Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

O reino encantado do meu avô

Guilherme Jofili/ creativecommons.org

O sítio dos meus avós, porçãozinha de terra pouco agricultável, mas belamente incrustrada entre vales solenes e indiferentes da cadeia de montanhas das Gerais e um céu azul demais, era o destino de minhas férias escolares e das dos numerosos primos da mesma pouca idade. A gente se esbaldava ao ar selvagem e se sujava sem que ninguém enchesse nosso saco inocente. Mas eu demarcava uma diferença em relação à renca de primos: enquanto eles sussurravam pelos cantos que vovô já andava caducando, eu prestava muita atenção nele, a quem achava malucamente fascinante. Certo que o velho não ajudava muito, com as histórias de assombrações… teve até aquela noite que, após contar a lenda do “fantasma da porteira”, cismou de nos pregar uma peça. A história dava conta de um carroceiro que havia sido esmagado contra a porteira de uma …

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Os filhos do mofo

Crédito: Kasia/creativecommons.org

Eu não saberia dizer porque gostava dele, a ponto de arriscar minha vida pra salvar a dele. Apesar da fuga desesperada pelas vielas pútridas da cidade escura, o enigma subia aos ares desesperançados e se condensava feito uma nuvem densa trovejante de não respostas. Aliás, nem saberia dizer porque o trato de “ele”: só uma precária extrapolação com base na avaliação do visual desagradável do corpo desengonçado, tão magro que deixava que algo semelhante a ossos dançasse sinistra e translucidamente sob a pele doentiamente azulada, me animava a pensar que seria masculino. O mais provável é que fosse assexuado ou hermafrodita ou o que quer que fosse. Mais provável, mesmo, dado a forma do seu nascimento, do qual fui testemunha. “Ele” era um legítimo “filho do mofo azul”, aquela estranha manifestação que dera pra infestar cada centímetro quadrado de concreto …

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Treta com as minhas rugas

Crédito: Lord Jim/creativecommons.org

  Tinha acabado a sempre enfadonha tarefa de me barbear pra mais um dia de batente quando, sei lá porque, cedi à compulsão — dispensável havia muito — de encarar mais demoradamente o reflexo da minha fuça no espelho. Confesso que fiquei impressionado pela assinatura intensa das rugas… Sabe o que foi estranho, mesmo? A ruga mais pronunciada sob o olho esquerdo — sou canhoto, a quem possa interessar — começou a tremelicar e, como num desenho animado importado magicamente de O mundo louco de Tex Avery, se transmutou numa boquinha freneticamente tagarela: — Qualé, seis-ponto-zero, vai dar pra nos estranhar agora? Conforme-se, velhote! Assim que me desengasguei de um restinho de espuma pra barbear que havia engolido de puro susto, tratei de conferir as informações no rótulo do tubo: não, até onde iam minhas parcas memórias de química elementar, …

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O amor sempre embarca

Crédito: Divulgação/Mascotas Puerto Madero Adopciones Responsables

Facilita em muito a história em si ser real e ter bombado na internet, replicada por sites noticiosos de responsa: aeromoça alemã e vira-lata argentino desenvolveram um caso de amor e, de tanto o bicho colar o focinho carente na porta envidraçada do aeroporto de Buenos Aires, a garota o adotou e levou pra morar com ela na Alemanha. Agora, vem a parte difícil: cismei de contar a história do ponto de vista do cachorro. Como estou longe de me ombrear com os talentosos Esopo e Walt Disney, peço desculpas antecipadas — principalmente à comunidade canídea — pelas minhas tosquices de sotaque. Isto posto, me arrisco… Hola. Yo era un perro sin dueño de Buenos Aires y ahora me llaman Rubio. Creio que nem preciso salientar o quanto de fome e sede eu sentia todo santo dia. Até que naquele …

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Pisem no breque!

Crédito: Gustavo Montes de Oca/creativecommons.org

A tripulação e a numerosa massa de passageiros estavam eufóricas, justificadamente: afinal, venceram a maior parte dos 1,4 mil anos-luz entre o mundo natal e o planeta alvo. A arca estava em órbita de um planetão gasoso e inóspito no limiar de um sistema solar mais jovem, coisa de 2 bilhões de anos, que o velho sol deles, mas que abrigava aquele mundinho tão adequado que, apesar de ser 40% menor e 5 vezes menos massivo do que o velho lar, é um corpo rochoso, dotado de atmosfera densa, com muita água. E, principalmente, habitado e administrado por uma espécie humanoide e suficientemente inteligente. Tudo favorável ao contato e ao acolhimento. O povaréu da arca até se animou a entoar para os deuses cósmicos uma oração de agradecimento aos cientistas do mundo natal: afinal, a proeza só se concretizara após …

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Barbárie GO

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Não era uma competição, eles apenas trataram de acelerar a bagaça toda de modo a terminar antes dos outros casais que transavam nas ruínas do velho Teatro de Arena. E havia um bom motivo para a pressa: os nanochips implantados nos hemisférios direitos dos cérebros dos dois alardeavam que havia adversários ao alcance. Os pobres últimos adversários… Não dava para ignorar o sinal. Vestiram-se mal e rapidamente, fecharam os zíperes, ajustaram os Virtuais Glass nos rostos ainda exangues e partiram para a caçada. Afinal, não podiam desperdiçar a disponibilidade de vítimas em potencial, notadamente aquelas vítimas, sem dúvida os remanescentes da última gangue rival a ser destroçada, garantindo a eles e seus parças a hegemonia incontestável no jogo (ao menos na circunscrição da decadente cidade). O pulsar dos nanochips ditado por GPS apontava inequivocamente para o boteco mais próximo, aquele …

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