Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

Mais poder para as mulheres, com “Mulher-Maravilha” e Sofia Coppola

Dirigida por Patty Jenkins, a israelense Gal Gadota faz a nova Mulher-Maravilha

  A Mulher-Maravilha chegou ao cinema a tempo para o discurso sobre o, para usar a palavra da moda, empoderamento feminino. A heroína marcou minha adolescência em frente à TV, consumindo “enlatados”, como se dizia naquela época, quando a luta das mulheres não era tão diferente da de agora, como por exemplo, pela equiparação salarial. O filme é dirigido por uma mulher, Patty Jenkins, e a escolhida para vestir a fantasia da heroína foi a atriz israelense Gal Gadot, atlética por causa de seus anos no exército. Confesso que, a princípio, estranhei Gal Gadot. Onde estão os olhos azuis e a pele de porcelana da Miss América Linda Carter? Mas o que posso dizer é que o filme emociona, conta a história direitinho e as cenas de luta não são enjoativas. Ambientado na Primeira Guerra, a “Grande Guerra”, como eles …

Leia Mais »

“Crônica da Demolição”, documentário para quem perdeu a memória

A demolição autoritária do Palácio Monroe, considerado um "trambolho", aconteceu na década de 1970, no governo Geisel

O filme é “Crônica da Demolição”, documentário de Eduardo Ades sobre a derrubada do Palácio Monroe, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar. A sala está incrivelmente lotada em um sábado à tarde e, com o sistema de comprar assento numerado, é sempre uma loteria. Desta vez, fiquei no meio de uma família que assim que o filme começou a filha adolescente passou a perguntar sobre cada questão que era colocada. Enquanto o general Geisel e outros personagens no centro de uma demolição absurda, que ficou como um trauma, contada no documentário com muita inventividade, com toques de suspense para quem não sabia a história – como eu, a família no cinema, que era um grupo de umas seis ou sete pessoas, bem no meio da pequena sala do circuito alternativo do Rio de Janeiro, passou a …

Leia Mais »

Em “Paterson”, Jim Jarmush prova que tudo na vida pode ser poesia

Golshifteh Farahani faz Laura, a esposa de Paterson e sua única leitora e incentivadora, também uma jovem com sonhos banais

No ir e vir de uma vida sem grandes acontecimentos, um motorista de ônibus de uma pequena e pacata cidade de New Jersey cria poemas em “Paterson”, novo e carinhoso filme de Jim Jarmush. Qualquer coisa serve de motivo para seus escritos, até mesmo o rótulo de uma caixa de fósforos. Curiosamente, seu nome é Paterson, o mesmo da cidade onde nasceu, e também a terra-natal de um de seus poetas favoritos, William Carlos Williams (1883-1963). Paterson acorda todos os dias mais ou menos na mesma hora, sem despertador, abraça a mulher, come sucrilhos, caminha até o trabalho, roda com o ônibus, volta para casa, sai para passear com o cachorro e toma uma cerveja no bar antes de ir dormir. Parece uma vida banal, e talvez seja, a não ser pelo fato de que ele é um poeta. Jim …

Leia Mais »

“O Cidadão Ilustre” é ótimo cinema argentino para rir e para pensar

cidadao ilustre 1

O escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martínez) aguarda ser chamado para receber o Nobel de Literatura. Mas toda a pompa e circunstância da maior de todas as honrarias do mundo literário caem por terra após o discurso “de agradecimento”, quando o autor faz um manifesto veemente contra “esse tipo de reconhecimento unânime que está relacionado ao declínio de um artista”. O mal-estar é geral e é impossível não lembrar do recente desprezo de Bob Dylan a respeito do mesmo prêmio. A arte imita a vida, ou vice-versa? Mantovani é o protagonista da comédia dramática “O Cidadão Ilustre”, imperdível novidade no cinema a partir desta quinta-feira, 11 de maio. O filme, premiado no Festival de Veneza do ano passado, tem sua força no roteiro e na direção da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, a mesma de “O Homem ao Lado” …

Leia Mais »

“Além das Palavras” retrata a poesia e a rebeldia de Emily Dickinson

O filme foi escrito e dirigido por Terence Davis (Foto Divulgação)

Emily Dickinson (1830-1886) enfrentou, com poesia e rebeldia, uma vida marcada por princípios familiares rígidos que terminou de forma solitária e dolorosa, após sofrer por anos de uma grave doença renal. A poeta, hoje uma das mais inspiradoras e reconhecidas autoras da língua inglesa, teve uma vida praticamente anônima em Amherst (Massachussets) e publicou pouco mais de uma dezena de poemas dos quase 1.800 que foram revelados ao mundo postumamente. “Temo que as mulheres não possam criar a fina literatura”, diz o editor de um jornal ao responder ao seu pedido de publicação em uma cena de “Além das Palavras” (A Quiet Passion, no original), surpreendentemente a primeira cinebiografia da autora, em um filme escrito e dirigido pelo talentoso britânico Terence Davis, de trabalhos premiados, como “O Fim de um Longo Dia” e “Vozes Distantes”. No filme, a protagonista é …

Leia Mais »

Tudo ao mesmo tempo para Isabelle Huppert

Isabelle Huppert: magnífica em "Elle" (Foto Divulgação)

Sabe aquele filme recente com a Isabelle Huppert? Qual? Tem “Elle”, “O Vale do Amor”, “O Que Está Por Vir”… são tantos filmes estrelados pela atriz de 64 anos nos últimos meses que vem a pergunta: como é que ela consegue? A francesa muda de personagem como quem troca de roupa e a cada atuação, além de elogios e prêmios, fica a comprovação de que é uma das grandes atrizes dos nossos tempos. Com seu tipo “comum”, consegue realmente se transformar, o que rendeu a ela o apelido, não sei se maldoso, de “Meryl Streep da França”. Entre os filmes recentes da atriz, o que mais provocou polêmica e, portanto, saiu do circuito cult para se tornar notícia, foi “Elle”. Pela interpretação da fria empresária dona de uma empresa de games que é violentada, Isabelle Huppert chamou atenção e ultrapassou …

Leia Mais »

“Silêncio” e “A Cabana” seguem caminhos diferentes para ouvir a voz de Deus

"Silêncio" de Martin Scorsese, com Liam Neeson como o jesuíta Cristóvão, trata da questão da fé, baseado na obra do japonês Shusaku Endo

Ouvir a voz de Deus ou, melhor, falar com Deus, é uma questão de fé. E enfrentar o silêncio como resposta é um teste. No meio de tanta violência, guerras e injustiças não é difícil questionar onde está Deus, afinal. Dois filmes recentes que buscam o divino de formas distintas nasceram como livros. Um fez um sucesso estrondoso, outro permaneceu cult. Em ambos, o protagonista é Ele. “Silêncio”, de Martin Scorsese, levou quase 30 anos para sair do papel para a telona. O filme é uma adaptação do livro do japonês Shusaku Endo e trata de temas fortes para o diretor, que é ex-seminarista, principalmente a questão da fé. O filme se passa em 1640 e conta a história de dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garpe (Adam Driver), que partem para o Japão para reencontrar o …

Leia Mais »

A dois passos do paraíso com o cineasta russo Konchalovsky

Olga, vivida por Yulyia Vyotskaya, mostra sua força em seu depoimento com a cabeça raspada

Eles falam diretamente para a câmera e nos contam sua história. Estão diante de quem? De nós, pelo menos. “Paraíso”, mais recente filme do veterano cineasta russo Andrei Konchalovsky, coloca três personagens em cena, em uma brilhante fotografia em branco e preto, e joga com a ideia de que todos temos que nos explicar quando chega a hora. A bela Olga (Yulyia Vyotskaya), princesa russa que milita na Resistência francesa; o burguês Jules (Philippe Duquesne), um chefe de polícia francês e colaboracionista; e Helmut (Christian Clauss), um jovem da aristocracia alemã que se tornou coronel nazista, têm suas vidas cruzadas na Paris ocupada. O “paraíso” do título é uma ironia com a ideia de “paraíso” da propaganda nazista de um novo homem em um novo mundo, mas dá a pista definitiva para que a gente entenda com quem, afinal, os …

Leia Mais »

O véu de “Fatima” no choque cultural de nossos tempos

Um ano depois, chega ao Brasil "Fatima", vencedor do César 2016, que conta a história da argelina Fatima (Soria Zeroual) e suas filhas na França

Em uma temporada com fortes concorrentes, “Fatima” foi o vencedor do César, o “Oscar francês” de 2016, em três categorias: melhor filme, roteiro e atriz revelação, para Zita Hanrot. Triste, moderno e realista, o filme destaca a distância cada vez maior entre a nova geração francesa dos filhos dos imigrantes africanos, que nasceram ali, e a de seus pais, muitos dos quais não falam francês. Mas, mais do isso, “Fatima” destaca a hora de separar o que vai e o que fica. Um ano depois, o filme chega ao Brasil. Logo no primeiro dia de exibição, em uma tarde calorenta de uma quinta-feira de março, havia fila para a sessão da tarde no cinema cult de Botafogo, no Rio de Janeiro. Chamava atenção um grupo de amigas que falava (alto) sobre a atitude/aceitação das mulheres que usam lenço, o véu …

Leia Mais »

A volta de Trainspotting e de tudo aquilo que nos faz turista da nossa juventude

Com cenas memoráveis, "Trainspotting 2" mantém o mantra "primeiro a oportunidade, depois a traição"

A música é frenética, Renton (Ewan McGregor) está correndo, mas o ambiente é bem diferente do primeiro “Trainspotting”. O escocês maluco que deu o golpe nos não menos malucos Spud (Ewen Bremner), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlisle) há 21 anos, está correndo na esteira de uma academia lotada. A sequência inicial de “Trainspotting 2”, ou “T2”, que estreia nesta quinta-feira (23 de março), manda logo o recado: o mundo mudou. David Bowie está morto, o telefone celular comanda nossas vidas, as câmeras de vigilância nas ruas nos lembram que nada escapará, as redes sociais dominam as relações, tem Viagra, tem drogas sintéticas e… Brexit. Neste admirável mundo nem tão novo, o reencontro com os quatro malucos criados pelo escritor escocês Irvine Welsh é inesperado. Ninguém sabia que eles estavam vivos. E ninguém, vamos falar a verdade, …

Leia Mais »