Paisagem de Minas Gerais: pôr do sol             Foto: João Vilar
Paisagem de Minas Gerais: pôr do sol Foto: João Vilar

O novo sempre vem

151211_107_Adriana_corte_512A música do cearense Belchior ‘Como os nossos pais’, composta na década de 1970, ficou eternizada na voz de Elis Regina. Quem não conhece? Dificilmente alguém com mais de 40 anos no Brasil nunca ouviu ou cantou esta música sem achar que a compôs, tamanha a identificação. Eu não me canso de ouvi-la. E na última vez que escutei (sempre cantarolando junto, de preferência na cozinha), me detive na seguinte estrofe:

Mas é você que ama o passado e que não vê

É você que ama o passado e que não vê

Que o novo sempre vem…

A letra inteira é bem melancólica – e poética -, mas esta estrofe, em particular, parece mais carregada de tristeza, porque ela descreve o lado sombrio do ‘envelhecer’: de frente para o passado e de costas para o futuro, o novo.

Pois esta estrofe ficou na minha cabeça por dias. Demorei um pouco para descobrir o motivo desta melancolia dos versos terem grudado na minha mente. Era o fim dos jornais impressos, o fim de uma geração de jornalistas, o fim de uma escola de jornalismo, que me entristecia. E eu olhando para esse passado, me deixando ‘envelhecer’.

Capa da última edição impressa do Jornal da Unicamp, que a partir de agosto será publicado exclusivamente no formato digital (http://www.unicamp.br/unicamp/ju/662/jornal-da-unicamp-edicao-662)
Capa da última edição impressa do Jornal da Unicamp, que a partir de agosto será publicado exclusivamente no formato digital (http://www.unicamp.br/unicamp/ju/662/jornal-da-unicamp-edicao-662)

O que me levou a esta associação – entre a música e o jornalismo – foi a publicação da última edição impressa do Jornal da Unicamp, que a partir de agosto será publicado exclusivamente na versão digital. Não sou funcionária da universidade nem escrevo regularmente na publicação, mas tive o prazer de participar desta última edição impressa histórica com uma reportagem coletiva sobre o desastre ambiental, social, político e econômico de Mariana (MG) com o rompimento da barragem da Samarco (para ler, aqui está o link: unicamp.br/unicamp/ju/662/jornal-da-unicamp-edicao-662). Fiquei feliz pela participação, mas também melancólica pelo fim do papel. Tento não ser dramática, mas ver os jornais acabando me deixa triste. É um ciclo que se fecha.

Redação do Diário do Povo na década de 1990
Redação do Diário do Povo na década de 1990

Tudo isso me fez lembrar do campineiro Diário do Povo, que em 2012 deixou de circular. Foi lá meu primeiro emprego, o meu primeiro jornal. Foi uma comoção entre os colegas que já haviam passado por aquela redação nos últimos 30 ou 20 anos, uma das mais gostosas de se trabalhar (opinião quase unânime). Houve muitas despedidas na cidade naquele ano e vários encontros. Até hoje quando se fala no Diário do Povo todos ficam saudosos do bom jornalismo que se fazia, do atrevimento, da competitividade, dos bons textos, do tempo para a reportagem, da molecagem, da discussão, da fumaça na redação, da insalubridade poética, mas do ambiente sadio.

Mesmo eu, com meu jornalismo que chamo de cambaleante, de circular entre redação e assessoria, de pausar para a família, de cair e levantar (como aliás é característica do ofício), pude viver esta fase do Diário do Povo como revisora, repórter e depois editora assistente, para depois sair para o Correio Popular, que anos depois comprou o Diário e deu origem à Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), com os dois jornais (novas lembranças, mais saudade!).

Redação do Correio Popular/Diário do Povo (RAC) em 2006
Redação do Correio Popular/Diário do Povo (RAC) em 2006

Todas estas lembranças se juntaram a outro fim de publicação impressa, neste caso, definitiva: a revista Renoguia, publicação gratuita que era distribuída nos pedágios da concessionária Renovias, da qual fiz parte da idealização e produção em 2000.

Naquele ano, quando cheguei à concessionária, o Renoguia estava no número 3, totalmente feito em São Paulo. Eu era recém-contratada como assessora de imprensa quando fui consultada sobre o produto. Já de cara falei que não fazia sentido uma revista que circulava nas estradas que ligam Campinas ao Sul de Minas ser produzida por uma equipe paulistana, quando a sede da empresa, inclusive, era em Mogi Mirim.

Lancei o desafio: vamos fazer aqui, na Comunicação, com um novo projeto gráfico e nova linha editorial. Toparam (porque os custos caíam drasticamente). E ainda me permitiram aumentar a equipe. Pude convidar para as reportagens e a assessoria a jornalista Glauce Fleury (que depois assumiu por mais de dez anos a publicação e a assessoria) – hoje minha amiga-irmã, com brilhante trajetória profissional no Canadá, onde estudou e ainda trabalha. A publicidade da revista – eficiente desde o início – foi estruturada e ficou sob a responsabilidade da publicitária Lilian Kimura Azevedo – mais uma amiga-irmã que ganhei, que também escapou para o Canadá. Tínhamos ainda a secretária ideal, que fazia parte da produção, Adriana Burin – a querida paulistana perfeccionista.

Edições da revista Renoguia, projeto editorial sustentável que durou 15 anos, produzido e distribuído gratuitamente pela Renovias em seus pedágios com tiragem de 100 mil exemplares
Edições da revista Renoguia, projeto editorial sustentável que durou 15 anos, produzido e distribuído gratuitamente pela Renovias em seus pedágios com tiragem de 100 mil exemplares

Antes de tudo isso, um novo projeto gráfico foi criado por Fabiana Pacola Ius (que ficou desde aquele começo reformulado até a última edição). Para mim, foram dois anos como editora e jornalista responsável, além de repórter de apoio. Um trabalho em grupo maravilhoso. Tornamos a revista sustentável e ‘copiável’. Depois o Renoguia sobreviveu por 15 anos, com suas próprias pernas, divulgando o turismo regional e conquistando leitores assíduos. Por tudo isso, como não ficar melancólica com o fim da revista com tiragem de 100 mil exemplares?

Em 2012, portanto, eu me entristeci quando o Diário do Povo deixou de circular na versão impressa. Depois, em 2015, fiquei triste pelo fim do Renoguia, a revista feita para caber no porta-luvas do carro, um grande ‘case’. Agora, assim como eu sinto pelo Diário do Povo e o Renoguia, eu também sinto pelo fim do formato em papel do Jornal da Unicamp, que em 1986 teve sua criação liderada pelo amigo querido e saudoso Eustáquio Gomes, o amável Tatá, jornalista, escritor e assessor, pessoa rara e preciosa, falecido em 2014 (foi pra mim, além de tudo, um conselheiro e autor da orelha do meu livro – perda inestimável).

Nos últimos 14 anos, o JU está sob a responsabilidade do grande Álvaro Kassab, mais conhecido por Russo, tão querido e competente (e amável) quanto o Tatá. Sob a batuta do Russo também estará a nova fase do jornal a partir de 1º de agosto, agora somente na versão on-line. A ideia é unir novas plataformas e linguagens, dinamizar a comunicação, aderir às mudanças e tendências que acontecem aqui, no Brasil e no mundo.

A estratégia é encarar o novo, porque o novo sempre vem.

Foi o novo que nos impulsionou na Agência Social de Notícias, por exemplo, na busca de novas linguagens, novas abordagens, um novo jornalismo.  O novo está em jovens veículos de comunicação, nos coletivos, no compartilhamento, na redemocratização da informação.

Amamos o passado, mas não queremos deixar de ver o futuro, para não ‘envelhecer’. O jornalismo que só olha para o passado é um jornalismo que envelhece. Amamos o passado que se encontra com o futuro, que dialoga com o novo e faz a revolução acontecer.

Novas economias estão por vir, porque o novo sempre vem. Isso é tão certo quanto o pôr do sol de todos os dias.

About Adriana Menezes

Pernambucana de nascimento e cidadã brasileira por convicção. Amante das artes, da língua, da comunicação e da vida em movimento. Mãe, mulher e jornalista em tempo integral. Nas horas de folga, põe os filhos no colo, passa batom e consome (ou produz) informação.

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13 Comentários

  1. delma medeiros

    lindo texto Dri, triste…da ultima foto do povo da RAC, acho que nem um terço continua, mas a amizade se mantém, felizmente. bjs

    • Deliminha, obrigada, lindona. Também me dá tristeza (e saudade) de não estar mais com toda essa turma boa, todo mundo! Mas a amizade, realmente, perpetua. Isso é bom demais!! Beijo, querida.

  2. Adriana Giachini

    Lindo texto… eu ainda sonho com o tempo da redação… sonho com as reportagens, com os colegas. Tem dias que a saudade é gigante, não cabe no peito, mas “vida que segue”. Novos desafios nos fazem crescem, bom que a amizade permanece, o carinho permanece… agradeço por cada colega com o qual convivi em meus quase 15 anos de RAC!

  3. É realmente difícil não se sentir melancólica… mas, o futuro sempre vem e é agora. Não devemos nos esquecer disso.
    Beijos!!!!

  4. Parabéns pelo texto Adriana. O pior é que os últimos jornais impressos tem prazo de validade para acabar, 2020. Será?

    • Bassan-san, querido, também acho difícil me desprender do papel (do tato, de ver e pegar na mão antes de ler), mas nunca mais será como foi ‘no nosso tempo’ hahahaha Obrigada por passar aqui. Beijo

  5. Luciana Santos

    Que belo texto Dri!!! O novo sempre vem, mas a história permanece.
    Orgulho de ter feito parte desse timaço.

  6. Lindo texto Dri, Me levou às lágrimas e a ter mais saudade ainda de um tempo inesquecível e que deixou marcas na minha carreira e minha vida pessoal. Bjs

    • Eliane, ainda hoje, só de lembrar, a redação ainda nos emociona, como já emocionava antes, não é? Uma delícia! Marcas que vamos levar pra sempre (para algum lugar e para alguma coisa… kkkkkk) Beijo, querida. Obrigada

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