Animal usando os colares contendo o “cheio” do waterbuck. Na verdade os colares contêm os compostos químicos identificados pelos pesquisadores e que contribuem para formar o cheiro do waterbuck. Estes colares liberam os compostos e mantém as moscas para bem longe, protegendo o animal. (Fonte: Autores do trabalho)
Animal usando os colares contendo o “cheio” do waterbuck. Na verdade os colares contêm os compostos químicos identificados pelos pesquisadores e que contribuem para formar o cheiro do waterbuck. Estes colares liberam os compostos e mantém as moscas para bem longe, protegendo o animal. (Fonte: Autores do trabalho)

Vacas vestindo roupas de waterbuck

Andre_PB_400x400“Estou escrevendo este texto de meu celular. Fizemos uma pausa para o almoço e faço isto enquanto meu time termina de comer e descansar de uma manhã bastante intensa.
Estamos em um centro de pesquisa agrícola, localizado na região de Centurião, a alguns quilômetros de Johanesburgo, na África do Sul.
O dia tem sido bastante quente e o trabalho que estamos fazendo aqui, desgraçadamente, nos exige estar expostos ao sol por todo o dia. A água é bastante limitada, duas ou três garrafas para cada; vem fresca, mas, após alguns minutos, está tão quente como o dia de hoje. Os animais vêm em lotes, são agressivos e bastante imprevisíveis. Hoje já tive um acidente com meu dedo que ficou esmagado entre a cabeça de um boi da raça Niguni e a cerca. Pausa para o almoço, e todos nós comemos sentados no chão, cada um no seu canto. Estamos famintos e exaustos, mas, mesmo assim, o clima é de descontração. De comida temos carne (que não soube definir de quê) com vegetais cozidos e para acompanhar uma espécie de polenta fria feita de milho branco chamada de ugali, que se come com as mãos sem talheres e o ugali serve como base para todo, como nosso feijão com arroz. A comida é “bruta” algo necessário para aguentar o dia intenso. Todos ali são alunos, professores e funcionários do ARC (Centro de Pesquisa em Agricultura), meu xará Matumi, que se intitula André para os estrangeiros, está contando, em sua língua materna, algo que eu acho ser uma piada e, enquanto busco uma sombra para rascunhar este texto, ouço uma risada explosiva do grupo.”
Parte da equipe: descontração na hora do almoço (Foto Arquivo Pessoal)
Parte da equipe: descontração na hora do almoço (Foto Arquivo Pessoal)
Alguns países da África, principalmente da África subsaariana, sofrem com uma doença bastante séria, transmitida pela mosca tsé-tsé (em inglês se pronuncia tétssi). Essa mosca é responsável por causar uma doença bastante séria chamada de doença do sono ou nagana.
O parasita que causa a doença do sono é transmitido para os humanos pelas moscas tsé-tsé infectadas, que procriam em regiões quentes e úmidas da vasta savana da África subsaariana.
A doença recebe esse nome por impedir a pessoa de dormir durante a noite e que geralmente é vencida pelo sono durante o dia. Ela causa sintomas neurológicos e é provocada por um tripanossoma transmitido pela picada da mosca. Existem dois tipos de tripanossomas que causam a doença, um deles é o Tripanossoma brucei gambiense e oTripanossoma brucei rhodesiense. Essa doença não ocorre no Brasil, ela está apenas na África, mas, no Brasil, temos uma prima, o Tripanossoma cruzi, que causa a doença de chagas.
A Organização Mundial de Saúde estipula que, se não tratada a tempo, a taxa de mortalidade pela doença do sono supera os 80%.
Os sintomas iniciais são bastante comuns a outras doenças como febre, tremores, dores nas articulações e musculares, mal estar, perda de peso e anemia. Depois os sintomas ficam mais sérios, como problemas neurológicos com retardo mental, convulsões epilépticas, sonolência e coma. A morte irá ocorrer de menos de seis meses até seis anos. É uma doença negligenciada bastante séria.
As moscas entram em contato com pessoas, com o gado e com animais selvagens como os antílopes. Em 2010, 7200 casos de doença do sono foram registrados. A OMS acredita que o número corresponda apenas a uma fração da quantidade real de ocorrências, que está próxima das 30 mil por ano (dados do site de Médicos sem Fronteiras).
Pesquisadores do ICIPE (Centro Internacional de Ecologia e Fisiologia de Insetos) no Quênia estão desenvolvendo um método bastante simples e extremamente sofisticado para combater a mosca causadora dessa doença. Na África, existe um antílope chamado de waterbuck, ele é conhecido em Moçambique pelo nome de inhacoso. Esse animal pertence á família dos bovinos e, geralmente, se mete dentro da água quando é atacado por predadores, deve ser daí que vem o seu nome de “water buck”.
Existe uma crença de que a carne de animais idosos tem um sabor bastante desagradável devido a substâncias liberadas pelas glândulas de suor. Isso leva à crença de que predadores evitam caçá-los. Não sei se isso é verdade, mas esse animal mostra uma característica muito interessante que foi descoberta por criadores de gado e que depois chamou a atenção dos cientistas do ICIPE no Quênia. O fato é simples, o animal não é picado pela mosca que causa a doença do sono, pois, por alguma razão, a mosca prefere picar outros animais ao invés dele.
Waterbuck e sua capacidade de repelir moscas (Foto: Creativecommons)
Waterbuck e sua capacidade de repelir moscas (Foto: Creativecommons)
A razão para isso está no cheiro do animal. Os cientistas coletaram então o cheiro desses animais. Bem, cientificamente dizendo, os cientistas coletaram a mistura de compostos químicos que são liberados pela pele do animal. Eles identificaram todos os compostos químicos voláteis do waterbuck e descobriram que quatro desses compostos, quando em contato com a mosca tsé-tsé, faziam com que elas voassem para longe. Isso é, os compostos repeliam as moscas. Essa é a razão do waterbuck ser imune a esta doença.
Em mãos desses compostos, os cientistas do ICIPE sintetizaram os mesmos e fizeram um colar que libera esses compostos e os usaram em gado. Os resultados mostraram que os animais, que usavam o colar contendo o “cheiro” do waterbuck, foram protegidos em mais de 80% dos ataques da mosca, comparados àqueles animais que não usavam os colares.
Animais usando os colares contendo o “cheio” do waterbuck. Na verdade os colares contêm os compostos químicos identificados pelos pesquisadores e que contribuem para formar o cheiro do waterbuck. Estes colares liberam os compostos e mantém as moscas para bem longe, protegendo o animal. (Fonte: autores do trabalho)
Animais usando os colares contendo o “cheio” do waterbuck. Na verdade os colares contêm os compostos químicos identificados pelos pesquisadores e que contribuem para formar o cheiro do waterbuck. Estes colares liberam os compostos e mantém as moscas para bem longe, protegendo o animal. (Fonte: autores do trabalho)
O trabalho não é fácil de realizar, mas bastante simples de ser entendido.
Para coletar esses “cheiros”, identificar cada composto químico ali presente, sintetizar, realizar ensaios com as moscas não é uma tarefa nada fácil e exige um time bastante grande de pessoas.
Os pesquisadores utilizam o termo “vacas vestindo roupas de waterbuck” para explicar em poucas palavras sobre o trabalho.
Um dos trabalhos que venho realizando aqui é uma extensão baseada no que cientistas quenianos fizeram.
Muitos animais possuem uma proteção natural a diversos parasitas. Para entender isso, vou usar um exemplo bastante comum, e que todos já viram. Por que existem pessoas que são atacadas por pernilongos e mosquitos enquanto outras não são?
O princípio aqui é o mesmo. Algumas espécies de animais produzem compostos químicos naturais, produzidos por seu corpo, que atuam como repelentes para diversos parasitas, como moscas e carrapatos. A ideia é descobrir o maior número possível de compostos químicos e testá-los contra diversas pragas veterinárias. No Brasil, o gado da raça Nelore é bastante mais resistente ao ataque de carrapatos do que o da raça Holandesa, e a hipótese inicial é que o Nelore produz compostos que repelem os carrapatos ou até mesmo vice versa, já o Holandês pode estar produzindo compostos que os atraem. Vai saber!
Aqui na África, também vemos essa característica quando o assunto é carrapatos, pois algumas espécies de gado são bastante resistentes a carrapatos enquanto outras não. 
Este trabalho que venho realizando aqui entra num ramo da ciência chamado de ecologia química e, na primeira etapa, ele consiste em desenvolver métodos de “captura” desses cheiros que os animais têm, e muitos equipamentos especiais são utilizados.
Voltando ao problema da doença do sono, os compostos químicos, produzidos pelo antílope waterbuck, são a geranilacerona, o guaiacol, o ácido pentanóico e o grande repelente chamado de δ-octalactona, sendo que este último já entrou num processo de patente.
Espera-se expandir esta descoberta para seres humanos e assim obter um método seguro e não tóxico de combater essa doença que vem definhando a vida de milhares de pessoas.
Opa, fim do almoço, hora de voltar ao trabalho.
 
Quem quiser saber mais informações sobre este trabalho, “Protecting cows in small holder farms in East Africa from tsetse flies by mimicking the odor profile of a non-host bovid”, ele pode ser encontrado free no site da revista Plos – Negleted Tropical Diseases no seguinte endereço:
http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0005977 
 
E, claro, qualquer pergunta ou dúvida ficarei muito feliz em responder, basta me enviar um email para andresarria(arroba)ymail.com (não é gmail é ymail) ou me encontrar pelas redes sociais.

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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