Cacalo Fernandes

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Psiu! Fala baixo

Durante certo tempo, foi jogador de futebol. Ele imaginava muitos aplausos da galera. Sonhava na verdade que os gritos explodiriam em um Maracanã lotado. Mas quando percebeu, depois de uma boa jogada em um campo de várzea, que o silêncio invadira o gramado, refletiu: sua carreira chegara ao fim. E agora? Depois de uma semana dormindo, acordou com os olhos cheios de ramela e o violão nas mãos. Começou a dedilhar. Gostou. Que som bom! Será que foi a semana de dormideira? Voltou a tocar, a tocar, a tocar, a tocar. Parecia que nunca mais terminaria aquilo. Seria agora um violonista de sucesso. Sua nova carreira começou quietinha. Como acontecia com muita gente. Começou em bares pequenos. Mas era só o início. Que o futuro o aguardasse. O futuro seria legal. Ah, como Londres era bela! E Amsterdã, então! E …

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A pedra que veio do nada

De repente, quem diria, a vida de Ambrósio mudou. “O que aconteceu, meu Deus? O que estava acontecendo comigo?” se perguntava. Parecia uma praga invertida que atravessara sua vida. Ambrósio estava aliviado por um lado e angustiado por outro. Afinal, depois de tanta desgraça, vinha aquele tempo de calmaria. Ele olhava para o céu e questionava: “Para, não vem mais com novidade? Você é safado”! Não veio mais novidade. Ele já começara conversar com o mundo para que ele lhe explicasse como tudo de ruim poderia aparecer por tanto tempo e sumira num instante, sem explicação. Esse tudo era tudo mesmo. A escova de dente caía com a pasta lambendo o chão. O mesmo acontecia com o cachorro quente – e lá ia salsicha e todo o molho que fizera com suor danado. Até o cachorro, o único ser do …

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O padre que descobriu o ouro

Todo mundo de Cantão só falava na rifa do padre. Tinha hora em que o zum-zum-zum era um inferno: “vai dar águia, vai dar zebra, vai dar cobra, vai dar vaca”… Os palpites ganhavam volume quando os romeiros passavam em frente à Igreja do Rosário. O que corria na boca miúda era de que a intenção era sensibilizar os santos para quando as bolinhas da loteria rolassem. E como só eles, os santos, poderiam provar a tese, restava ao padre rezar para que a cidade não enlouquecesse de vez. O padre só sabia que tinha inventado a loteria pra igreja, uma loteria como dessas encontradas em tudo que é esquina. Apenas uma rifa, uma loteria mais livre. O padre só queria isso, só isso. A intenção era, com o dinheiro arrecadado, pintar o prédio e, se desse, fazer outras reformas, …

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As bolas coloridas diziam tudo

Eu conhecia Dona Nena só de vista. Ela era a dona do circo. De origem italiana, ela não era muito boa de papo, o que era estranho. Não sei o momento em que ela falava. Mas Dona Nena devia exprimir-se em algum momento, tenho certeza. Mas eu conhecia o Bigorrilho, e isso me bastava. Ele é quem cuidava de Fátima, aquela elefanta fantástica que ficava no campo de futebol do Libertad, atrás de minha casa. E ele me permitia observar os animais do circo um pouco mais cara a cara. E Fátima, acredito, ficara minha grande amiga por isso. Amicíssima. Do meu quarto, aos fundos do campo, a primeira coisa que fazia no dia era escancarar a janela e olhar a Fátima. Ela era linda mesmo. Além disso, pela primeira vez, eu me senti mais importante que meus primos da …

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Palavras perigosas. Quase.

Aos sábados, eles sempre iam à padaria. Eles comiam e bebiam de tudo: omelete, pão quente com manteiga, pão de queijo, rocambole, suco de laranja, vitamina, café com leite… Mas a certa altura da comilança, sem mais nem menos, Gumercindo falou: “Mas Fausto é mentiroso”. Fausto não estava lá, logicamente. Gumercindo logo explicou que depois de certa idade, os quase velhos, como Fausto, eram acostumados a contar muitas histórias. Quase todas verídicas. Quase. Uma parte delas era engraçada. Só que vinham de outros amigos, normalmente bons contadores de história. Mas que não sabiam que suas histórias estavam sendo repetidas pelo sujeito como se fosse dele. Falsidade pura! Os olhares caminhavam pela mesa. Na maior parte deles o sentimento era de desconforto. “Fausto iria saber de tudo”, confidenciava um deles. Uns poucos aprovavam a observação e encontraram enfim quem falasse por …

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Buraco da fechadura

Até o padre da cidade veio dar uma espiada. O guindaste se estrebuchava em manobras e nada. Adalberto, de braços cruzados, permanecia na calçada em frente da casa, enquanto Alziza entrava e saía aflita, temendo o embaraço da máquina e os braços cruzados do marido. A piscina não queria entrar na casa nem a pau. Taquatinga torcia pelo sucesso de sua primeira piscina. Taquatinga era uma boa cidade para se viver. A cidade dormia e acordava cedo. Trabalhava, se alimentava, conversava na calçada, futricava na praça, rezava e colhia cana e laranja, produtos que lhe permitiram durante anos pintar as casas e conservar a igreja matriz. Esta rotina se arrastou até o dia em que Adalberto voltou à cidade com a mulher e a sogra, depois de duas décadas em que Adalberto viveu de desacertos na capital paulista. Adalberto, agora …

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Bife entrou em cena

Olhando bem para ele, e ele para nós, era isso mesmo: gostamos da cara um do outro. Não sei de quem veio o nome, se de mim ou de minha mulher. Apesar de orelha rasgada por uma briga de rua, ele de fato era um Boxer diferente. Era o Bonitão. E ficou assim. Bonitão foi achado numa dessas casas de animais abandonados pela vida. E batemos os olhos na turma. Entre os que eram oferecidos, nenhum deu bola muito grande pra gente. Salvo um deles, o da orelha abalroada. Na verdade, ele que nos escolheu para sermos seus parceiros. Parecia que ele estava adivinhando que iríamos para a casa nova, e ele junto. Só não sabia que logo chegaríamos à casa que era quase vizinha da que eu vivera minha infância, há trinta anos. Foi para lá que fomos eu …

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