Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

A paranoia da violência no Rio de Janeiro escancarada em “Praça Paris”

O filme mexe com os nervos e o desfecho é dos mais aterradores (Foto Divulgação)

Durante minha temporada no Rio de Janeiro, entre 2016 e 2017, só vi a Praça Paris de uma distância “segura”. Até planejei visitar aquela relíquia do final da Belle Epoque carioca, uma praça no bairro da Glória construída aos moldes das praças parisienses, com grandes gramados, lago, chafariz e canteiros em composição simétrica que tanto encantou os visitantes da Cidade Maravilhosa desde sua inauguração, em 1929. Mas nas duas ocasiões em que me atrevi a passear pelo local fui dominada pelo medo diante de tantos relatos de assaltos e outras violências. Pois dias atrás, em uma curta viagem ao Rio, a Praça Paris voltou a chamar minha atenção, já que é ela quem batiza o novo filme da cineasta carioca Lúcia Murat. “Praça Paris”, não por acaso, é um filme cujo tema é a paranoia da violência que nos atormenta, …

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“O Mestre dos Gênios” revela o grande editor dos grandes autores

Jude Law e Colin Firth em ótimas interpretações (Foto Divulgação)

No mundo dos livros que ficam para a eternidade, um nome se destaca na cena norte-americana: Max Perkins (1884-1947), editor e descobridor de escritores como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Não devia ser nada fácil chegar para um deles com seus manuscritos e mandar cortar parágrafos, sequências inteiras, personagens… ou até mesmo mudar o nome de um livro (!). Mas Perkins era implacável. Um relacionamento em especial chama atenção em sua história, contada na biografia “Um Editor de Gênios” (Genius, no original), de A. Scott Berg; foi com Thomas Wolfe (1900-1938), um autor (não confundir com Tom Wolfe, de “A Fogueira das Vaidades”) que apesar de pouco conhecido no Brasil, influenciou toda uma geração com sua escrita rápida, ágil e nervosa que daria, décadas depois, forma ao movimento beat, que Perkins enfrentou um de seus maiores desafios. E um …

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“Visages, Villages”, um encanto de road movie sobre rostos, lugares e memória

Agnès Varda divide o road movie com o jovem fotógrafo e artista JR (Foto Divulgação)

“Visages, Villages” é um pequeno grande filme que, a partir de uma reunião improvável, faz uma viagem pelo interior da França, mas com resultados bem menos idílicos do que os vendidos nas agências de turismo. A oitentona Agnès Varda, cineasta pioneira da Nouvelle Vague, amiga de Jean-Luc Godard, divide o road movie com o jovem fotógrafo e artista JR, que tem espalhado sua arte em grandes espaços ao ar livre mundo afora (inclusive nos Jogos Rio-2016). O resultado encanta. A dupla encontra uma França envelhecida, sem trabalho, carente, que contrasta com uma força individual que nos é revelada por personagens que são retratos verdadeiros do que é viver e resistir. Por meio da fotografia, o tempo, o nosso tempo, fica congelado a olhos vistos nas gigantescas imagens desses personagens coladas aqui e ali, que chamam atenção e fazem o cérebro …

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“The Post”, ou eu só queria ainda poder ler o meu jornal

The Post: o jornal - e o jornalista - agonizam nas redações, mas no cinema o ofício de reportar uma notícia garante boas histórias (Foto Divulgação)

O jornal – e o jornalista – agonizam nas redações, mas no cinema o ofício de reportar uma notícia garante boas histórias. O mais recente é “The Post”, segunda vez do roteirista Josh Singer pelo universo onde tudo começa na reunião de pauta. Depois da estreia premiada de “Spotlight”, é hora de contar a história do que viria ser chamado de Papéis do Pentágono. O sabor da nostalgia desce amargo diante da extinção cada vez mais próxima do jornal, principalmente para quem viveu essa história. O filme é meticuloso em acompanhar como era feito o jornal nosso de cada dia e a saudade que provoca chega a doer depois de mais de 25 anos de jornalismo na vida. Da reunião de pauta à apuração, escrever e editar, paginar, mandar para a gráfica, composição, tinha preta e muita disposição para dobrar, …

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The Square, um retrato ácido de uma vida com “cada um no seu quadrado”

O filme sueco surpreende e incomoda (Foto Divulgação)

“The Square – A Arte da Discórdia”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, incomoda. Candidato a melhor filme estrangeiro do Oscar 2018, o filme sueco expõe muitos dos grandes dilemas do mundo contemporâneo em uma sequência primorosa que revela o comportamento “cada um no seu quadrado” dos nossos tempos. O mendigo te pede uma moeda? Olhe para o outro lado. O drogado da esquina te amedronta? Mude seu caminho. Balas perdidas tiram a vida de crianças? Vamos pular Carnaval… O cineasta sueco Rubens Östlund, o mesmo do instigante “Força Maior”, coloca o mundo da arte contemporânea como cenário deste filme dramático, que mexe com os nervos e faz a gente rir de puro nervoso. O protagonista é Christian (Claes Bang), curador de um grande museu de arte contemporânea em Estocolmo, pai divorciado com duas filhas, acostumado …

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“A Forma da Água”, um filme de monstro para escapar dos nossos tempos

"A Forma da Água" é campeão d e indicações ao Oscar deste ano (Foto Divulgação)

Para “começar” o ano nada como um bom escapismo no cinema com um filme de monstro com muita ternura e muitas interpretações. “A Forma da Água”, campeão de indicações ao Oscar 2018 (concorre em 13 categorias), é uma fábula, um romance improvável, um filme sessão da tarde, tem humor e poesia, mas também coloca em camadas temas como o ser diferente, a solidão e a falta de perspectivas em um mundo bem sombrio. O sombrio, aliás, vem do passado, mais precisamente os anos 1960, com toda aquela paranoia de Guerra Fria, dos russos que querem chegar primeiro na Lua e dos vilões que perdem dedos, mas nunca a vontade de matar ao estilo dos filmes do 007. “A Forma da Água” nasceu da mente do mexicano Guillermo Del Toro, que já andou pelo universo fantástico em “O Labirito do Fauno …

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Com afeto, “Me Chame pelo seu Nome” vai muito além do rótulo filme gay

A produção ocupa a vaga "independente" do Oscar (Foto Divulgação)

Quando Oliver (Armie Hammer) propõe ao jovem Elio (Timothée Chalamet, o ator-sensação da temporada) que ele o chame pelo seu nome, os dois se tornam um. A brincadeira continua com jogos de sedução e é tempo de iniciar-se na aventura do amor e do sexo. O recém-chegado norte-americano, que desembarca para uma temporada na Itália na casa da família do talentoso adolescente, que compõe ao piano e passa o tempo lendo livros, inspira a descobertas. “Me Chame pelo seu Nome”, indicado a quatro categorias do Oscar 2018, é um filme sobre o despertar do sexo homossexual, mas é mais, pois carrega razão e sensibilidade.   Indicado nas categorias melhor filme, ator (Timothée Chalamet), roteiro adaptado e canção original (“The Mystery of Love”, de Sufjan Stevens, cuja “Visions of Gideon” também está na trilha), “Me Chame pelo seu Nome” poderia ser …

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Mulheres e monstros em um Oscar mais inclusivo após as denúncias de assédio

"A forma da água",  um dos fortes candidatos (Foto Divulgação)

O anúncio da lista dos indicados ao Oscar é sempre um acontecimento para quem é fã de cinema e nesta temporada havia um suspense a mais, já que há um movimento pelo boicote a filmes produzidos, escritos e/ou protagonizados por homens da indústria pegos com as calças na mão na avalanche de denúncias de assédio sexual digna dos melhores filmes-catástrofes de Hollywood. Conclusão: tiraram James Franco da festa. Mas não só. O Oscar 2018 mostrou que aprendeu a lição após acusações de discriminação em edições anteriores (apesar de ter esnobado a “Mulher-Maravilha” de sua lista de indicados). Outras “mulheres-maravilhas”, porém, garantiram seu lugar, como a jovem e talentosa Greta Gerwig, que vai concorrer nas categorias melhor direção e melhor roteiro original por seu “Lady Bird”, que recebeu cinco indicações. Também indicaram pela primeira vez uma mulher na categoria melhor fotografia, …

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E se a cura de todos os males for um filme de Woody Allen?

Juno Temple em fuga do marido mafioso (Foto Divulgação)

A virada do ano trouxe um novo Woody Allen aos cinemas e garantiu uma certa dose terapêutica para receber 2018. Afinal, filmes do Woody Allen já foram recomendados como a cura de todos os males, pelo menos em “Paris-Manhattan”, longa da jovem cineasta francesa Sophie Lellouche, que coloca sua protagonista, a farmacêutica Alice (Alice Taglioni), a indicar seus filmes para aliviar as dores da vida. Em “Roda Gigante”, o cineasta, aos 82 anos, mais uma vez faz o seu melhor. Allen sempre fez questão de misturar emoções, e o humor geralmente predomina. Em “Roda Gigante”, porém, o tom é mais do melodrama, apesar do riso nervoso que permanece. Entre rir, se emocionar e se perguntar pra que tanta loucura afinal, vale procurar respostas para perguntas que ainda nem foram feitas, ou, talvez, adotar uma postura defensiva, parecem mostrar seus personagens. …

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“Vermelho Russo”, o inesperado de uma viagem a Moscou

Martha e Maria, as protagonistas do segundo filme do diretor carioca Charly Braun (Foto Divulgação)

Para que o dia seja bom o costume é fazer um carinho no nariz da estátua do cão pastor ao lado do policial, uma das 76 imponentes peças de bronze da estação de metrô Ploschad Revolutsii, em Moscou. Locais e turistas se alternam entre rápidos afagos, selfies e pose para fotos em grupo, enquantos os trens chegam e saem. Recentemente, a tradição foi retratada no filme brasileiro “Vermelho Russo” e, naquele mesmo lugar, repetindo o afago no focinho do cachorro, foi impossível não me lembrar de Martha e Maria, as protagonistas do segundo filme do diretor carioca Charly Braun. Moscou me recebe nos últimos dias de outubro com a primeira neve do fim de ano. São apenas alguns flocos, mas que já deixam branca a paisagem do Parque Gorki, a poucas quadras do hotel. O frio convida para um passeio …

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