Campus da PUC-Rio, onde aprendi a amar ainda mais a cidade que sofre e continua fascinando (Foto José Pedro Martins)
Campus da PUC-Rio, onde aprendi a amar ainda mais a cidade que sofre e continua fascinando (Foto José Pedro Martins)

A dor do Rio de Janeiro que amamos tanto

Não tive dúvida quando escolhi o local onde gostaria de fazer a Faculdade de Jornalismo. O Rio de Janeiro, claro, a cidade onde muitos brasileiros, pelo menos até a minha geração, gostariam de viver. Para os mineiros como eu, desprovidos de praia, o Rio sempre soou, particularmente, como uma terra de delícias, o endereço do que imaginávamos ser a felicidade. É por tudo isso que eu, como, imagino, a maior parte do país, tem sofrido tanto com a agonia daquela que há muito é saudada como Cidade Maravilhosa e que deveria estar vivendo um apogeu, com a proximidade dos Jogos Olímpicos.

Porque o Rio, no imaginário coletivo, sempre esteve associado justamente a ideias e valores típicos do ideal olímpico, como a celebração da vida ativa, saudável, em um ambiente de exaltação da paz, da comunhão entre os povos. É justamente o oposto do que o Rio de Janeiro tem projetado, com a morte rondando os morros, a areia e o asfalto.

Para quem mora no Rio, o quadro pode não parecer tão crítico como o que é divulgado cotidianamente na mídia. A violência exacerbada provavelmente é mais intensa, presente e letal em certos territórios, onde reina o poder de facções e grupos criminosos armados até os dentes.

Mas é inegável que, por tudo o que temos visto e sabido, o Rio de Janeiro foi maculado, por uma série de fatores, e é esse acúmulo de desmandos, de demonstrações de desprezo pela vida e de injustiças que tem machucado tanto, aos próprios cariocas e a todos brasileiros que amam aquele lugar. Porque o Rio sempre foi um pouco o nosso ideal de país, um território privilegiado pela natureza, de respeito à diversidade étnica e cultural que o Brasil tem. A morada da alegria, do riso, da irreverência, de uma vida vivida em seu sentido mais amplo.

O Rio continua fascinando e fascinante. Ainda é um dos polos culturais mais importantes da América Latina, plataforma de inovação, criatividade e mobilização por causas humanistas. Sim, há certos exageros no culto a conhecidos padrões de beleza e alguns modelos culturais podem ser passíveis de crítica. Mas no todo o Rio continua sendo inspirador, inquietante, e por isso sofremos tanto com o sofrimento de muitos cariocas que não contam com as benesses que a cidade proporciona.

Acabei fazendo apenas o primeiro ano de faculdade no Rio. A vida, ah, a vida, me levou para Piracicaba, e foi para mim o melhor que poderia ter acontecido, pelos momentos que pude viver na UNIMEP e em toda aquela cidade linda.

Mas continuo morrendo um pouco, a cada bala perdida, a cada barbárie que vimos ser praticada no belo e machucado Rio de Janeiro. Que pena a Cidade Maravavilhosa não estar usufruindo como poderia a hora histórica dos Jogos Olímpicos. O Rio sempre surpreende. Tomara que continue nos pegando de jeito, nos mostrando que vale à pena continuar acreditando em dias melhores para a cidade que é um pouco, e talvez muito, o símbolo do Brasil.

Sobre José Pedro Soares Martins

Mineiro nascido com gosto de café e pão de queijo, ama escrever pois lhe encantam os labirintos, os segredos e o fascínio da vida traduzidos em letras.

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