Carlãozinho Lemes

Milton Jung/creativecommons.org

Panteão dos desvalidos

Para os transeuntes apressados, rumo ou de volta ao trabalho e outros afazeres de “gente normal”, aquele trecho do centro velho da cidadona não passava de uma infestação por moradores de rua, entregues à apatia e à malandragem típica dos sobreviventes sociais. Estavam certos, de certo modo. Porém, não sabiam tudo. Tampouco modificava a percepção os pedaços de diálogos eventualmente entreouvidos: afinal, aqueles desafortunados estavam sempre sob efeito de uma dieta maléfica à base de muita pinga batizada com metanol e algumas pedritas de crack. Por isso, pode ter passado totalmente batido o papo esperto travado entre Fidid0 e Mestre Ranço. O primeiro era mais um sem-teto indistinguível naquela massa de desvalidos. Já Mestre Ranço demonstrava razoável capacidade de memória e, mentisse ou não, teria origem até nobre: pertencera a uma família de inclinação protestante histórica e chegara até a ser …

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Crédito: Dan Flavin/creativecommons.org

A volta do poeta cego da minha cidade alternativa

  Já andei dizendo por aqui: na cidade alternativa que habitei um dia tinha sempre um poeta cego plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava. Ele adivinhava os meus passos e se teletransportava para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma. Um dia se chamou Calçadão da 13. Era assim: o mundo está completo primavera covardia últimos inocentes se exibem no circo em chamas nus a beijar cometas e navalhas a cidade em flashes do avesso na carne vítrea dos manequins putas de voz cava filam cigarros no Calçadão da 13 seus olhos barbitúricos são as comportas da noite esta noite de ancas trêmulas e quilômetros embaralhados esta bandeira ensopada de veneno estendida sobre o arco dos pentelhos neons sanitos esôfagos baratas breves chamas sujas no intervalo dos passos oh as pastelarias e seus …

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Crédito: PROHenrik Sandklef/creativecommons.org

O enlace

Caráeo, custou muito empenho, dinheiro — e muito, muito tempo, — mas M. finalmente estava prestes a realizar um feito que, embora valorizasse no plano emocional, teria um efeito sociopolítico devastador: se tornaria o primeiro representante da Casta Cognitiva Superior (CaCoSu) a conseguir se casar legalmente com um integrante da Massa de Cognição Inferior (MaCoIn). O alcance da façanha se devia ao fato histórico de que, em nenhuma época os entraves que já marcaram enlaces inter-raciais ou homo-afetivos chegaram aos pés do tabu que sempre cercou a possibilidade de união legal entre CaCoSus e MaCoIns, ainda mais com a iniciativa partindo de um CaCoSu. A base da intolerância situava-se na realidade incontestável: enquanto os CaCoSus governavam o mundo, tanto nas questões de poder político, economia, ciência e tendências filosóficas/artísticas, aos MaCoIns eram delegadas funções subalternas, braçais ou meramente burocráticas: eram …

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Crédito: European Space Agency/creativecommons.org

Caíram direitinho

Os sabichões da Interagência Espacial (InterEsp) mijaram de rir nas doutas e imaculadas cuecas/calcinhas quando decodificaram os dados enviados pelo cinturão de satélites de vigilância: “Revoada de unicórnios translúcidos na mesosfera”; “Aproximação crítica de asteroide envolto em escudo de invisibilidade”; “Van lotada por palhaços cósmicos do mal iniciando orbitação”. O mais engraçado era que os “dados” não só se faziam acompanhar de cálculos com fachada de coerência, como se davam ao luxo de produzir imagens hiper-realistas dos “fenômenos”. O que não estava visível para a gargalhante e elitista plateia da InterEsp eram as frenéticas atividades industriais em curso no cenário insólito pintado pelos dados malucos (também acompanhadas por risinhos, muitos risinhos…). Os cientistas terráqueos já estavam acostumados com as brincadeiras de “hackers espaciais”, que pentelhavam o mundo sério desde os idos tempos das atividades dos satélites Swift e Fermi, coletores …

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A intenção foi boa…

A vibração se alastrou rapidamente por todas as porções de solo úmido do planeta. O engraçado era que a fonte da interferência nunca poderia ser detectada facilmente, face que encontrava-se a milhões de anos-luz. O que não impedia que todos os espécimes de cogumelos da Terra que carregavam os genes dos “percussores” percebessem nitidamente o fenômeno. Estava posta a assembleia. “Pois é, bravos operativos”, — batucou cosmicamente a suprema e longínqua intervenção — “Já tínhamos previsto o desdobramento, mas a questão agora é que, finalmente, a ‘ficha caiu’ de vez”. Os “bravos operativos” captaram a mensagem, inscrita com precisão no cerne de seus pés, parcialmente enterrados nos substratos, e que suportam os chapéus. Contudo, sua primeira reação foi um imenso “?” O vozeirão quase imaterial, porém semi-silencioso, prosseguiu: “Até que enfim, respeitáveis centros de etnobotânica concluíram que o consumo habitual …

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Crédito: Mark Hillary/creativecommons.org

Êita Via Crucis mais arretada, sô!

Era um grupo de amigos muito unidos e todos cursavam Artes Cênicas na cidade grande. Nos feriados voltavam em peso pra cidadezinha natal e gozavam de um — sejamos honestos — injustificável prestígio por parte dos conterrâneos. Por isso, naquela Semana Santa não foi nada difícil convencer o pároco a deixá-los encenar a Paixão de Cristo pelas ruas do lugarejo e filmar a montagem, pra pontuar como projeto experimental da faculdade. Descolaram o vestuário, os apetrechos cênicos e até ensaiaram. Na Sexta-Feira da Paixão, horas antes da apresentação, armaram o ritual de “concentração”, como não podia deixar de rolar. Só um deles não pode se “concentrar”, justamente o mais bonitão, de olhos azuis, cabeludo, que faria o papel de Jesus: pai separado, era sua vez de ficar de babá da filhinha. Os outros cheiraram uma duna de pó e mamaram …

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Crédito: Enric Martinez/creativecommons.org

Porque me desencantei com a morte

(Em memória do saudoso Caio Tidei) Deixei o funeral de um amigo. No caminho, previa o que ia acontecer. Já contei aqui que na cidade alternativa que habitei um dia tinha sempre um poeta cego plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava. Até hoje ele adivinha os meus passos e se teleporta para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma suja de tempo. O daquele dia se chamava Porque me desencantei com a morte. Era assim: eu me criei no tempo dos enterros desfilantes matronas crocodilando lágrimas de vela deveras matraqueavam farfalhantes negras loucas vestes de todos os meses e praças destes feitos desta feita sem tragedianacional manchetável só aceitável naturação de morte unitária por vez vez que a família arrimada a salvo razoável véu na cara por tudo isso sem constrição possível só …

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Crédito: Renee of the Future/creativecommons.org

Me chamaram de Deus. E fui feito refém

Se você está lendo este relato é porque conseguiu decifrar a intrincada criptografia que apliquei e que me custou cinco meses de trabalho árduo e furtivo. Então, é sinal de que possui inteligência suficiente para entender a urgência da situação e talvez nos ajude a combater, ou ao menos, amenizar o perigo que toda a humanidade enfrenta. Meu nome é doutor H. e respondo como pesquisador sênior do Instituto de Aperfeiçoamento de Organismos Semissintéticos, o Iaos. Quer dizer, respondia, tempos atrás; agora o quadro é bem mais complicado. Há um semestre, nosso laboratório principal foi invadido por uma dúzia de homens fortemente armados e metidos em trajes militares que ostentam uma insígnia indicando pertencerem a alguma organização supremacista. Demonstrando treinamento aprimorado e senso de objetivo, eliminaram, de cara, os funcionários mais subalternos, só poupando os especialistas verdadeiramente qualificados. Logo em …

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Crédito: Nasa

Face a face

Quando você olha dentro do abismo, o abismo olha dentro de você. (Friedrich Nietzsche) A comandante Ethel mal conseguia conter o entusiasmo. E daí que sua vida pessoal tivesse havia muito se desintegrado ao longo de sua carreira? Ela era o primeiro ser humano a orbitar radicalmente, porém com segurança razoável, um buraco negro, com chances reais de obter imagens com altíssima resolução do que rolava “lá dentro”. O macete era manter a nave só um tiquinho aquém do horizonte de eventos de Sagittarius A*, o buraco negro monstruoso no centro da Via Láctea. Orbitalmente ancorada ali, ela poderia operar a otimização do sistema observacional e realizar o grande feito, nunca alcançado pela humanidade (e, provavelmente, nem por qualquer outra espécie). Passaram-se boas décadas desde que cientistas obtiveram a primeira imagem real do buraco negro. Na época, eles construíram um …

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Crédito: Pwjamro/creativecommons.org

Da criação das sombras

Ah, tá bom, tá bom, confesso que andei adiando isto aqui. Por que? Sei lá se por algum prurido idiota produzido pela carga emocional, ou porque a coisa ainda me espeta a alma caminheira em vã com uma carga poderosa de nostalgia. Ou só porque o tema é realmente muito triste. Resolva você, hipotético porém sempre generoso leitor deste nosso blog. O que nos interessa realmente é que chegou a hora de falar DELE. E que ninguém por aí ouse rir demais: zombar de crianças que nutrem amigos imaginários é politicamente muito, mas muito mesmo incorreto, né não? (e que ninguém por aí tampouco perca de vista que este pobre escriba sessentão que lhes enche o saco semanalmente nunca deixará de ser uma… criança). Pois bem, chega de papo furado, vamos então à sangria, ao que parece, necessária e inevitável, …

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