Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

Sai dessa agora, velho batuta!

Crédito: Vincent Tijms/creativecommons.org

Na única vez em que não consegui evitar ir a um shopping nesta época natalina, me assombrei com uma cena infernal: uma criancinha aos berros no colo de um Papai Noel com cara de bundão. Lembrei-me então de um dos ditados favoritos do meu avô meio índio, meio ET: “Gente ruim pode enganar qualquer um, mas não engana criança nem cachorro.” Resolvi pesquisar. Que a figura mítica do “Pai Natal” (“Noel” é a forma francesa arcaica de “Natal”) teria sido inspirada na persona real de Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia do século 4, que virou santo católico, até a criancinha que chorava no shopping deve ter ouvido falar. Até aí, tudo bem, afinal o cara era realmente bondoso a ponto de presentear a criançada. E para evitar confusão, é bom frisar que Santa Claus, o nome dado na …

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O democrático presépio da tia Genoveva

Crédito: Petticoat Brenda/creativescommons.org

Pra mim, o Natal não tem a importância mística a ele atribuído por muitos, simplesmente porque eu não tenho religião. Mas devo a essa incensada “data magna da cristandade” a primeira e, seguramente, uma das mais impactantes lições de tolerância da minha vida. Lá no sul de Minas, onde nasci, — pensando bem, acho que em todas as regiões do país — as famílias católicas tratavam de iniciar a montagem do presépio com semanas de antecedência ao Natal, aquele lance de ir progredindo a marcha dos reizinhos magos e povoando a manjedoura de bichinhos fofos. Tia Genoveva era professora aposentada, já velhinha, ainda que vistosamente empertigada como uma dama estampada num camafeu. Aristocraticamente culta, era ela que “tomava as lições” da filharada e sobrinhada, com o rigor que merecíamos. Católica fervorosa, das hostes das Filhas de Maria, é lógico que …

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Tiro pela culatra

Crédito: V Dark Day/creativecommons.org

Dona Ana, de 79 anos, fincou a ponta da bengala no meio fio da calçada e, ao contrário do que seria lógico, esperou o semáforo liberar o fluxo para veículos e atravessou a movimentada avenida, fora da faixa de pedestres e em plena hora do rush, como se nem houvesse tido consciência da imprudência que lhe custou a vida: foi destroçada por uma van do transporte coletivo clandestino. O “suicídio da anciã” ganhou rapidamente as manchetes da mídia, impulsionado pelo conhecimento prévio de que a quase octogenária andava com bengala porque fora justamente atropelada anteriormente, o que deveria ter-lhe “vacinado” contra aquele surto de porralouquice. Segundo namorada e amigos, Zé Luiz, de 37 anos, sempre fora severamente acometido por uma rara combinação de acrofobia e agorafobia. O que não o impediu de, naquela manhã chuvosa, sair do apartamento térreo e …

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Metamorfose & encontro

Crédito: Thomas Rousing/creativescommons.org

Açoitado pelo vento gélido que varria a pracinha, o menino tiritante se encolhia no desconjuntado banco de madeira, naquela noite. Porra: a mãe trabalhara a vida inteira como faxineira da praça pra que ele fosse descartado, tão vulnerável e fodido daquele jeito?! A coitada era tão dedicada que tirava o pó até das folhas das árvores frondosas… Contudo, o que mais incomodava o menino, mais do que o frio, era a impossibilidade de enxergar cores: um inverno preto e branco pode ser muito mais cruel. Do outro lado da pracinha, o flagelo gélido também castigava a menina, que igualmente se encolhia noutro desconjuntado banco de madeira. Porra: o pai trabalhara a vida inteira como jardineiro da praça pra que ela fosse descartada, tão vulnerável e fodida daquele jeito?! Logo aquele velho trabalhador dedicado, que não deixava que qualquer erva daninha …

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Um churras desastroso

Crédito: Alex Guerrero/creativecommons.org

“Tô c’uma fome fedaputa!” O mantra, que já enchia muito o saco dos outros integrantes da expedição, era repetido à exaustão, lógico, pelo cadete Adriângelo 32, o glutão da galera, mas tão glutão, que jamais se convencia dos valores nutricionais da alimentação sintética acondicionada em cápsulas esterilizadas que deveriam garantir o sustento dos expedicionários. “Afinal, são só bagulhinhos sem sabor algum!”, detonava o esfomeado. O comandante Puethgarr 19, mais uma vez, se viu obrigado a remonitorar o quadro. Ok: todos usavam as vestes isolantes (até mesmo o comilão reclamação), então, o risco de contaminação ambiental/histórica do período continuava descartado. Ora, que o bebê guloso continuasse a chorar, foda-se! Afinal, a missão deveria prosseguir sem sobressaltos. Desde que a ciência lhes abriu as portas para o passado,— o futuro ainda era inescrutável, uma sopa quântica de multipossibilidades mutáveis incontrolavelmente — desenvolveram …

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Nunca mexa com a Loira do Banheiro

Crédito: Photo Atelier/creativescommons.o

A maioria dos alunos daquela tradicional escola pública nunca ouvira a tal lenda urbana (a ignorância quase sempre é uma dádiva). E, mesmo os nerds aficionados da série Supernatural preferiam ficar na miúda; afinal, todos ali compartilhavam uma urgência: manter em alta o movimento de ocupação de não menos que 600 estabelecimentos no país contra a medida provisória da reforma do ensino médio e a proposta de emenda constitucional que tenta impor um teto ridículo para os gastos públicos ao longo dos próximos 20 anos. Porém, o problema foi que se acumularam relatos sobre a aparição do fantasma da Loira do Banheiro; tanto nos sanitários para meninos quanto para meninas. Com tal intensidade, que os líderes da ocupação se renderam à necessidade de averiguar o caso: afinal, não podiam se dar ao luxo de deixar que a opinião pública — …

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Propaganda enganosa

Crédito: photographymontreal/creativecommons.org

Valdinho estava irremediavelmente a perigo: depois de arruinar — ou ver arruinados — seus últimos três relacionamentos amorosos, estava… como dizer sem machucar? En-ca-lha-dís-si-mo. De mulher, não granjeava nem bom dia em elevador. Cansado de voltar de mãos — e outros membros — abanando das baladas, lógico que recorreu à santa madre dos desvalidos: a internet. Só que os sites de relacionamento tampouco ajudaram: os poucos encontros às cegas que conseguiu só lhe renderam pretendentes que oscilavam entre dragões mal disfarçados e figuras que nem mulheres eram, de verdade (não que o coitado tivesse preconceito, apenas não era a praia dele). Foi aí que caiu nas sendas da irmã malvada da santa madre dos desvalidos: a deep web, aquela que não é indexada pelos mecanismos de busca padrão e que, reza a lenda, seria até 5 mil vezes maior que …

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O reino encantado do meu avô

Guilherme Jofili/ creativecommons.org

O sítio dos meus avós, porçãozinha de terra pouco agricultável, mas belamente incrustrada entre vales solenes e indiferentes da cadeia de montanhas das Gerais e um céu azul demais, era o destino de minhas férias escolares e das dos numerosos primos da mesma pouca idade. A gente se esbaldava ao ar selvagem e se sujava sem que ninguém enchesse nosso saco inocente. Mas eu demarcava uma diferença em relação à renca de primos: enquanto eles sussurravam pelos cantos que vovô já andava caducando, eu prestava muita atenção nele, a quem achava malucamente fascinante. Certo que o velho não ajudava muito, com as histórias de assombrações… teve até aquela noite que, após contar a lenda do “fantasma da porteira”, cismou de nos pregar uma peça. A história dava conta de um carroceiro que havia sido esmagado contra a porteira de uma …

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Os filhos do mofo

Crédito: Kasia/creativecommons.org

Eu não saberia dizer porque gostava dele, a ponto de arriscar minha vida pra salvar a dele. Apesar da fuga desesperada pelas vielas pútridas da cidade escura, o enigma subia aos ares desesperançados e se condensava feito uma nuvem densa trovejante de não respostas. Aliás, nem saberia dizer porque o trato de “ele”: só uma precária extrapolação com base na avaliação do visual desagradável do corpo desengonçado, tão magro que deixava que algo semelhante a ossos dançasse sinistra e translucidamente sob a pele doentiamente azulada, me animava a pensar que seria masculino. O mais provável é que fosse assexuado ou hermafrodita ou o que quer que fosse. Mais provável, mesmo, dado a forma do seu nascimento, do qual fui testemunha. “Ele” era um legítimo “filho do mofo azul”, aquela estranha manifestação que dera pra infestar cada centímetro quadrado de concreto …

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Treta com as minhas rugas

Crédito: Lord Jim/creativecommons.org

  Tinha acabado a sempre enfadonha tarefa de me barbear pra mais um dia de batente quando, sei lá porque, cedi à compulsão — dispensável havia muito — de encarar mais demoradamente o reflexo da minha fuça no espelho. Confesso que fiquei impressionado pela assinatura intensa das rugas… Sabe o que foi estranho, mesmo? A ruga mais pronunciada sob o olho esquerdo — sou canhoto, a quem possa interessar — começou a tremelicar e, como num desenho animado importado magicamente de O mundo louco de Tex Avery, se transmutou numa boquinha freneticamente tagarela: — Qualé, seis-ponto-zero, vai dar pra nos estranhar agora? Conforme-se, velhote! Assim que me desengasguei de um restinho de espuma pra barbear que havia engolido de puro susto, tratei de conferir as informações no rótulo do tubo: não, até onde iam minhas parcas memórias de química elementar, …

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