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Por uma vida sem agrotóxicos

151211_107_Adriana_corte_512O que deveria ser muito simples – optar por uma alimentação menos intoxicante – tem se tornado uma batalha. A situação é quase impositiva: você só consegue comer sem riscos se adotar uma bandeira ou um novo estilo de vida muito diferente do padrão. Essa condição é inquietante. Será que não se pode comer menos agrotóxicos sem precisar mudar para o campo, produzir o próprio alimento e viver uma vida completamente alternativa? É querer demais continuar na cidade e consumir somente aquilo que não foi feito em grande escala e com muito herbicida?

Para não ingerir uma colher de sopa de veneno por dia somos obrigados a travar uma luta muito árdua.

Sim, esta é a porção equivalente para cada cidadão brasileiro de acordo com dados de 2015 do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Somos o segundo maior consumidor de agrotóxicos do mundo e absorvemos, no Brasil, a média de 5 litros de agrotóxicos por pessoa ao ano. Se dividirmos pelo total de dias no ano, cada um ingere a porção de 13 ml/dia (uma colher de sopa equivale a 15 ml).

Mas a escolha por uma alimentação saudável não é fácil. Nada contribui para facilitar a vida de quem quer evitar agrotóxicos – complica mais um pouco ampliando as restrições para açúcar branco, gordura animal e lactose. Procurar os produtos certos exige mais tempo, mais dinheiro, mais disposição e muita dedicação. É como remar contra a maré. Você se sente um cidadão deslocado que briga contra um poderoso sistema de produção agrícola e de comercialização, que não abre espaço para outras formas de produção e distribuição – em outras palavras, os grandes grupos massacram os pequenos produtores; e nós, na ponta, nos privamos de opções de vida saudável.

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Optei pela alimentação mais natural, integral, orgânica e sem lactose na década de 90, em minha primeira gravidez. Motivada pela garantia de uma boa gestação e o melhor para a formação do bebê, segui à risca as orientações de uma nutricionista. Tudo dava mais trabalho, mas respeitei todas as orientações durante a gravidez e a amamentação. Senti o equilíbrio do meu corpo, tive uma gestação perfeita, valeu a pena, e tudo deu mais que certo. Nunca havia me sentido tão plena – pela saúde e pelo momento incrível, é claro.

Durante a amamentação, fiz o mesmo. Café só descafeinado; cerveja, apenas sem álcool – entre outros sacrifícios. Se não tivesse tanta motivação e priorização, teria desistido, porque não encontrava os produtos em qualquer lugar, gastava mais do que pretendia e precisava abrir mão de coisas deliciosas com açúcar e leite. Isso porque apenas tentei excluir produtos químicos em excesso nos alimentos, não cheguei a me tornar vegetariana ou vegana. Por estas e outras admiro quem decide cortar alimentos de origem animal.

Adotei o mesmo cuidado na alimentação da minha filha quando ela nasceu. Mas fui relaxando aos poucos, eu confesso. Simplesmente me cansei, me envolvi com mais trabalho, me surpreendi com a pesada rotina de uma mãe, e afrouxei na alimentação natural. Então veio a segunda gravidez. Fiz tudo igual à primeira, pelas mesmas motivações, com a mesma alegria, até com mais segurança que antes, porque sabia que daria certo. E deu! Tudo foi perfeito, mais uma vez. Além do equilíbrio e bem estar de mãe e bebê (eu e meu filho), ainda tive a grande felicidade de engordar apenas nove e oito quilos, respectivamente, nas duas gestações. Minhas experiências com o alimento orgânico, integral e sem lactose, portanto, foram ótimas.

Com o meu casal de bebês, lindos e saudáveis, voltei a adotar a alimentação mais natural em casa. Retomei os hábitos que eu havia abandonado. Passando o tempo, e com o trabalho dobrado de duas crianças, mais uma vez relaxei. Também pelas mesmas razões: dificuldade de encontrar os produtos e alto custo.

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Lembro do quão difícil era preparar o lanche da escola. Sempre um drama. Praticamente não havia opções práticas sem muito açúcar, sódio e químicas. As opções de comida japonesa me salvavam. Eu enviava suco natural, que eu mesma fazia, quase todos os dias. Certa vez, no supermercado, fiquei chocada ao ver meus dois filhos pedindo (ou melhor, implorando) para eu comprar inúmeros produtos que eles viam seus colegas levarem para o lanche e morriam de vontade de experimentar, como bolachas recheadas, achocolatados, minibolinhos e flãs diversos. Um arsenal de veneninhos. Fiquei deprimida. Vi que o que meu esforço tinha pouco efeito diante das inúmeras tentações que eles tinham fora de casa. Resolvi, mais uma vez, relaxar. Fiquei menos radical. Temi um efeito contrário neles.

Agora, com meus filhos adolescentes, volto a focar nos orgânicos, integrais e naturais, reduzindo lactose e açúcares, desta vez motivada por casos de câncer e diabetes na família. O raciocínio é muito simples e básico: se a dieta ideal para prevenção de câncer exclui leite de vaca, açúcar branco, farinha branca, gordura animal e outros, e inclui integrais e naturais – muito semelhante à dieta ideal para a gravidez – fica muito evidente que esta deve ser a alimentação para uma vida saudável.

Nesta retomada, descubro, quase vinte anos depois da minha primeira investida, que pouca coisa mudou com relação à disponibilidade e aos preços dos alimentos mais saudáveis e menos industriais. É verdade que muitos supermercados têm hoje algumas prateleiras de orgânicos e naturais; vendem leite de arroz, amêndoa, soja ou sem lactose; têm óleo de coco, açúcar de coco, entre outros produtos, mas eles continuam com preços mais altos e em menor quantidade. Hoje também existem mais casas especializadas, no entanto, a questão do preço persiste. Para quem mora em Campinas, ir até São Paulo, em grandes mercados especializados, pode ser a solução mais viável. O que, convenhamos, não é nada prático – e precisa contabilizar o custo da viagem.

Não precisa entender muito de economia e sistema produtivo para entender por que estes produtos são mais caros. Se produzem em menor escala (exatamente porque não utilizam veneno) e vendem em menor quantidade, têm um custo mais alto que os grandes produtores que aumentam suas produções graças aos produtos químicos, feitos para matar pragas e para fazer tudo crescer e se multiplicar. Pagamos mais barato por este produto enquanto engolimos ‘a porção mágica e fatal’ que eles utilizam para promover o milagre da multiplicação. Os lucros e vantagens, portanto, são somente para eles.

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A única maneira que vejo de mudar esta cadeia é a mudança nos hábitos de consumo. Ou seja, se aumentar a demanda por alimentos naturais e orgânicos e, paralelamente, crescer a rejeição aos químicos, naturalmente o custo dos produtos orgânicos cai, sem dizer do aumento de ofertas e opções que podem surgir. E, para chegar a isso, é preciso apelar à consciência e à informação. A política agrícola, é claro, também precisa favorecer. O incentivo à agricultura familiar é uma boa forma. Nos últimos anos ela cresceu, mas já começa a perder espaço graças às mudanças aprovadas no Congresso (por pressão dos grandes produtores e apoio do governo interino, o mesmo do golpe).

Essa ditadura alimentar, portanto, nos impõe uma dieta nada saudável. Cabe a cada um de nós um esforço redobrado para conseguir evitar a ingestão de veneno. Ainda assim e apesar de tudo, eu acredito que este esforço vale a pena. Sinto, literalmente, no sangue os bons resultados. E continuo torcendo por uma democracia na produção e no consumo de produtos naturais e saudáveis. Se formos em maior número, certamente tudo vai mudar.

 

About Adriana Menezes

Pernambucana de nascimento e cidadã brasileira por convicção. Amante das artes, da língua, da comunicação e da vida em movimento. Mãe, mulher e jornalista em tempo integral. Nas horas de folga, põe os filhos no colo, passa batom e consome (ou produz) informação.

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2 Comentários

  1. Kátia Valéria W B Sentinaro

    Adriana, muito bom seu artigo sobre uma vida sem agrotóxicos. Procuro comprar produtos assim e é difícil mesmo. Os preços são mais altos e precisamos confiar nas informações dos produtores. Também estou com casos de pessoas muito próximas com câncer e creio que tem tudo a ver com os venenos que consumismo diariamente. É necessário mudarmos os hábitos por uma vida mais saudável. Parabéns!

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