'La Cocina', performance da artista sérvia Marina Abramovic em homenagem a Santa Teresa de Ávila e suas experiências de êxtase e levitação Crédito: TIC y Museos Performance Art
'La Cocina', performance da artista sérvia Marina Abramovic em homenagem a Santa Teresa de Ávila e suas experiências de êxtase e levitação Crédito: TIC y Museos Performance Art

O machismo na rotina do lar, na posse da bela e no recato por imposição

151211_107_Adriana_corte_512Ainda existem belas, recatadas e do lar porque no mundo há homens que não lavam sua própria xícara de café.  O contraponto a este modelo de mulher, publicado por uma revista semanal na última semana como um exemplo da boa e confiável esposa, não são as mulheres risonhas e desinibidas ou trabalhadoras independentes (que invadiram as redes sociais de forma bem-humorada e divertida); o contraponto são homens que dividem o trabalho da casa com a mulher e que têm prazer em ver a parceira realizar-se pessoalmente no trabalho e com autonomia financeira; homens que não se prendem a padrões de beleza, que não tiram a liberdade de expressão e opinião da mulher nem reprimem a sua sexualidade. Quando todos os homens forem assim, não haverá mais ‘marcelas’ a se submeterem à condição de bibelô.

A relação deste modelo de mulher com o mundo machista, moralista e de herança escravagista é mais estreita do que se imagina. Pode não ser explícita, mas está intimamente relacionada.  Especialmente no Brasil, há uma forte ligação entre o machismo, a exploração do trabalho, a ditadura da estética feminina, a mulher objeto e o moralismo.

O homem que não contribui com as atividades de uma casa – roupa, comida, limpeza, louça e, em caso de filhos, todas as providências obrigatórias relacionadas à saúde, educação, esporte e lazer – pressupõe que estas são tarefas exclusivamente da mulher, cabendo a ele tão somente a função do trabalho e das burocracias e finanças. Se assim se comportam, estão impedindo que a mulher tenha sua realização profissional e independência financeira, ou que tenham a possibilidade de escolha.

Este mesmo homem que não sabe o que é lavar uma louça e prefere sua mulher em casa sem trabalho, ou às vezes aceita a mulher trabalhando mas terceiriza todas as atividades da casa (em vez de contribuir e participar dos cuidados do lar), também espera que sua esposa esteja linda e cheirosa sempre que ele assim a desejar. Esperam, portanto, que ela seja bela – está implícito aqui, quase sempre o ‘jovem’, como no caso exemplificado pela revista da ‘bela, recatada e do lar’.

Em ambientes sociais, de preferência, este homem espera que a mulher tenha o padrão de beleza que lhe atribua sucesso, poder e virilidade pela conquista. Nestes mesmos momentos, não é elegante que ela seja muito falante, nem extravagante, menos ainda sensual. Ele quer, portanto, uma mulher recatada e discreta, ou seja, sem opinião e sem expressão. Caso ela trabalhe, que mantenha os demais atributos e administre o trabalho dos terceiros em casa, de forma que ele não seja incomodado por este tipo de problema doméstico, como o detergente que acabou, ou a roupa de cama que manchou, porque isso, em sua concepção machista, não é trabalho para homem. Lavar uma louça? Pra quê, se ele paga uma empregada ou a mulher, que ficou o dia inteiro em casa, pode lavar?

Os artistas Marina Abramovic em performance com Ulay, que foi seu parceiro na década de 70 durante cinco anos, com quem viveu por um período dentro de um furgão
Marina Abramovic com Ulay, seu parceiro na década de 70 com quem viveu dentro de um furgão

 

O moralismo, nesse quebra-cabeça, é peça fundamental. É importante que as boas esposas sejam recatadas porque do contrário serão interpretadas como ‘vadias’ e ‘infiéis’ e, se eles desconfiarem disso, certamente se sentirão no direito de puni-las, porque se sentem donos de suas mulheres. E como donos não querem correr o risco de ‘perdê-las’ para outros homens. Querem, de preferência, que elas tenham poucos relacionamentos que não sejam intermediados por ele ou que não sejam de seu conhecimento.

Sim, há machistas cujas mulheres trabalham. Normalmente, o casal, neste caso, terceiriza o serviço da casa ou as responsabilidades relacionadas aos filhos. As domésticas brasileiras, portanto, exercem o mesmo papel das escravas amas de leite do passado, que desfrutavam da intimidade da Casa Grande e serviam seus donos – hoje, já não são mais escravas, mas servem seus patrões por salários exploratórios, muitas vezes sem seus direitos trabalhistas respeitados.

Mas não são os homens os únicos a perpetuar neste início do século 21 o modelo machista da mulher recatada e do lar. Não são apenas homens que preservam este sistema de valores e relações. Há mulheres que procuram maridos que paguem suas contas. Ainda se ouve entre conversas casuais do desejo de encontrar um homem rico ou ainda há mães que estimulam filhas a encontrarem maridos que possam bancar suas contas nos cabeleireiros. Neste caso, são mulheres que querem ser belas, nem sempre recatadas (apenas parecer que são) e às vezes do lar ou profissionais. O que elas mantêm são os valores e as relações que sustentam o sistema que aplaude a ‘bela, recatada e do lar’, tudo por um padrão que elas esperam ter mantidos pelos maridos, para os quais elas dão em troca a liberdade, a opinião, a responsabilidade pela casa (terceirizada ou não), o recato e a beleza que eles esperam.

É machismo desejar uma mulher bela? Claro que não. Machismo é esperar que ela seja bela tão somente para sua satisfação de macho e quando deixar de ser que outra possa lhe atender neste desejo.

E se a mulher desejar cuidar da casa, dos filhos e do marido? É machismo? Certamente não, se, em comum acordo, o homem reconhecer as atividades dela como um trabalho e também dividir as responsabilidades da casa e dos filhos, sem privá-la de liberdade, independência, opinião, autonomia e, claro, felicidade.

É machismo ter uma empregada? Também não, contanto que não haja uma exploração do trabalho e que os mais simples serviços da casa não sejam atribuídos somente à doméstica como se ela fosse uma escrava ou como se as tarefas da casa fossem menos dignas e não devessem ser realizadas pelo homem também.

O machismo no Brasil está na rotina. O homem que não é machista não enxerga a mulher como um objeto que lhe pertence, não pensa em uma esposa como uma mulher que ele pode comprar, nem quer uma pessoa sem liberdade ou que viva somente a seu serviço, a fazer tudo aquilo que ele não gosta de fazer – como lavar roupa, lavar louça, limpar a casa, lavar um banheiro e levar o lixo pra fora. O homem que não é machista quer uma mulher com as mesmas condições e direitos que ele. E que ambos sejam belos por igual, dediquem-se ao lar também igualmente e, se desejarem, mantenham o recato ou a depravação de acordo com o desejo dos dois.

Marina Abramovic começou sua carreia no início dos anos 70 e é considerada a “avó da arte performance” (na foto, com seu ex-parceiro Ulay)
Marina Abramovic começou sua carreia no início dos anos 70 e é considerada a “avó da arte performance”

 

About Adriana Menezes

Pernambucana de nascimento e cidadã brasileira por convicção. Amante das artes, da língua, da comunicação e da vida em movimento. Mãe, mulher e jornalista em tempo integral. Nas horas de folga, põe os filhos no colo, passa batom e consome (ou produz) informação.

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