Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

“Cafarnaum”, o caos de um mundo onde estamos incapazes de proteger nossas crianças

História emociona, mas não há concessões (Foto Divulgação)

Por Daniela Prandi Nas ruas de uma Beirute destruída, sobreviver é para os fortes. Zain (Zain Al Rafeea), um garoto que não sabe nem quantos anos tem, corre de um lado para o outro tentando escapar da violência do mundo adulto em “Cafarnaum”, filme da cineasta libanesa Nadine Labaki, de “Caramelo” (2007) e “E agora, para onde vamos?” (2011), que levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2018 e agora está na corrida do Oscar na categoria estrangeiro. Filme de criança, às vezes, pode cair no sentimentalismo, mas aqui não é o caso. A história emociona, mas não há concessões. Cafarnaum, o título do filme, além de ser o nome de uma cidade bíblica, hoje sítio arqueológico em Israel, onde acredita-se que Jesus tenha pregado, é sinônimo de caos. O filme começa com o pequeno Zain no …

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“Roma” emociona, mas por que não podemos ver o filme no cinema?

O filme tem a infância do diretor como referência (Foto Divulgação)

Por Daniela Prandi Confesso que gostaria de ter visto “Roma”, novo filme do diretor mexicano Alfonso Cuarón, em uma sala de cinema. Imagino a sequência inicial, de três minutos, na tela grande, quando apenas o vaivém de um rodinho lava a garagem da casa onde trabalha Cleo (Yalitza Aparicio), a empregada e protagonista do filme que se tornou sensação pelos festivais mundo afora, que acaba de ganhar o Globo de Ouro na categoria estrangeiro e que chega ao Oscar como um dos favoritos. Mas não, nos novos tempos, são outras regras de mercado, e basta um clique para o filme passar na sua TV. Fazer o quê? Os aviões também vão e vem no céu preto e branco de “Roma”. Jovens esquecidos pela sociedade treinam artes marciais para fins escusos, conflitos sociais batem à porta, a desigualdade nas relações entre …

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A morte do jornalismo, entre a irreverência de Tarso de Castro e o rigor de Otávio Frias Filho

Tarso de Castro no irreverente Pasquim (Foto Divulgação)

Dias após conferir o documentário “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro” vem a notícia da morte, nesta terça-feira, 21 de agosto, de Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo. No final do documentário, “Otavinho”, como era conhecido, é mostrado como um “vilão” e ganha até uma musiquinha irreverente feita pelo humorista Paulo Caruso. Tarso de Castro, jornalista que morreu aos 49 anos, em 1991, representou um jornalismo libertário, sem amarras, que fez do “Pasquim” um exemplo de coletividade onde cada um escrevia como queria. Otavinho, por sua vez, intelectual, jovem herdeiro de uma grande empresa jornalística, inovou por impor rigor editorial. E, não por acaso, quando assumiu, Tarso de Castro, o colunista mais lido e também responsável por grandes inovações no jornal, como o caderno dominical Folhetim, estava entre os demitidos. Não havia mais lugar …

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A vida passa implacável em “Uma Casa à Beira-Mar”

Da sacada de uma bela casa na enseada de Marselha, a vida passa implacável (Foto Divulgação)

Da sacada de uma bela casa de frente para a enseada de Marselha, no sul da França, a vida passa implacável. O patriarca contempla a imensidão azul enquanto agoniza na delicada, porém angustiante, abertura de “Uma Casa à Beira-Mar”, novo filme do cineasta Robert Guédiguian, o mesmo que nos encantou com ‘As Neves do Kilimanjaro” e tantos outros belos filmes ambientados em sua terra-natal. Obrigados ao reencontro após a doença do pai, que perdeu todos os movimentos, três irmãos tentam entender suas perdas e danos. O clima fica entre Tchecov e Brecht enquanto os limites físicos da casa, construída pelo pai e alguns amigos, ainda presentes na vida da família, funcionam como um palco que recebe, sem dó, algumas das grandes questões da humanidade, de ontem e de hoje. Guédiguian, que é de Marselha, tem uma intensa relação com o …

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O dia em que conheci a obscena senhora Hilda Hilst

"O que Hilda teria achado desse auê todo?" (Foto Instituto Hilda Hilst)

Os cachorros cercaram o carro do jornal e na entrada da casa estava Hilda Hilst, hoje a grande homaneagada da Flip 2018. Os latidos perturbaram o primeiro contato, mas a obscena senhora D. em pessoa (!) foi receptiva. Com os cabelos ruivos presos e um vestido azul solto, combinava muito bem com o tom de terra da ampla casa na chácara onde viveu boa parte da vida, em Campinas. O fotógrafo pede para ela posar, mas Hilda quer que entremos. O ano é 1990 e essa é uma das minhas primeiras pautas no caderno de cultura do Diário do Povo, em Campinas. Hilda Hilst era praticamente só um nome para mim, então antes da entrevista procurei no arquivo antigas reportagens. Mas nada teria sido suficiente para eu me preparar para o que viria. Um dos cães, e eram muitos, um …

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“Afterimage”, a imagem que fica de Wajda é poderosa

Muitos enxergaram no filme um testamento-manifesto de Wadja (Foto Divulgação)

“Afterimage” é o último filme do polonês Andrzej Wajda, que morreu aos 90 anos em 2016. Foi uma despedida em grande estilo, com um filme melancólico sobre o papel da arte diante de um regime autoritário como a União Soviética de Stálin. Muitos enxergaram no filme um testamento-manifesto. E, para além das imagens, o que fica é uma mensagem poderosa, que emociona. Wajda conta a história do artista e pintor Wladyslaw Strzeminski (1893-1952), interpretado com grande inspiração por Boguslaw Linda. Companheiro de Malevich e outros na criação da arte moderna e tido como o maior artista polonês do século passado, o pintor perdeu uma perna e um braço na Primeira Guerra Mundial. Não queria ser tratado de maneira diferente e seguia a vida pintando e sendo referência para seus alunos na Escola de Belas-Artes de Lodz. Em 1934, fundou o …

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Nem tudo são cores na viagem ao Taiti de Paul Gauguin

O filme mostra com enorme colorido o processo criativo e a agonia do artista (Foto Divulgação)

A sessão de “Gauguin – Viagem ao Taiti”, uma das atrações do recém-encerrado Festival Varilux, fez muitos artistas trocarem seus ateliês pelo escurinho do cinema. Antes da exibição em Campinas a fila para comprar o ingresso parecia a abertura de uma exposição. Após o filme as rodinhas se formaram, impressões foram trocadas e havia até um clima de confraternização no ar. A arte de Paul Gauguin (1848-1903) segue inspiradora, afinal, para além das polêmicas. O francês Vincent Cassel encarna muito bem o papel do artista que, nos últimos anos de sua vida, viveu na Polinésia e produziu seus trabalhos mais importantes, como a tela “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”, o busto “Tête tahitienne” e a escultura em madeira “La maison de Jouir”, por exemplo. Dessa época, porém, vieram as acusações de pedofilia, de apropriação da arte …

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“A Noiva do Deserto” emociona com viagem para reaprender a viver

Um filme que emociona (Foto Divulgação)

De um fiapo de história onde mulher solitária perde a mala durante conturbada viagem de ônibus pela região desértica de San Juan, na Argentina, surge um filme que emociona. “A Noiva do Deserto”, das diretoras Cecilia Atán e Valeria Pivato, é sobre reaprender a viver. Simples e arrebatador, o filme que nasceu de uma coprodução entre Argentina e Chile comprova a força da atriz chilena Paulina Garcia, em corajosa atuação, envelhecida e sem qualquer glamour. A chilena, diva do belo “Gloria”, de Sebastián Lélio, que rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim de 2013, brilha sem qualquer truque no papel de Teresa, uma mulher contida, abnegada, obrigada a se mudar após gastar sua vida dedicando-se aos patrões e sua família. Claudio Rissi, no papel de Gringo, um falastrão que cruza o seu caminho, é uma ótima surpresa. …

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A paranoia da violência no Rio de Janeiro escancarada em “Praça Paris”

O filme mexe com os nervos e o desfecho é dos mais aterradores (Foto Divulgação)

Durante minha temporada no Rio de Janeiro, entre 2016 e 2017, só vi a Praça Paris de uma distância “segura”. Até planejei visitar aquela relíquia do final da Belle Epoque carioca, uma praça no bairro da Glória construída aos moldes das praças parisienses, com grandes gramados, lago, chafariz e canteiros em composição simétrica que tanto encantou os visitantes da Cidade Maravilhosa desde sua inauguração, em 1929. Mas nas duas ocasiões em que me atrevi a passear pelo local fui dominada pelo medo diante de tantos relatos de assaltos e outras violências. Pois dias atrás, em uma curta viagem ao Rio, a Praça Paris voltou a chamar minha atenção, já que é ela quem batiza o novo filme da cineasta carioca Lúcia Murat. “Praça Paris”, não por acaso, é um filme cujo tema é a paranoia da violência que nos atormenta, …

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“O Mestre dos Gênios” revela o grande editor dos grandes autores

Jude Law e Colin Firth em ótimas interpretações (Foto Divulgação)

No mundo dos livros que ficam para a eternidade, um nome se destaca na cena norte-americana: Max Perkins (1884-1947), editor e descobridor de escritores como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Não devia ser nada fácil chegar para um deles com seus manuscritos e mandar cortar parágrafos, sequências inteiras, personagens… ou até mesmo mudar o nome de um livro (!). Mas Perkins era implacável. Um relacionamento em especial chama atenção em sua história, contada na biografia “Um Editor de Gênios” (Genius, no original), de A. Scott Berg; foi com Thomas Wolfe (1900-1938), um autor (não confundir com Tom Wolfe, de “A Fogueira das Vaidades”) que apesar de pouco conhecido no Brasil, influenciou toda uma geração com sua escrita rápida, ágil e nervosa que daria, décadas depois, forma ao movimento beat, que Perkins enfrentou um de seus maiores desafios. E um …

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