Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

O segredo bem guardado do filme “Monsieur & Madame Adelman”

Cena de “Monsieur & Madame Adelman” (Reprodução)

“Monsieur & Madame Adelman” tem um segredo. No chamado boca a boca a produção francesa tem tido sessões lotadas desde que estreou, em março, na França. Sem fazer barulho, chegou ao Brasil em julho e aqui não tem sido diferente. O filme, que marca a estreia na direção do ator francês Nicolas Bedos, já se tornou um daqueles títulos escondidos na programação que se tornam fenômeno. E as sessões continuam lotadas. O roteiro acompanha a vida de um casal desde os anos 1970. O subtítulo em português, aliás, é “Uma história de amor do início ao fim”. A mulher é vivida por Doria Tillier, esposa de Bedos na vida real e co-autora do roteiro. E o filme começa pelo fim. O corpo do protagonista, Victor, vencedor do Goncourt, o prêmio mais importante da literatura francesa, é velado enquanto a viúva, …

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O “milagre ateu” da Flip ou quem quer namorar Pilar, a viúva de Saramago?

Pilar del Rio: momentos especiais na Flip 2017 (Foto Daniela Prandi)

Desde “José e Pilar”, documentário que revelou a intimidade intelectual do casal José Saramago e Pilar del Río, a personalidade provocadora da jornalista espanhola chamou minha atenção. Anos depois, conferir sua apresentação no lugar destinado ao altar da Igreja Matriz, palco central da Flip 2017, a Feira Literária Internacional de Paraty (RJ), foi um “milagre ateu”, como a própria definiu. Pilar brilhou na mais politizada das edições da Flip, que chegou aos 15 anos com muitas mulheres na programação após a polêmica edição anterior, que teve um reduzido número de convidadas. Foi a estrela entre escritores e aficionados que encaravam o tortuoso caminho pelas ruas de pedra entre a Matriz e a Casa Amado Saramago, um dos pontos altos da programação paralela. Para muitos, a missão (cumprida) era conseguir uma foto, uma palavra, um autógrafo ou um sorriso de Pilar. …

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O mundo está ruim para você? Em Westeros está muito pior

"Game of Thrones":  sucesso impressionante (Foto Divulgação)

Antes da estreia da sétima e penúltima temporada de “Game of Thrones”, no domingo (16 de julho), parei para conferir uma teoria que tentava explicar o sucesso da série de TV, um verdadeiro fenômeno cultural, ao redor do mundo.  Para resumir: sua vida está ruim, seu país está uma confusão, a violência voltou a te assombrar, seus governantes não te representam e o futuro sabe-se lá como vai ser? Pois bem, em Westeros está pior. Westeros, para quem está chegando agora, é um vasto continente com reinos onde se desenrola a história de GoT (como a série passou a ser conhecida nas redes sociais), que nasceu de uma coleção de seis livros de fantasia do autor George R.R. Martin chamada “A Song of Ice and Fire”. O grande medo é que “o inverno está chegando” e, assim, antes da maior …

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A comédia da (in)tolerância em “Más Notícias para o Sr. Mars”

Um protagonista que vive "no mundo da lua"

O mundo pede tolerância, mas a realidade não deixa dúvidas de que a intolerância ganha territórios. “Más Notícias para o Sr. Mars” (Des nouvelles de la planète Mars), comédia franco-belga com direção de Dominik Moll, é justamente sobre tolerar. Ou até onde se pode ir. O vizinho deixa as sujeiras do cachorrinho em frente da sua casa? O chefe faz assédio moral? Os filhos te ignoram? A ex-mulher é uma folgada? A irmã é mais folgada ainda? Nada afeta o protagonista, Philippe Mars, interpretado com muito carisma pelo ator belga François Damiens. No original, o filme se chama “Notícias do planeta Marte” e faz um trocadilho com o sobrenome do protagonista, “Marte”, um sujeito de 49 anos que prefere viver “no mundo da Lua”. A galeria de situações que o poderiam levar a perder a tolerância é bem construída e, …

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Mais poder para as mulheres, com “Mulher-Maravilha” e Sofia Coppola

Dirigida por Patty Jenkins, a israelense Gal Gadota faz a nova Mulher-Maravilha

  A Mulher-Maravilha chegou ao cinema a tempo para o discurso sobre o, para usar a palavra da moda, empoderamento feminino. A heroína marcou minha adolescência em frente à TV, consumindo “enlatados”, como se dizia naquela época, quando a luta das mulheres não era tão diferente da de agora, como por exemplo, pela equiparação salarial. O filme é dirigido por uma mulher, Patty Jenkins, e a escolhida para vestir a fantasia da heroína foi a atriz israelense Gal Gadot, atlética por causa de seus anos no exército. Confesso que, a princípio, estranhei Gal Gadot. Onde estão os olhos azuis e a pele de porcelana da Miss América Linda Carter? Mas o que posso dizer é que o filme emociona, conta a história direitinho e as cenas de luta não são enjoativas. Ambientado na Primeira Guerra, a “Grande Guerra”, como eles …

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“Crônica da Demolição”, documentário para quem perdeu a memória

A demolição autoritária do Palácio Monroe, considerado um "trambolho", aconteceu na década de 1970, no governo Geisel

O filme é “Crônica da Demolição”, documentário de Eduardo Ades sobre a derrubada do Palácio Monroe, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar. A sala está incrivelmente lotada em um sábado à tarde e, com o sistema de comprar assento numerado, é sempre uma loteria. Desta vez, fiquei no meio de uma família que assim que o filme começou a filha adolescente passou a perguntar sobre cada questão que era colocada. Enquanto o general Geisel e outros personagens no centro de uma demolição absurda, que ficou como um trauma, contada no documentário com muita inventividade, com toques de suspense para quem não sabia a história – como eu, a família no cinema, que era um grupo de umas seis ou sete pessoas, bem no meio da pequena sala do circuito alternativo do Rio de Janeiro, passou a …

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Em “Paterson”, Jim Jarmush prova que tudo na vida pode ser poesia

Golshifteh Farahani faz Laura, a esposa de Paterson e sua única leitora e incentivadora, também uma jovem com sonhos banais

No ir e vir de uma vida sem grandes acontecimentos, um motorista de ônibus de uma pequena e pacata cidade de New Jersey cria poemas em “Paterson”, novo e carinhoso filme de Jim Jarmush. Qualquer coisa serve de motivo para seus escritos, até mesmo o rótulo de uma caixa de fósforos. Curiosamente, seu nome é Paterson, o mesmo da cidade onde nasceu, e também a terra-natal de um de seus poetas favoritos, William Carlos Williams (1883-1963). Paterson acorda todos os dias mais ou menos na mesma hora, sem despertador, abraça a mulher, come sucrilhos, caminha até o trabalho, roda com o ônibus, volta para casa, sai para passear com o cachorro e toma uma cerveja no bar antes de ir dormir. Parece uma vida banal, e talvez seja, a não ser pelo fato de que ele é um poeta. Jim …

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“O Cidadão Ilustre” é ótimo cinema argentino para rir e para pensar

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O escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martínez) aguarda ser chamado para receber o Nobel de Literatura. Mas toda a pompa e circunstância da maior de todas as honrarias do mundo literário caem por terra após o discurso “de agradecimento”, quando o autor faz um manifesto veemente contra “esse tipo de reconhecimento unânime que está relacionado ao declínio de um artista”. O mal-estar é geral e é impossível não lembrar do recente desprezo de Bob Dylan a respeito do mesmo prêmio. A arte imita a vida, ou vice-versa? Mantovani é o protagonista da comédia dramática “O Cidadão Ilustre”, imperdível novidade no cinema a partir desta quinta-feira, 11 de maio. O filme, premiado no Festival de Veneza do ano passado, tem sua força no roteiro e na direção da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, a mesma de “O Homem ao Lado” …

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“Além das Palavras” retrata a poesia e a rebeldia de Emily Dickinson

O filme foi escrito e dirigido por Terence Davis (Foto Divulgação)

Emily Dickinson (1830-1886) enfrentou, com poesia e rebeldia, uma vida marcada por princípios familiares rígidos que terminou de forma solitária e dolorosa, após sofrer por anos de uma grave doença renal. A poeta, hoje uma das mais inspiradoras e reconhecidas autoras da língua inglesa, teve uma vida praticamente anônima em Amherst (Massachussets) e publicou pouco mais de uma dezena de poemas dos quase 1.800 que foram revelados ao mundo postumamente. “Temo que as mulheres não possam criar a fina literatura”, diz o editor de um jornal ao responder ao seu pedido de publicação em uma cena de “Além das Palavras” (A Quiet Passion, no original), surpreendentemente a primeira cinebiografia da autora, em um filme escrito e dirigido pelo talentoso britânico Terence Davis, de trabalhos premiados, como “O Fim de um Longo Dia” e “Vozes Distantes”. No filme, a protagonista é …

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Tudo ao mesmo tempo para Isabelle Huppert

Isabelle Huppert: magnífica em "Elle" (Foto Divulgação)

Sabe aquele filme recente com a Isabelle Huppert? Qual? Tem “Elle”, “O Vale do Amor”, “O Que Está Por Vir”… são tantos filmes estrelados pela atriz de 64 anos nos últimos meses que vem a pergunta: como é que ela consegue? A francesa muda de personagem como quem troca de roupa e a cada atuação, além de elogios e prêmios, fica a comprovação de que é uma das grandes atrizes dos nossos tempos. Com seu tipo “comum”, consegue realmente se transformar, o que rendeu a ela o apelido, não sei se maldoso, de “Meryl Streep da França”. Entre os filmes recentes da atriz, o que mais provocou polêmica e, portanto, saiu do circuito cult para se tornar notícia, foi “Elle”. Pela interpretação da fria empresária dona de uma empresa de games que é violentada, Isabelle Huppert chamou atenção e ultrapassou …

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