Daniela Prandi

“Maraviglioso Boccaccio”, filme livremente baseado em Decamerão pelos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani,  foi exibido no Festival do Rio do ano passado e chega agora ao circuito      Fotos: Divulgação

Maravilhoso (mesmo!) Boccaccio

Cores estonteantes enchem a telona em “Maraviglioso Boccaccio”, filme dos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani que tive o prazer de conferir em sessão para jornalistas. Digo prazer porque o “maravilhoso” do título não é exagero. O filme, que foi exibido no Festival do Rio do ano passado e chega agora ao circuito, é livremente baseado em Decamerão e se equilibra entre a vida e a morte enquanto escancara as belezas da Toscana e, por que não?, da própria Itália e de seu povo. Vale lembrar que Decamerão é uma coleção que reúne cem narrativas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. Os textos são considerados um marco da literatura por seu realismo, numa época em que a religiosidade ditava o encadeamento das palavras. Os irmãos Taviani escolheram cinco histórias para o filme, ambientado na Florença do século 14, quando a peste negra dizimava a população. Com um …

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A policial Laurel Hesten é vivida por Julianne Moore em "Amor por direito", ao lado da jovem atriz Elle Paige que faz Stacie Andree; casal se tornou símbolo da luta pela igualdade de direitos para parceiros do mesmo sexo nos Estados Unidos       Fotos: Divulgação

“Love Story” entre garotas para mudar a história

“Ah, se fosse no meu tempo…” Torci o pescoço para ouvir o restante da frase, já adivinhando, mas, qual não foi a minha surpresa quando a idosa ao meu lado seguiu no caminho oposto: “Se fosse no meu tempo elas iam sofrer muito e talvez essa história não terminasse bem, mesmo que fosse amor verdadeiro”. As garotas na nossa frente, de mãos dadas, exalavam amor adolescente. Nem aí para o resto do mundo, seguiam seu caminho no calçadão de Copacabana. É certo que o amor entre garotas tem povoado o cinema recente, como o energético “Azul é a Cor Mais Quente” e o gélido, porém comovente, “Carol”. Até a novela da Globo já mostrou. Mas uma nova história, que acaba de chegar à telona, carrega as tintas da vida real. E faz pensar, e faz chorar. “Amor por Direito” (“Freeheld”, no título original), com direção de Peter Sollet, …

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A história da mulher que viveu por muitos anos em uma van fedorenta foi levada aos cinemas pelo dramaturgo britânico Allan Bennet (que primeiro a adaptou para o teatro) em parceria com o diretor Nicholas Hytner        Fotos: Divulgação

Quem não tem van vive na areia

As primeiras horas da manhã revelam o que o meio-dia esconde nas areias de Copacabana. Sem guarda-sol, barracas e cadeiras, o cenário reúne dezenas de sem-teto que fazem da praia a sua moradia. Uma senhora, desconfiada, trata de proteger seus pertences enquanto os primeiros caminhantes cruzam o seu “quintal”. Na noite anterior conferi o filme “A Senhora da Van”, e é impossível não fazer associações. No longa, “baseado em fatos mais ou menos reais”, como é informado logo no início, acompanha-se o drama da senhora Sheperd, interpretada com a mesma maestria de sempre pela veterana atriz britânica Maggie Smith. A senhora do título é uma sem-teto, ou melhor, ela tem um teto, uma van, que estaciona em trechos aqui e ali no bairro de Camden Town, na Londres dos anos 1970. Esqueça toda a pompa, a riqueza e o luxo …

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Em “A Ópera do Cemitério”, Juliana Rojas conta a história de um jovem ajudante de coveiro, sensível, que toca piano e tem dó dos mortos   Foto: Divulgação

O estranho mundo de uma cineasta campineira

Por uma dessas coincidências da vida, o primeiro convite para assistir a um filme em sessão para jornalistas no Rio de Janeiro, onde passo uma temporada, foi justamente o de uma diretora campineira. Juliana Rojas, em sua primeira incursão solo depois de co-dirigir o premiado “Trabalhar Cansa” com Marco Dutra, apresenta “Sinfonia da Necrópole”, prêmio da crítica no Festival de Gramado do ano passado, que tem estreia nacional nesta semana (14 de abril). Antes da sessão faço uma pesquisa rápida e o trailer logo chama atenção. Um filme musical sobre coveiros? Pergunto aos amigos, críticos de cinema, suas impressões. “Você tem que ver, vai gostar.” E assim o estranho mundo de Juliana Rojas está na tela. E sim, Marco Dutra, parceiro desde a época da faculdade, continua ao seu lado, assinando as letras da trilha sonora. Juliana Rojas e Marco …

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O documentário “Finding Vivian Maier” (no Brasil, “A Fotografia Oculta de Vivien Maier”) mostra como a babá Vivian Maier atravessou uma existência anônima fotografando anônimos pelas ruas   Fotos: Vivian Maier/Maloof Collection

Por que você está me fotografando?

Todos querem aparecer na foto, principalmente aparecer “bem” na foto. E depois postar. Munidos de seus paus de selfie, posam para si mesmos, sorriem para o infinito, como se não houvesse amanhã. Mas, em uma esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, uma babá de mãos dadas com uma criança, saca o celular e tira fotos dos outros, dos que esperam o sinal abrir. “Por que está me fotografando?”, diz, com cara de poucos amigos, um turista que já abusou do sol causticante do Rio de Janeiro, que ainda não recebeu a chegada do Outono, como bem podemos sentir. O semáforo libera a passagem dos pedestres, interrompe, não há como saber se houve resposta, e todos caminham em direção à praia mais famosa do Brasil. Impossível não lembrar de Vivian Maier, que atravessou uma existência anônima fotografando anônimos pelas ruas, …

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"Sabor da vida", da diretora japonesa Naomi Kawase, destaca três personagens que, cada um ao seu modo, enfrentam a exclusão social   Fotos: Divulgação

O sabor da vida em um doce de feijão

  Elas chegaram em bando, com seus olhos puxados, ocuparam o centro da sala de cinema, abriram suas bolsas e compartilharam dorayakis, doce japonês que tem sabor de infância. “Está servida?” As duas pequenas panquecas recheadas com pasta de feijão estalaram na primeira mordida. Como não me lembrar das festinhas dos amiguinhos da escola? Venho de uma família de imigrantes italianos, mas tive a influência dos japoneses que encontraram sua chance em Osvaldo Cruz, no oeste do interior de São Paulo. E dorayakis eram para dias de festa. Pelo menos para mim, a garota do “cabelo de caracol”, como diziam. No filme que estava para começar, o doce seria o protagonista. Logo as senhorinhas trataram de se recompor, atentas aos avisos antes da sessão. “Sabor da Vida”, da diretora japonesa Naomi Kawase, começa logo com as cerejeiras em flor, símbolo …

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