Carlãozinho Lemes

Crédito: V Dark Day/creativecommons.org

Tiro pela culatra

Dona Ana, de 79 anos, fincou a ponta da bengala no meio fio da calçada e, ao contrário do que seria lógico, esperou o semáforo liberar o fluxo para veículos e atravessou a movimentada avenida, fora da faixa de pedestres e em plena hora do rush, como se nem houvesse tido consciência da imprudência que lhe custou a vida: foi destroçada por uma van do transporte coletivo clandestino. O “suicídio da anciã” ganhou rapidamente as manchetes da mídia, impulsionado pelo conhecimento prévio de que a quase octogenária andava com bengala porque fora justamente atropelada anteriormente, o que deveria ter-lhe “vacinado” contra aquele surto de porralouquice. Segundo namorada e amigos, Zé Luiz, de 37 anos, sempre fora severamente acometido por uma rara combinação de acrofobia e agorafobia. O que não o impediu de, naquela manhã chuvosa, sair do apartamento térreo e …

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Crédito: Thomas Rousing/creativescommons.org

Metamorfose & encontro

Açoitado pelo vento gélido que varria a pracinha, o menino tiritante se encolhia no desconjuntado banco de madeira, naquela noite. Porra: a mãe trabalhara a vida inteira como faxineira da praça pra que ele fosse descartado, tão vulnerável e fodido daquele jeito?! A coitada era tão dedicada que tirava o pó até das folhas das árvores frondosas… Contudo, o que mais incomodava o menino, mais do que o frio, era a impossibilidade de enxergar cores: um inverno preto e branco pode ser muito mais cruel. Do outro lado da pracinha, o flagelo gélido também castigava a menina, que igualmente se encolhia noutro desconjuntado banco de madeira. Porra: o pai trabalhara a vida inteira como jardineiro da praça pra que ela fosse descartada, tão vulnerável e fodida daquele jeito?! Logo aquele velho trabalhador dedicado, que não deixava que qualquer erva daninha …

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Crédito: Alex Guerrero/creativecommons.org

Um churras desastroso

“Tô c’uma fome fedaputa!” O mantra, que já enchia muito o saco dos outros integrantes da expedição, era repetido à exaustão, lógico, pelo cadete Adriângelo 32, o glutão da galera, mas tão glutão, que jamais se convencia dos valores nutricionais da alimentação sintética acondicionada em cápsulas esterilizadas que deveriam garantir o sustento dos expedicionários. “Afinal, são só bagulhinhos sem sabor algum!”, detonava o esfomeado. O comandante Puethgarr 19, mais uma vez, se viu obrigado a remonitorar o quadro. Ok: todos usavam as vestes isolantes (até mesmo o comilão reclamação), então, o risco de contaminação ambiental/histórica do período continuava descartado. Ora, que o bebê guloso continuasse a chorar, foda-se! Afinal, a missão deveria prosseguir sem sobressaltos. Desde que a ciência lhes abriu as portas para o passado,— o futuro ainda era inescrutável, uma sopa quântica de multipossibilidades mutáveis incontrolavelmente — desenvolveram …

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Crédito: Photo Atelier/creativescommons.o

Nunca mexa com a Loira do Banheiro

A maioria dos alunos daquela tradicional escola pública nunca ouvira a tal lenda urbana (a ignorância quase sempre é uma dádiva). E, mesmo os nerds aficionados da série Supernatural preferiam ficar na miúda; afinal, todos ali compartilhavam uma urgência: manter em alta o movimento de ocupação de não menos que 600 estabelecimentos no país contra a medida provisória da reforma do ensino médio e a proposta de emenda constitucional que tenta impor um teto ridículo para os gastos públicos ao longo dos próximos 20 anos. Porém, o problema foi que se acumularam relatos sobre a aparição do fantasma da Loira do Banheiro; tanto nos sanitários para meninos quanto para meninas. Com tal intensidade, que os líderes da ocupação se renderam à necessidade de averiguar o caso: afinal, não podiam se dar ao luxo de deixar que a opinião pública — …

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Crédito: photographymontreal/creativecommons.org

Propaganda enganosa

Valdinho estava irremediavelmente a perigo: depois de arruinar — ou ver arruinados — seus últimos três relacionamentos amorosos, estava… como dizer sem machucar? En-ca-lha-dís-si-mo. De mulher, não granjeava nem bom dia em elevador. Cansado de voltar de mãos — e outros membros — abanando das baladas, lógico que recorreu à santa madre dos desvalidos: a internet. Só que os sites de relacionamento tampouco ajudaram: os poucos encontros às cegas que conseguiu só lhe renderam pretendentes que oscilavam entre dragões mal disfarçados e figuras que nem mulheres eram, de verdade (não que o coitado tivesse preconceito, apenas não era a praia dele). Foi aí que caiu nas sendas da irmã malvada da santa madre dos desvalidos: a deep web, aquela que não é indexada pelos mecanismos de busca padrão e que, reza a lenda, seria até 5 mil vezes maior que …

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Guilherme Jofili/ creativecommons.org

O reino encantado do meu avô

O sítio dos meus avós, porçãozinha de terra pouco agricultável, mas belamente incrustrada entre vales solenes e indiferentes da cadeia de montanhas das Gerais e um céu azul demais, era o destino de minhas férias escolares e das dos numerosos primos da mesma pouca idade. A gente se esbaldava ao ar selvagem e se sujava sem que ninguém enchesse nosso saco inocente. Mas eu demarcava uma diferença em relação à renca de primos: enquanto eles sussurravam pelos cantos que vovô já andava caducando, eu prestava muita atenção nele, a quem achava malucamente fascinante. Certo que o velho não ajudava muito, com as histórias de assombrações… teve até aquela noite que, após contar a lenda do “fantasma da porteira”, cismou de nos pregar uma peça. A história dava conta de um carroceiro que havia sido esmagado contra a porteira de uma …

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Crédito: Kasia/creativecommons.org

Os filhos do mofo

Eu não saberia dizer porque gostava dele, a ponto de arriscar minha vida pra salvar a dele. Apesar da fuga desesperada pelas vielas pútridas da cidade escura, o enigma subia aos ares desesperançados e se condensava feito uma nuvem densa trovejante de não respostas. Aliás, nem saberia dizer porque o trato de “ele”: só uma precária extrapolação com base na avaliação do visual desagradável do corpo desengonçado, tão magro que deixava que algo semelhante a ossos dançasse sinistra e translucidamente sob a pele doentiamente azulada, me animava a pensar que seria masculino. O mais provável é que fosse assexuado ou hermafrodita ou o que quer que fosse. Mais provável, mesmo, dado a forma do seu nascimento, do qual fui testemunha. “Ele” era um legítimo “filho do mofo azul”, aquela estranha manifestação que dera pra infestar cada centímetro quadrado de concreto …

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Crédito: Lord Jim/creativecommons.org

Treta com as minhas rugas

  Tinha acabado a sempre enfadonha tarefa de me barbear pra mais um dia de batente quando, sei lá porque, cedi à compulsão — dispensável havia muito — de encarar mais demoradamente o reflexo da minha fuça no espelho. Confesso que fiquei impressionado pela assinatura intensa das rugas… Sabe o que foi estranho, mesmo? A ruga mais pronunciada sob o olho esquerdo — sou canhoto, a quem possa interessar — começou a tremelicar e, como num desenho animado importado magicamente de O mundo louco de Tex Avery, se transmutou numa boquinha freneticamente tagarela: — Qualé, seis-ponto-zero, vai dar pra nos estranhar agora? Conforme-se, velhote! Assim que me desengasguei de um restinho de espuma pra barbear que havia engolido de puro susto, tratei de conferir as informações no rótulo do tubo: não, até onde iam minhas parcas memórias de química elementar, …

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Crédito: Divulgação/Mascotas Puerto Madero Adopciones Responsables

O amor sempre embarca

Facilita em muito a história em si ser real e ter bombado na internet, replicada por sites noticiosos de responsa: aeromoça alemã e vira-lata argentino desenvolveram um caso de amor e, de tanto o bicho colar o focinho carente na porta envidraçada do aeroporto de Buenos Aires, a garota o adotou e levou pra morar com ela na Alemanha. Agora, vem a parte difícil: cismei de contar a história do ponto de vista do cachorro. Como estou longe de me ombrear com os talentosos Esopo e Walt Disney, peço desculpas antecipadas — principalmente à comunidade canídea — pelas minhas tosquices de sotaque. Isto posto, me arrisco… Hola. Yo era un perro sin dueño de Buenos Aires y ahora me llaman Rubio. Creio que nem preciso salientar o quanto de fome e sede eu sentia todo santo dia. Até que naquele …

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Crédito: Gustavo Montes de Oca/creativecommons.org

Pisem no breque!

A tripulação e a numerosa massa de passageiros estavam eufóricas, justificadamente: afinal, venceram a maior parte dos 1,4 mil anos-luz entre o mundo natal e o planeta alvo. A arca estava em órbita de um planetão gasoso e inóspito no limiar de um sistema solar mais jovem, coisa de 2 bilhões de anos, que o velho sol deles, mas que abrigava aquele mundinho tão adequado que, apesar de ser 40% menor e 5 vezes menos massivo do que o velho lar, é um corpo rochoso, dotado de atmosfera densa, com muita água. E, principalmente, habitado e administrado por uma espécie humanoide e suficientemente inteligente. Tudo favorável ao contato e ao acolhimento. O povaréu da arca até se animou a entoar para os deuses cósmicos uma oração de agradecimento aos cientistas do mundo natal: afinal, a proeza só se concretizara após …

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