Capa da Folha da Tarde, noticiando a renúncia de Jânio Quadros
Capa da Folha da Tarde, noticiando a renúncia de Jânio Quadros

Jânio Quadros e o teatro da política, ontem e hoje

Eu ainda era foquinha, estudando à noite na UNIMEP e trabalhando à tarde no jornal “O Diário”, do Cecílio Elias Netto, quando tive a oportunidade de entrevistar o sr.Jânio Quadros, cujo centenário de nascimento acaba de ser lembrado. O Cecílio me chamou e desci da redação no segundo andar para sua sala no térreo e tive a surpresa de encontrar o folclórico ex-presidente. Eu era ainda mais ingênuo do que sou mas mesmo assim pude em poucos minutos perceber o quanto de teatral tinha aquele homem, que inaugurou um padrão seguido até hoje pela classe política. Discurso empolado e gestos dramáticos, muito bem captados pelas lentes do intrépido Marcos Muzi.

Foi uma longa conversa. Falou-se de tudo. Jânio estava voltando à cena depois de anos em Londres. Em 1985, para espanto de muitos, foi novamente eleito para a Prefeitura de São Paulo, cargo que já havia ocupado entre 1953 e 55.  Depois, a rápida ascensão até a presidência, que ocupou entre 31 de janeiro e 25 de agosto de 1961. E aí a famosa renúncia, alegando o poder das “forças ocultas”.

O Brasil mergulhou em uma crise política que dura até hoje, porque o governo de João Goulart foi turbulento e cassado e aí veio a ditadura e a abertura “negociada”. Quatro presidentes foram eleitos diretamente depois disso e dois não concluíram mandatos, por razões diversas. O Brasil continua refém de esquemas de poder e corrupção nada ocultos.

A propaganda icônica de Jânio: algo mudou?
A propaganda icônica de Jânio: algo mudou?

Mas o que permaneceu em todo esse tempo é o paradigma da política teatralizada que, se não foi inaugurada por Jânio Quadros, certamente foi por ele bem refinada. A lendária vassoura, com a qual ele pretendia “varrer a corrupção do país”, é o ícone melodramático dessa tragicomédia brasileira.

Nos tempos recentes, os grandes comícios dos tempos de Jânio deram lugar à televisão e ao marketing desenfreado, que no fundo propagam a mesma coisa, a aparência, o espetáculo, o discurso aparentemente “bonito” para esconder a superficialidade visceral de propostas e ideias. A demagogia como método, a enrolação como ferramenta de persuasão. A tergiversação como parâmetro de convencimento.

Deu no que deu. Estamos mergulhados em um poço sem fundo, em grande parte devido ao divórcio, cada vez mais litigioso, entre o que a sociedade deseja e vive e o que o sistema político interpreta. A tal reforma política é mais do que urgente e, todos sabemos, ela não virá como o ideal. Jânio Quadros antecipou tudo isso. Continuamos assistindo, estupefatos, à mímica e aos contorcionismos dos políticos, que nada têm com o Brasil real, de carne, osso e alma.

A entrevista foi ótima. Mas acabou abruptamente, quando lhe perguntei se condecoraria de novo ao Che Guevara. Ele ficou muito bravo e não quis mais falar depois de responder: “Ele era um grande idealista, merece todo o respeito”. Com isso eu concordo com o ex-presidente.

Sobre José Pedro Soares Martins

Mineiro nascido com gosto de café e pão de queijo, ama escrever pois lhe encantam os labirintos, os segredos e o fascínio da vida traduzidos em letras.

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