"Mulher com flor", Pablo Picasso, 1932, óleo sobre tela
"Mulher com flor", Pablo Picasso, 1932, óleo sobre tela

A todas as mães-poesia que vivem entre isto e aquilo

151211_107_Adriana_corte_512É verdade que quando Cecília Meireles escreveu o poema ‘Ou isto ou aquilo’, em 1964, pensava no universo infantil, no drama diário das crianças de terem de escolher entre brincar e estudar, correr ou ficar tranquilo. Mas quando lembro dos versos, o que me vem à mente é a vida de escolhas de uma mãe.

“É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

(…) Ou isto ou aquilo; ou isto ou aquilo

E vivo escolhendo o dia inteiro”

Que vontade de estar com um filho e outro ao mesmo tempo, de poder estar lá e cá, de trabalhar e de ficar, de se descolar e de grudar, ‘e vivo escolhendo o dia inteiro’.

Mainha
Decelis Lemos Vilar, minha mãe, que chamo de Mainha

No dia em que me tornei mãe, comecei a entender todas as dúvidas da minha mãe. Foi só então que percebi que, além de aprender a tomar decisões sobre mim mesma, eu também passaria a tomar decisões por outras vidas que eu amava tanto (ou até mais) quanto a mim. E, mais adiante, ainda deveria ensinar a fazer escolhas.

E como é que eu podia ter cobrado por certezas? Agora sim eu entendia as incertezas. Cada dúvida, cada escolha entre isto ou aquilo, é a vontade de não errar, de acertar, de fazer o melhor.

E é assim que são as mães. Tentam ser divinas, onipresentes. Mas são humanas, sempre a escolher, porque a vida é feita de escolhas.

Cecília Meireles transformou as escolhas em poesias, grandes ou pequenas são sempre escolhas. Pode ser o brinquedo, pode ser o novo projeto de vida, ou uma nova casa.

A carioca órfã – que perdeu a mãe com dois anos e o pai antes mesmo de nascer – teve de fazer escolhas desde a infância. Teve a sorte de crescer com a avó, mas não pode crescer com a mãe. E dela fez poesia.

Ser mãe é virar poesia. Não há maternidade sem poesia.

Há poesia na comida que se prepara, no beijo e no abraço, no olhar, na impaciência, no choro, no sorriso, na preocupação.

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Até na guerra há poesia. No filme “Mil vezes boa noite” (2013), com Juliette Binoche, é difícil não sofrer com a dor daquela mãe que ama a fotografia de guerra, mas ama também suas filhas. Duas opções que ela não consegue conciliar. E a sociedade é cruel com ela, os padrões que lhe cobram são pesados. Em lugar de apoio, ela tem cobrança.

Juliette Binoche no filme "Mil vezes boa noite"
Juliette Binoche no filme “Mil vezes boa noite”

Não é preciso ir à guerra, como no filme, para sofrer estas mesmas dores. As mulheres mães de hoje as sofrem diariamente.

Estamos todas nós, mães, sempre a perguntar: isto ou aquilo?

Ora, mas os homens também não fazem escolhas?

Todos fazem, mas quando a mãe escolhe sobre o filho é sempre uma escolha de amor. É como se não fosse ela a escolher.

E hoje eu aproveito o Blog para falar desta poesia que me dá o Norte: a mãe-poesia. O amor de mãe que me fez ser e o amor de mãe que me faz ser.

Apenas um texto, algumas palavras, uma homenagem de amor a todas as mães-poesia e à minha mãe, Mainha, Dona Decelis, que é pura poesia.

Mainha e eu
Mainha e eu

About Adriana Menezes

Pernambucana de nascimento e cidadã brasileira por convicção. Amante das artes, da língua, da comunicação e da vida em movimento. Mãe, mulher e jornalista em tempo integral. Nas horas de folga, põe os filhos no colo, passa batom e consome (ou produz) informação.

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