Daniela Prandi

Jean-Michel Frodon, um dos mais respeitados críticos de cinema da França, abriu nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, a programação do Festival Varilux de Cinema Francês          Foto: Divulgação

Crítico de cinema? Mas isso é uma profissão?

O francês Jean-Michel Frodon conta que, um dia, um taxista lhe perguntou sua profissão. “Sou crítico de cinema”, respondeu. “Mas isso é uma profissão?”, questionou o taxista. Frodon, um dos mais respeitados críticos de cinema da França, abriu nesta sexta-feira (10 de junho), no Rio de Janeiro, a programação do Festival Varilux de Cinema Francês, que terá programação em 50 cidades, com uma master class sobre o seu ofício. Tive o prazer de estar na plateia, junto com alguns dos mais conhecidos críticos do Brasil e entusiastas da sétima arte, e acompanhamos atentamente sua “aula de mestre”. Foi lição em cima de lição. O francês, que foi diretor de redação da revista Cahiers du Cinéma de 2003 a 2009 e é autor de diversos livros sobre cinema, foi inspirador. Lembrou que, a cada semana, quando novos filmes são lançados, são as pessoas que escrevem sobre eles as responsáveis …

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Em seu terceiro longa, Sandra Kogut retrata a aventura de uma mulher da Zona Sul pelo subúrbio carioca da cidade maravilhosa    Fotos: Divulgação

A felicidade mora longe

No Rio de Janeiro toda a gente espera. No caos de uma cidade que se tornou um canteiro de obras, primeiro com a Copa do Mudo, depois com os Jogos Olímpicos, a expectativa de dias melhores move o ir e vir, sempre muito tumultuado, de quem (sobre)vive na cidade dita maravilhosa. A pequena Rayane e seu irmão Ygor esperam a mãe que os deixou em frente a um prédio na endinheirada Zona Sul dizendo que voltaria logo. Nas mãos, a garota aperta um papel, com o endereço de dona Regina. É nesse encontra e se desencontra enquanto se espera que se desenrola “Campo Grande”, terceiro longa de Sandra Kogut. No filme, Ygor e Rayane são interpretados por Ygor Manuel e Rayane do Amaral, crianças que atuam com uma beleza e uma firmeza no olhar que impressionam. Assim como em seu …

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O filme islandês "Desajustados", do diretor Dagur Kári, sobre o quarentão obeso e solitário Fúsi, já ganhou três prêmios no Festival de Tribeca em 2015, por melhor narrativa, roteiro e ator Gunnar Jónsson (foto)    Fotos: Divulgação

A dança dos desajustados

A vida sempre nos apresenta novos caminhos, mas, geralmente, por medo ou preguiça, paramos em algum ponto e não saímos mais dali, metidos na tal da zona de conforto. É o que aconteceu com o grandalhão Fúsi (Gunnar Jónsson), que todos os dias come sucrilhos no café da manhã, vai trabalhar no setor de bagagens do aeroporto, volta para casa, dedica-se ao hobby das miniaturas da Segunda Guerra Mundial, e assim a vida vai passando. Aos 40 e poucos anos, ainda virgem, é tímido, bondoso e carrega em seu corpanzil toda a gentileza do mundo. Fúsi é o protagonista de um belo, singelo e imperdível filme da Islândia que tem feito sucesso no circuito alternativo com o terrível título de “Desajustados”. O título original do filme é justamente Fúsi. Para a questão sobre quem é “ajustado” ou “desajustado” nessa história …

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Em "O Décimo Homem", Ariel (interpretado por Alan Sabbagh) é um economista 
que vive em Nova York e faz uma visita a Once, o bairro argentino. majoritariamente judeu, onde ele cresceu      Fotos: Divulgação

Mais uma aula do bom cinema argentino

Há tempos que cinema argentino é sinônimo de bom cinema. A cada filme que chega às telas, fica cada vez mais evidente a capacidade dos cineastas “hermanos” de enxergar boas histórias no trivial, sem necessidade de firulas, efeitos ou apelação barata. Um dos diretores que ajudou a formar esse selo de qualidade é Daniel Burman, dos belos e tocantes “O Abraço Partido” (2004) e “Dois Irmãos” (2010), entre outros. Conferi seu filme mais recente, que no Brasil leva o nome de “O Décimo Homem”. No original, o título é “El Rey de Once” (sim, é difícil entender o critério que se usa para mudar os títulos dos filmes…). Once é o nome do bairro, majoritariamente judeu, em Buenos Aires, onde o protagonista cresceu. Ariel, interpretado por Alan Sabbagh, que está ótimo no papel, é hoje um economista que vive em Nova York. Com viagem marcada para visitar o …

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"Memórias Secretas” (Remember), o novo longa do diretor egípcio radicado no Canadá Atom Egoyan, é um suspense com final surpreendente e com elenco de primeira, como os veteranos Christopher Plummer (foto) e Martin Landau

O desfecho mais que inesperado de Memórias Secretas

Há tempos que um filme não gerava tantos comentários acalorados na saída da sessão para jornalistas. O desfecho de “Memórias Secretas” (Remember) é tão inesperado que foi preciso alguns minutos para digerir a revelação. O novo longa do diretor egípcio radicado no Canadá Atom Egoyan, do brilhante “O Doce Amanhã”, é um suspense daqueles que te faz remexer na cadeira. Muitas e muitas vezes. O filme tem um elenco de primeira, encabeçado pelos veteranos Martin Landau, de 87 anos, e Christopher Plummer, de 86 anos. Os vovôs, ou quem sabe bisavôs, mostram todo o seu talento no papel de dois sobreviventes de Auschwitz que vivem em um asilo. Na trama, Max (Landau) quer vingança. A vida toda planejou encontrar e matar o assassino de sua família no campo de concentração nazista. Encoraja seu amigo, Zev (Plummer), a ajudá-lo. O primeiro …

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Giancarlo Rosi flagrou a vida como ela é no documentário "Fogo no mar" ao retratar o drama dos refugiados que aportam na pequena ilha siciliana de Lampedusa       Fotos: Divulgação

Um documentário que parece, mas não é

“Fogo no Mar” (Fuoco Mare), que venceu o Festival de Berlim deste ano, é um documentário, mas não parece. Dá a impressão de ficção ao retratar o drama dos refugiados que aportam na pequena ilha siciliana de Lampedusa e alteram a bucólica rotina dos cerca de 6 mil moradores do local. O cineasta italiano Gianfranco Rosi reinventa o gênero. Entre idas e vindas, Rosi viveu quase um ano em Lampedusa. Pelo olhar dos habitantes e pelo olhar dos que fogem da guerra construiu um retrato muito atual dos nossos tempos. Sem roteiro, em uma postura quase invisível, flagrou a vida como ela é. A verdade que o formato documentário exige ganhou poesia, compaixão, solidariedade e um toque de crueldade em um filme repleto de inocência, dedicação, amor… e tristeza. Com a câmera na mão, nas poucas cenas em que realmente …

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“Maraviglioso Boccaccio”, filme livremente baseado em Decamerão pelos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani,  foi exibido no Festival do Rio do ano passado e chega agora ao circuito      Fotos: Divulgação

Maravilhoso (mesmo!) Boccaccio

Cores estonteantes enchem a telona em “Maraviglioso Boccaccio”, filme dos irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani que tive o prazer de conferir em sessão para jornalistas. Digo prazer porque o “maravilhoso” do título não é exagero. O filme, que foi exibido no Festival do Rio do ano passado e chega agora ao circuito, é livremente baseado em Decamerão e se equilibra entre a vida e a morte enquanto escancara as belezas da Toscana e, por que não?, da própria Itália e de seu povo. Vale lembrar que Decamerão é uma coleção que reúne cem narrativas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. Os textos são considerados um marco da literatura por seu realismo, numa época em que a religiosidade ditava o encadeamento das palavras. Os irmãos Taviani escolheram cinco histórias para o filme, ambientado na Florença do século 14, quando a peste negra dizimava a população. Com um …

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A policial Laurel Hesten é vivida por Julianne Moore em "Amor por direito", ao lado da jovem atriz Elle Paige que faz Stacie Andree; casal se tornou símbolo da luta pela igualdade de direitos para parceiros do mesmo sexo nos Estados Unidos       Fotos: Divulgação

“Love Story” entre garotas para mudar a história

“Ah, se fosse no meu tempo…” Torci o pescoço para ouvir o restante da frase, já adivinhando, mas, qual não foi a minha surpresa quando a idosa ao meu lado seguiu no caminho oposto: “Se fosse no meu tempo elas iam sofrer muito e talvez essa história não terminasse bem, mesmo que fosse amor verdadeiro”. As garotas na nossa frente, de mãos dadas, exalavam amor adolescente. Nem aí para o resto do mundo, seguiam seu caminho no calçadão de Copacabana. É certo que o amor entre garotas tem povoado o cinema recente, como o energético “Azul é a Cor Mais Quente” e o gélido, porém comovente, “Carol”. Até a novela da Globo já mostrou. Mas uma nova história, que acaba de chegar à telona, carrega as tintas da vida real. E faz pensar, e faz chorar. “Amor por Direito” (“Freeheld”, no título original), com direção de Peter Sollet, …

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A história da mulher que viveu por muitos anos em uma van fedorenta foi levada aos cinemas pelo dramaturgo britânico Allan Bennet (que primeiro a adaptou para o teatro) em parceria com o diretor Nicholas Hytner        Fotos: Divulgação

Quem não tem van vive na areia

As primeiras horas da manhã revelam o que o meio-dia esconde nas areias de Copacabana. Sem guarda-sol, barracas e cadeiras, o cenário reúne dezenas de sem-teto que fazem da praia a sua moradia. Uma senhora, desconfiada, trata de proteger seus pertences enquanto os primeiros caminhantes cruzam o seu “quintal”. Na noite anterior conferi o filme “A Senhora da Van”, e é impossível não fazer associações. No longa, “baseado em fatos mais ou menos reais”, como é informado logo no início, acompanha-se o drama da senhora Sheperd, interpretada com a mesma maestria de sempre pela veterana atriz britânica Maggie Smith. A senhora do título é uma sem-teto, ou melhor, ela tem um teto, uma van, que estaciona em trechos aqui e ali no bairro de Camden Town, na Londres dos anos 1970. Esqueça toda a pompa, a riqueza e o luxo …

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Em “A Ópera do Cemitério”, Juliana Rojas conta a história de um jovem ajudante de coveiro, sensível, que toca piano e tem dó dos mortos   Foto: Divulgação

O estranho mundo de uma cineasta campineira

Por uma dessas coincidências da vida, o primeiro convite para assistir a um filme em sessão para jornalistas no Rio de Janeiro, onde passo uma temporada, foi justamente o de uma diretora campineira. Juliana Rojas, em sua primeira incursão solo depois de co-dirigir o premiado “Trabalhar Cansa” com Marco Dutra, apresenta “Sinfonia da Necrópole”, prêmio da crítica no Festival de Gramado do ano passado, que tem estreia nacional nesta semana (14 de abril). Antes da sessão faço uma pesquisa rápida e o trailer logo chama atenção. Um filme musical sobre coveiros? Pergunto aos amigos, críticos de cinema, suas impressões. “Você tem que ver, vai gostar.” E assim o estranho mundo de Juliana Rojas está na tela. E sim, Marco Dutra, parceiro desde a época da faculdade, continua ao seu lado, assinando as letras da trilha sonora. Juliana Rojas e Marco …

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