Carlãozinho Lemes

Crédito: Interdimensional Guardians/creativecommons.org

Isso é no que dá confiar

A baixíssima estatura (menos que um metro e vinte e olhe lá) e o corpinho esquelético eram os meus trunfos para driblar os fiscais da prefeitura durante os rapas”, cada vez mais frequentes e agressivos no camelódromo: eu conseguia ziguezaguear quase imperceptivelmente entre as pernas dos transeuntes, trôpegas por causa do reboliço. Certo que minha cabeçorra oferecia alguma dificuldade, porém nada que uns “licencinha!, licencinha!”, grunhidos com minha voz algo metálica, não resolvessem. Já a uma distância segura da repressão, ainda ouvia a torcida dos colegas camelôs que não tiveram a mesma sorte: “Força, anão, você vai conseguir mais uma vez!” Após adentrar, esbaforido, o quarto da pensão, antes mesmo de tomar fôlego, tratei de conferir se havia conseguido entochar todas as minhas mercadorias dentro da mochila surrada: tinha sim, os prosaicos e simpáticos bonequinhos de epóxi estavam lá, prontos …

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Crédito: ND Strupler/creativecommons.org

Home office

A Pensão da Tia Marilda para Rapazes Solteiros era, sem sombra de dúvidas, o fim do poço a que um desempregado crônico e cachaceiro como eu poderia chegar. Ou até não: abusando do restinho do salário-desemprego, até que consegui alugar um quartinho individual, dádiva, visto que naquela altura do campeonato, o que eu menos queria suportar seria dividir o espaço com outros losers iguais ou até piores do que eu. Historicamente funcionando sem alvará nem anjo da guarda no cinturão urbano em torno da antiga estação rodoviária, a pensão não fazia perguntas demais — e nem nós, os hóspedes, naturalmente. E tinha outra vantagem: ficava próxima do centro da cidade, o que facilitava muito minha atividade atual como camelô, que abracei havia alguns anos desde que levei um pé na bunda da firma onde trabalhava como almoxarife; a localização também …

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Crédito: Garry Knight/creativecommons.org

Adivinhe quem manda agora

O delegado da Infância e Juventude estava realmente de saco cheio daquilo. A cena só variava quanto às identidades informadas pelas vítimas. De resto, elas, as vítimas, pareciam oriundas de uma fornada de clones: sempre garotinhas púberes, — embora exalassem maturidade nas expressões corporais e na linguagem — bonitinhas, cabeleiras exuberantes e de pele muito lívida, meio diáfana mesmo. A maioria era tão mirradinha que parecia até levitar pela sala de depoimentos. O mais intrigante era que as queixas eram, invariavelmente, as mesmas: todas haviam, em alguma medida, sido molestadas pelos chamados “palhaços assustadores”, a pegadinha de mau gosto do momento nos centros urbanos maiores. O acúmulo de casos foi tanto que o delegado se viu obrigado a solicitar aos superiores a consultoria de um psicólogo forense gabaritado. — Então, foi assim, seu delegado: eu tava indo pra minha aula …

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Crédito: Sara/creativecommons.org

Amor proibido

Os dois conselhos de Notáveis se reuniam simultaneamente, embora não tivessem consciência disso — nem poderiam, pois significaria a aniquilação de ambas as dimensões. Mais do que coincidência, o motivo era que a situação premente era horrivelmente perigosa para os dois lados. O fato comum a ambos os conselhos era que tudo dependia do sucesso em refrear os hormônios belicosamente ativados das respectivas rainhas.                                                            * * *        O que intrigava os dois conselhos era o pressuposto de que cada rainha, a rigor, só poderia suspeitar da existência da outra por meras e imprecisas especulações cosmológicas. Assim como acontecia com os habitantes de ambas as dimensões, a maior e a menor. Em ambas, florescera há tempos a hipótese, baseada em modelos padrão da física (coincidentes, desenvolvidos simultaneamente, mas de forma que uma nunca tenha tido consciência da outra) de que …

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Psyber Artist/creativecommons.org

Comuna underground

 Rato de rua/Irrequieta criatura/Tribo em frenética/Proliferação/Lúbrico, libidinoso/Transeunte/Boca de estômago/Atrás do seu quinhão — Ode aos ratos (Chico Buarque/Edu Lobo) A inusitada delegação demonstrava muita impaciência na antessala do Gabinete de Gestão de Crise onde esperava pra ser recebida pela força-tarefa montada às pressas como tentativa de conduzir a difícil negociação. A situação era tão premente que até o prefeito de Paris estava por lá. Finalmente, os homens da segurança sinalizaram à recepcionista que os representantes dos rebeldes podiam entrar. E eles adentraram o gabinete, agitando os longos rabos nervosamente, belicosos pelos eriçados; as patinhas diminutas chegavam a barulhar ao cruzar o suntuoso piso de madeira. Os gestores da crise engoliram em seco. * * * Para os parisienses, os sinais andaram se intensificando por meses, porém foi quando o The New York Times divulgou o fenômeno que o caso ganhou …

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Crédito: Hotagrami/creativecommons.org

Ele também cresceu

Deu a última lambida na cria: sim, o paper estava finalmente nos conformes das exigências do 3º Congresso de Novas Abordagens na Psicologia Infantil, no qual seria apresentado, e cuja data tanto se avizinhava. Ufa! Aquilo demandara dois árduos anos de estudos e pesquisas até que tivesse o rigor pra impulsionar sua carreira acadêmica. Na “lambida” final, focou com atenção redobrada trechos cruciais do texto que buscava lançar luz sobre o fenômeno popularmente conhecido como “amigos imaginários”, algo que se verifica geralmente com crianças entre 3 e 7 anos, porém às vezes se prolonga um pouco mais. O paper começava por se render ao óbvio: todos nós, independentemente da idade ou status intelectual, vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum; perambulamos por mídias sociais e trocamos informações e segredos com pessoas com quem …

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Crédito: Dafne Cholet/creativecommons.org

Sob a maldição das agendas fantasmas

Uns admitem mais abertamente, outros nem com reza brava, mas a verdade é que esse lance de “resoluções de ano novo” é o caô coletivo/histórico/cultural mais deslavado que existe. A megadieta prometida ao deus Narciso sobrevive só o tempo suficiente de a comilança do fim do ano que passou fazer digestão; como academia todo dia, com essa chuvarada de verão?; melhorar o mau gênio de que jeito, se todos os crápulas da sua vida resolveram, mais uma vez, formar uma superliga contra você? Breque no cartão de crédito vira missão impossível, porque descobrimos que aquela merdinha de plástico tem vida própria. Bem, já deu pra notar que sou do time dos que admitem o caôzão. A minha vergonha extra, entretanto, é que, como sou um cara das antigas, daqueles afeiçoados a papel, sempre tive a mania de registrar minhas “resoluções” …

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Crédito: Chip Harlan/creativecommons.org

A ciência e as resoluções de ano novo

Deixei de respeitar a ideia de “resoluções de ano novo” há muito tempo. Mas, até há pouco, continuava reverenciando a ciência. Se eu não tivesse cismado de misturar as duas coisas, poderia muito bem ter evitado aumentar meu poço de ceticismo. Já reparou que todo regime pra emagrecer fracassado começa num dia emblemático? Segundas-feiras, entrada do inverno (pra ficar sarado até as temporadas quentes) e — claro — inícios de anos. O calendário é a Babilônia dos auto-iludidos. Sem querer justificar a minha fraqueza, mas tentando justificar mesmo assim, creio que o que derrubou minha fortaleza já no alvorecer do ano passado foi uma doída puxada de orelha que levei de meu médico, devidamente reforçada por um mapa de pressão arterial estratosférico e um hemograma no qual o colesterol era sucesso de bilheteria. Aí, bastou um empurrãozinho da notícia publicada …

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Crédito: Vincent Tijms/creativecommons.org

Sai dessa agora, velho batuta!

Na única vez em que não consegui evitar ir a um shopping nesta época natalina, me assombrei com uma cena infernal: uma criancinha aos berros no colo de um Papai Noel com cara de bundão. Lembrei-me então de um dos ditados favoritos do meu avô meio índio, meio ET: “Gente ruim pode enganar qualquer um, mas não engana criança nem cachorro.” Resolvi pesquisar. Que a figura mítica do “Pai Natal” (“Noel” é a forma francesa arcaica de “Natal”) teria sido inspirada na persona real de Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia do século 4, que virou santo católico, até a criancinha que chorava no shopping deve ter ouvido falar. Até aí, tudo bem, afinal o cara era realmente bondoso a ponto de presentear a criançada. E para evitar confusão, é bom frisar que Santa Claus, o nome dado na …

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Crédito: Petticoat Brenda/creativescommons.org

O democrático presépio da tia Genoveva

Pra mim, o Natal não tem a importância mística a ele atribuído por muitos, simplesmente porque eu não tenho religião. Mas devo a essa incensada “data magna da cristandade” a primeira e, seguramente, uma das mais impactantes lições de tolerância da minha vida. Lá no sul de Minas, onde nasci, — pensando bem, acho que em todas as regiões do país — as famílias católicas tratavam de iniciar a montagem do presépio com semanas de antecedência ao Natal, aquele lance de ir progredindo a marcha dos reizinhos magos e povoando a manjedoura de bichinhos fofos. Tia Genoveva era professora aposentada, já velhinha, ainda que vistosamente empertigada como uma dama estampada num camafeu. Aristocraticamente culta, era ela que “tomava as lições” da filharada e sobrinhada, com o rigor que merecíamos. Católica fervorosa, das hostes das Filhas de Maria, é lógico que …

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