A seca que devasta o Nordeste há seis anos não aparece na programação oficial do Fórum em Campinas (Foto Adriano Rosa)
A seca que devasta o Nordeste há seis anos não aparece na programação oficial do Fórum em Campinas (Foto Adriano Rosa)

Fórum em Campinas marginaliza maiores desafios ambientais no Brasil e agenda planetária

Entre 10 e 12 de julho Campinas sedia o Fórum Brasil de Gestão Ambiental, que vem sendo apresentado pela Prefeitura Municipal como “o maior evento ambiental do pais em 2017”. A realização é da Frente Nacional de Prefeitos, presidida pelo prefeito Jonas Donizette, e pela ANAMMA, presidida pelo secretário municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Rogério Menezes. A programação oficial, divulgada no site do evento e que reúne atividades muito interessantes, com a participação de profissionais e organizações sérias, mostra entretanto que alguns dos maiores desafios ambientais em curso no Brasil serão marginalizados, como o uso intensivo de agrotóxicos, o avanço dos organismos geneticamente modificados (OGMs), a escalada da devastação na Amazônia e a seca que devasta o Nordeste há seis anos. A principal agenda ambiental planetária, dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também vai merecer uma abordagem apenas marginal no enorme conjunto de atividades previstas no Fórum, a ser realizado no Expo D.Pedro.

A abertura do Fórum, no dia 10 de julho, pela manhã, contará com a presença prevista do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho. Será ótima oportunidade para ele explicar ao país o vexame visto na recente visita do presidente Michel Temer à Noruega. Geralmente estes encontros de alto nível são marcados por notícias positivas. Desta vez o presidente brasileiro inovou e voltou ao Palácio do Alvorada sem uma parte considerável dos recursos que a Noruega tem investido para a proteção da Amazônia.

De fato são muitas atividades no Fórum, o que significa uma pulverização de focos e o risco de que pouca coisa concreta saia da importante reunião de prefeitos, prefeitas, representantes de ONGs e instituições ambientais oficiais ou não.  Seria uma ótima oportunidade, por exemplo, para um posicionamento contundente dos municípios brasileiros, diante da marginalização das questões ambientais nos orçamentos locais. Os orçamentos das secretarias municipais do Meio Ambiente e afins são geralmente limitadíssimos frente aos desafios ambientais locais. E não é raro que as boas intenções das secretarias sejam sabotadas, pelas ações nada sustentáveis de outros setores dos governos municipais. Falta uma visão transversal da questão ambiental nos governos locais. Esse é o grande desafio.

Sem essa prioridade para as questões ambientais nos municípios, será muito difícil a municipalização dos ODS, tema da única atividade prevista na programação do Fórum de Campinas sobre a principal agenda planetária do momento. Será uma atividade ligada ao chamado Programa Cidades Sustentáveis e aparece como a penúltima ação dentro da vasta programação que consta no site http://www.fbga.com.br/programacao/  Este fato parece indicar a prioridade com que a Agenda ODS 2030 foi tratada no momento da elaboração da programação.

No mais, a programação de fato deixa de fora alguns dos fatos mais inquietantes no momento, dentro da agenda ambiental brasileira e internacional. A ofensiva contra as terras indígenas, a ameaça de redução drástica das Unidades de Conservação na Amazônia, os riscos cada vez maiores das lideranças ambientais – o Brasil tem sido considerado o mais perigoso para as lideranças ambientalistas no planeta.

Tomara que saiam definições mais concretas desse Fórum Brasil de Gestão Ambiental, sobretudo no âmbito das atividades envolvendo gestores municipais. O dramático momento brasileiro e global exige. A cidadania já está cheia de belos discursos e reuniões intermináveis.  A presença de importantes ONGs e instituições sérias pode garantir que saiam estratégias e ações em consonância com o gravíssimo estado ambiental global e nacional.

Sobre José Pedro Soares Martins

Mineiro nascido com gosto de café e pão de queijo, ama escrever pois lhe encantam os labirintos, os segredos e o fascínio da vida traduzidos em letras.

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