver arruinados — seus últimos três relacionamentos amorosos, estava… como dizer sem machucar? En-ca-lha-dís-si-mo. De mulher, não granjeava nem bom dia em elevador. Cansado de voltar de mãos — e outros membros — abanando das baladas, lógico que recorreu à santa madre dos desvalidos: a internet. Só que os sites de relacionamento tampouco ajudaram: os poucos encontros às cegas que conseguiu só lhe renderam pretendentes que oscilavam entre dragões mal disfarçados e figuras que nem mulheres eram, de verdade (não que o coitado tivesse preconceito, apenas não era a praia dele). Foi aí que caiu nas sendas da irmã malvada da santa madre dos desvalidos: a deep web, aquela que não é indexada pelos mecanismos de busca padrão e que, reza a lenda, seria até 5 mil vezes maior que …

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