Cacalo_Destacada

A pomba invadiu a vida de José

Era o primeiro dia da primavera. E José, como fazia todos os dias úteis da semana, chegou bem cedo, antes que seu pai aparecesse. Cumprimentou Luiz Alberto, o funcionário mais antigo do escritório de advocacia de seu pai, tomou um café, e mirou-se por um bom tempo no espelho do banheiro, ajeitando a camisa azul clara, e partiu. Seria mais uma manhã gloriosa.

No elevador, que estava vazio, novamente certificou-se no espelho da camisa que comprara há pouco tempo e que usava pela primeira vez. Era de tonalidade azul, um azul que escolhera depois de longa análise.

Aliás, muito longa, o que fez que o paciente vendedor, a certa hora, puxasse o próprio cabelo com toda a força e derramasse no chão alguns tufos. Era um bom sinal de que devia fazer o negócio com urgência e sair fora.

Mas a camisa era a camisa azul que José decidira amar até o fim de seus dias – quer dizer, até o fim da camisa, sejamos claros. Mais: aquela não era a única camisa que tinha. Havia uma amarela, uma verde, uma vermelha, uma cinza… Mas nenhuma delas chegava aos pés da azul em beleza.

Bem, José circularia agora pela área central da cidade com a nova camisa. Ou seja, a andança começaria ao redor do Largo do Rosário, a praça que marcava o centro da cidade. Depois andaria por várias outras ruas, atento para que não se distanciasse demais do escritório do pai em que trabalhava e não devia se atrasar muito. Agora seria o momento de mirar as mulheres, as lindas mulheres que circulavam por ali.

Começou a seguir o seu roteiro. Ia, via uma mulher que lhe agradava, voltava para segui-la. Depois via outra mulher. Voltava de novo. Ia, voltava; ia, voltava. Percebia então que estava fazendo isso em uma única face da quadra.

Parou então para tomar um café e avaliar se não estava pegando pesado. Mas mais uma vez¿ Era a sétima vez, e em nenhum momento devolveram o olhar. Elas disfarçavam. Era um truque, sabia, já estavam apaixonadas. Todas elas. A linda camisa azul era só um atrativo a mais.

Cacalo - Pombas_04

 

No Largo, as crianças se divertiam com as pombas. E José parou ali para dar um tempo. As crianças corriam em direção às pombas. Quando estavam bem próximas, as pombas se desviavam. As crianças as seguiam. A cena se repetia. Era linda. As mães olhavam com alegria, felizes da vida. José fazia parte de um grande público.

E veio algo estranho do ar e caiu na cabeça de José. Pouco na cabeça e pouco na camisa nova. E o pouco, notou, era em grande quantidade. Estava borrado. Resolveu então ir correndo para o escritório do pai. Chegou.

E o pai, ao vê-lo, questionou aonde ele tinha se sujado daquela forma.

– É cagada, pai. Cagada de pomba.

E se escondeu no banheiro.

O tempo que lá ficou não foi possível ser avaliado.

Cacalo - Pombas_01

 

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