Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

Precisamos falar sobre o estupro

“Agnus Dei” se passa durante o duro inverno polonês e as gravações foram feitas no país em uma pequena cidade para a qual a diretora levou a equipe, sem conforto ou regalias

Estupro é arma de guerra e sempre será. A atriz francesa Lou de Laâge, protagonista do filme ‘Agnus Dei’ (Les Innocentes), um dos destaques do Festival Varilux, veio ao Rio de Janeiro para participar do evento e, em todas as entrevistas e debates de que participou, foi questionada sobre a “infeliz coincidência” de um caso ocorrido há 70 anos encontrar paralelo no Rio de Janeiro de hoje. “Os estupros sempre existiram e, provavelmente, vão continuar existindo”, disse a atual queridinha do cinema francês logo após a sessão no Cine Odeon, na Cinelândia, acompanhada pela Agência Social de Notícias. “Por isso, é importante falar sobre isso, para fazer com que a humanidade se torne melhor.” Em ‘Agnus Dei’, com direção de Anne Fontaine, Lou de Laâge dá vida a uma personagem inspirada na vida real. A jovem médica Madeleine Pauliac, que …

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O inverno está chegando em “A Frente Fria que a Chuva Traz”

A atriz Bruna Linzmeyer interpreta Amsterdan, uma das integrantes da turma de riquinhos que se diverte na laje, no filme 'A Frente Fria que a Chuva Traz'; sua personagem destoa no grupo dando o tom da degradação     Fotos: Divulgação

Nas escadarias da biblioteca de Londrina (PR), no final dos anos 1980, conheci e virei fã de Mario Bortolotto. Naquela época, suas peças de teatro exalavam uma rebeldia juvenil carregada, com um quê de Charles Bukowski. Bortolotto logo migrou para palcos mais celebrados e hoje é um dramaturgo dos mais respeitados na cena nacional. Londrina virou passado e em um final de tarde frio e cinzento, no Rio de Janeiro, o reencontrei, na telona, em “A Frente Fria que a Chuva Traz”. Éramos pouquíssimos espectadores naquela imensa sala de cinema do Centro carioca. Bortolotto é o autor da peça que deu origem ao filme e que marca a volta à direção do veterano Neville D’Almeida, de “A Dama do Lotação” (1978), que estava há uns 15 anos sem filmar. Além disso, também atua, em um papel sob medida para seu …

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Está louca? Tartarugas Ninja na capa do caderno de Cultura?

Da esq. para dir.: Donatello, Michelangelo, Leonardo e Raphael em “As Tartarugas Ninja Fora das Sombras", chegam a brigar pela possibilidade de se tornarem humanas

Elas nasceram nos quadrinhos underground, eram sombrias e violentas, em preto e branco, no melhor do pior estilo tosco, quase uma piada de mau gosto, na metade dos anos 1980. Poucos conheciam as tais “Tartarugas Mutantes Adolescentes Ninja” até que o filme foi lançado, em 1990. Fanática por gibis, e graças aos amigos mais underground, me divertia com Donatello, Michelangelo, Leonardo e Raphael. Demorei algum tempo até convencer o editor do jornal onde começava minha carreira de que a estreia de cinema merecia a capa. “Está louca? Tartarugas Ninja na capa do caderno de Cultura”? Na época, o filme tinha entrado para a história como a produção independente que mais tinha faturado até então. Tinha custado US$ 13 milhões e arrecadado mais de US$ 200 milhões. Era um fenômeno cultural, argumentei. O primeiro filme se resumia a contar a origem …

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Crítico de cinema? Mas isso é uma profissão?

Jean-Michel Frodon, um dos mais respeitados críticos de cinema da França, abriu nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, a programação do Festival Varilux de Cinema Francês          Foto: Divulgação

O francês Jean-Michel Frodon conta que, um dia, um taxista lhe perguntou sua profissão. “Sou crítico de cinema”, respondeu. “Mas isso é uma profissão?”, questionou o taxista. Frodon, um dos mais respeitados críticos de cinema da França, abriu nesta sexta-feira (10 de junho), no Rio de Janeiro, a programação do Festival Varilux de Cinema Francês, que terá programação em 50 cidades, com uma master class sobre o seu ofício. Tive o prazer de estar na plateia, junto com alguns dos mais conhecidos críticos do Brasil e entusiastas da sétima arte, e acompanhamos atentamente sua “aula de mestre”. Foi lição em cima de lição. O francês, que foi diretor de redação da revista Cahiers du Cinéma de 2003 a 2009 e é autor de diversos livros sobre cinema, foi inspirador. Lembrou que, a cada semana, quando novos filmes são lançados, são as pessoas que escrevem sobre eles as responsáveis …

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A felicidade mora longe

Em seu terceiro longa, Sandra Kogut retrata a aventura de uma mulher da Zona Sul pelo subúrbio carioca da cidade maravilhosa    Fotos: Divulgação

No Rio de Janeiro toda a gente espera. No caos de uma cidade que se tornou um canteiro de obras, primeiro com a Copa do Mudo, depois com os Jogos Olímpicos, a expectativa de dias melhores move o ir e vir, sempre muito tumultuado, de quem (sobre)vive na cidade dita maravilhosa. A pequena Rayane e seu irmão Ygor esperam a mãe que os deixou em frente a um prédio na endinheirada Zona Sul dizendo que voltaria logo. Nas mãos, a garota aperta um papel, com o endereço de dona Regina. É nesse encontra e se desencontra enquanto se espera que se desenrola “Campo Grande”, terceiro longa de Sandra Kogut. No filme, Ygor e Rayane são interpretados por Ygor Manuel e Rayane do Amaral, crianças que atuam com uma beleza e uma firmeza no olhar que impressionam. Assim como em seu …

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A dança dos desajustados

O filme islandês "Desajustados", do diretor Dagur Kári, sobre o quarentão obeso e solitário Fúsi, já ganhou três prêmios no Festival de Tribeca em 2015, por melhor narrativa, roteiro e ator Gunnar Jónsson (foto)    Fotos: Divulgação

A vida sempre nos apresenta novos caminhos, mas, geralmente, por medo ou preguiça, paramos em algum ponto e não saímos mais dali, metidos na tal da zona de conforto. É o que aconteceu com o grandalhão Fúsi (Gunnar Jónsson), que todos os dias come sucrilhos no café da manhã, vai trabalhar no setor de bagagens do aeroporto, volta para casa, dedica-se ao hobby das miniaturas da Segunda Guerra Mundial, e assim a vida vai passando. Aos 40 e poucos anos, ainda virgem, é tímido, bondoso e carrega em seu corpanzil toda a gentileza do mundo. Fúsi é o protagonista de um belo, singelo e imperdível filme da Islândia que tem feito sucesso no circuito alternativo com o terrível título de “Desajustados”. O título original do filme é justamente Fúsi. Para a questão sobre quem é “ajustado” ou “desajustado” nessa história …

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Mais uma aula do bom cinema argentino

Em "O Décimo Homem", Ariel (interpretado por Alan Sabbagh) é um economista 
que vive em Nova York e faz uma visita a Once, o bairro argentino. majoritariamente judeu, onde ele cresceu      Fotos: Divulgação

Há tempos que cinema argentino é sinônimo de bom cinema. A cada filme que chega às telas, fica cada vez mais evidente a capacidade dos cineastas “hermanos” de enxergar boas histórias no trivial, sem necessidade de firulas, efeitos ou apelação barata. Um dos diretores que ajudou a formar esse selo de qualidade é Daniel Burman, dos belos e tocantes “O Abraço Partido” (2004) e “Dois Irmãos” (2010), entre outros. Conferi seu filme mais recente, que no Brasil leva o nome de “O Décimo Homem”. No original, o título é “El Rey de Once” (sim, é difícil entender o critério que se usa para mudar os títulos dos filmes…). Once é o nome do bairro, majoritariamente judeu, em Buenos Aires, onde o protagonista cresceu. Ariel, interpretado por Alan Sabbagh, que está ótimo no papel, é hoje um economista que vive em Nova York. Com viagem marcada para visitar o …

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O desfecho mais que inesperado de Memórias Secretas

"Memórias Secretas” (Remember), o novo longa do diretor egípcio radicado no Canadá Atom Egoyan, é um suspense com final surpreendente e com elenco de primeira, como os veteranos Christopher Plummer (foto) e Martin Landau

Há tempos que um filme não gerava tantos comentários acalorados na saída da sessão para jornalistas. O desfecho de “Memórias Secretas” (Remember) é tão inesperado que foi preciso alguns minutos para digerir a revelação. O novo longa do diretor egípcio radicado no Canadá Atom Egoyan, do brilhante “O Doce Amanhã”, é um suspense daqueles que te faz remexer na cadeira. Muitas e muitas vezes. O filme tem um elenco de primeira, encabeçado pelos veteranos Martin Landau, de 87 anos, e Christopher Plummer, de 86 anos. Os vovôs, ou quem sabe bisavôs, mostram todo o seu talento no papel de dois sobreviventes de Auschwitz que vivem em um asilo. Na trama, Max (Landau) quer vingança. A vida toda planejou encontrar e matar o assassino de sua família no campo de concentração nazista. Encoraja seu amigo, Zev (Plummer), a ajudá-lo. O primeiro …

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Um documentário que parece, mas não é

Giancarlo Rosi flagrou a vida como ela é no documentário "Fogo no mar" ao retratar o drama dos refugiados que aportam na pequena ilha siciliana de Lampedusa       Fotos: Divulgação

“Fogo no Mar” (Fuoco Mare), que venceu o Festival de Berlim deste ano, é um documentário, mas não parece. Dá a impressão de ficção ao retratar o drama dos refugiados que aportam na pequena ilha siciliana de Lampedusa e alteram a bucólica rotina dos cerca de 6 mil moradores do local. O cineasta italiano Gianfranco Rosi reinventa o gênero. Entre idas e vindas, Rosi viveu quase um ano em Lampedusa. Pelo olhar dos habitantes e pelo olhar dos que fogem da guerra construiu um retrato muito atual dos nossos tempos. Sem roteiro, em uma postura quase invisível, flagrou a vida como ela é. A verdade que o formato documentário exige ganhou poesia, compaixão, solidariedade e um toque de crueldade em um filme repleto de inocência, dedicação, amor… e tristeza. Com a câmera na mão, nas poucas cenas em que realmente …

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Maravilhoso (mesmo!) Boccaccio

“Maraviglioso Boccaccio”, filme livremente baseado em Decamerão pelos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani,  foi exibido no Festival do Rio do ano passado e chega agora ao circuito      Fotos: Divulgação

Cores estonteantes enchem a telona em “Maraviglioso Boccaccio”, filme dos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani que tive o prazer de conferir em sessão para jornalistas. Digo prazer porque o “maravilhoso” do título não é exagero. O filme, que foi exibido no Festival do Rio do ano passado e chega agora ao circuito, é livremente baseado em Decamerão e se equilibra entre a vida e a morte enquanto escancara as belezas da Toscana e, por que não?, da própria Itália e de seu povo. Vale lembrar que Decamerão é uma coleção que reúne cem narrativas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. Os textos são considerados um marco da literatura por seu realismo, numa época em que a religiosidade ditava o encadeamento das palavras. Os irmãos Taviani escolheram cinco histórias para o filme, ambientado na Florença do século 14, quando a peste negra dizimava a população. Com um …

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