Cacalo Fernandes

Cacalo_Cavalo e praia 01

Desentendimento com o arame farpado

Alonso Luiz era um primo de terceiro grau. E era filho único e bem gordo – gorduchinho, vai; termo menos cruel de me referir a ele. Depois da chegada de minha família à sua casa, eu e meu irmão aceitamos o convite de Alonso Luiz para um passeio a cavalo em sua fazenda, uma fazenda linda nos arredores de Campinas. Depois de apertarmos a teta da vaca para tomarmos leite, resolvemos sair pelo caminho que Alonso Luiz nos indicava. Ele conduzia o grupo na frente, na condição do proprietário da fazenda, e nós íamos atrás, na qualidade de primos aprendizes. Estava sendo uma cavalgada como nunca tínhamos feito – aliás, era a primeira vez em que andávamos em algo que não fosse carrinho de rolimã. Ele mesmo cuidara dos assentos, dando ordens aos empregados para isso. E fomos embora. Em …

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Cacalo_Cursinho 1

Um guia turístico desatento

Certa noite, entre cervejas e cervejas, um amigo que trabalhava em uma empresa de turismo, o Gonçalves, me chamou de lado e me convidou para atuar como guia turístico. E abriu um sorriso. O que? Guia turístico? Para levar alguém pra Marte? Ele ficou me olhando. Sumiu o sorriso. Como, levar alguém pra Marte, pensou? Este cara está louco! Continuou me olhando. Cheguei a ficar inibido. Olha aqui, Gonsalves. Não imaginei nada disso. Mas, cá pra nós: guia turístico? Tentei explicar minha atividade atual. Sou bom em português. Sou bom em matemática. Sou bom em todas as disciplinas. Mas bom no que é preciso conhecer um curso para trabalhar. Nada mais. E isso não seria interessante para ninguém que fosse passear. Seguiu de olho na minha cara. Explico: no início do cursinho pré-vestibular, em São Paulo, num apartamento minúsculo na Avenida …

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Cacalo Fernandes_bola grande

Mãe é mãe, paca é paca.

O que uma bola daquele tamanho estaria fazendo no meio da rua. Mas estava presa por um cabo de aço. Parecia o mundo agarrado pelo rabo. Comecei a andar um pouco mais rápido. Virei a esquina. Espiei pelo rabo de olho. Nada. Espiei de novo. E não é que ela apareceu? Que praga era aquela? Acelerei ainda mais os passos. Virei outra esquina. Olhei de novo pelo canto dos olhos. Nada. De novo. Nada. Ufa! Desacelerei os passos. Passou a desgraça. Ia olhar pra cima. Resolvi Não fazer nada. Anda rápido, vai. E não é que a “redonda” apareceu de novo. Ela ocupava a rua toda. Resolvi correr. E quanto mais eu corria mais ela caminhava rápida. Não acredito. Entrei em outra rua. Mas era uma sem saída! No final tinha um muro enorme. Tentei pular. Não deu. Pulei mais …

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Ataque de Nervos

Resolvemos então partir para Monte Verde, a cidade escondida nas montanhas de Minas Gerais. Este mapa que a gente vê hoje na internet não existia. Nem a internet existia. E o telefone celular? Ainda dormia. Enfim, a vida era outra, e os mineiros deixavam o vento carregar as palavras obedecendo ao ritmo do vento e da sua fala mansa. Formávamos um grupo de 14 jovens, homens e mulheres, adolescentes na faixa dos 16 anos. Além de roupas, principalmente para o tempo frio que era próprio de Monte Verde, levávamos as barracas para o acampamento, que já sabíamos onde seria, um lugar na beira da montanha que chega lá no alto. Este era o programa para nossas férias de julho. Na estrada mais movimentada, como a carona era mais provável, dividimo-nos em sete grupos de dois. E colocamos o polegar para …

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Pescaria

Mais interessante que tio Machado era sua mulher, a tia América. Eles não tinham filhos. Mas tinham enteados que zanzavam pelo sobrado o tempo todo. Mas o mais curioso da vida dos Machado era quando saíamos de casa para conhecermos ‑ nós “os caipiras”, como dizia tio Machado ‑ as belezas de uma “cidade idealizada por Deus”. Tio Machado nos levava em seu carro inglês, bem comprido. No banco do passageiro ao lado, ia tia América. No banco de trás, meus pais. Na traseira, eu e os meus dois irmãos, meu irmão mais velho e minha irmã mais nova. E o mais surpreendente é que quando saíamos no carro de tio Machado, antes mesmo de partir, tia América, silenciosa até então, mostrava sua voz, estridente e em alto volume. Era o início da gritaria da tia América. Quem diria? Parecia …

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A frota de carros era quase descomunal

A vida gira, gira; girou. A vida é assim. As imagens perambulam pela memória. No Brasil, aconteceu desse modo. Em 1902, a população brasileira não chegara ainda aos 20 milhões de habitantes e era presidido pelo monarquista Rodrigues Alves. Enquanto Euclides da Cunha lançava Os Sertões, os socialistas, em manifesto, propunham, entre outras coisas, a extinção do Exército e do dinheiro. Se desse certo o manifesto dos socialistas, seria uma virada de cartas. Manaus e Belém esbanjavam o dinheiro da borracha, e a imprensa se horrorizava com dois blocos carnavalescos cariocas que perderam dois foliões depois de uma pancadaria. O horror/humor ganhava realce com os velórios, que eram animados por bebedeiras e samba. Assim o Brasil seguia dançando e dançando. O futebol, o esporte inventado pelos ingleses e hoje o mais popular do mundo, chegava de mansinho ao Brasil. Em …

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Psiu! Fala baixo

Durante certo tempo, foi jogador de futebol. Ele imaginava muitos aplausos da galera. Sonhava na verdade que os gritos explodiriam em um Maracanã lotado. Mas quando percebeu, depois de uma boa jogada em um campo de várzea, que o silêncio invadira o gramado, refletiu: sua carreira chegara ao fim. E agora? Depois de uma semana dormindo, acordou com os olhos cheios de ramela e o violão nas mãos. Começou a dedilhar. Gostou. Que som bom! Será que foi a semana de dormideira? Voltou a tocar, a tocar, a tocar, a tocar. Parecia que nunca mais terminaria aquilo. Seria agora um violonista de sucesso. Sua nova carreira começou quietinha. Como acontecia com muita gente. Começou em bares pequenos. Mas era só o início. Que o futuro o aguardasse. O futuro seria legal. Ah, como Londres era bela! E Amsterdã, então! E …

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A pedra que veio do nada

De repente, quem diria, a vida de Ambrósio mudou. “O que aconteceu, meu Deus? O que estava acontecendo comigo?” se perguntava. Parecia uma praga invertida que atravessara sua vida. Ambrósio estava aliviado por um lado e angustiado por outro. Afinal, depois de tanta desgraça, vinha aquele tempo de calmaria. Ele olhava para o céu e questionava: “Para, não vem mais com novidade? Você é safado”! Não veio mais novidade. Ele já começara conversar com o mundo para que ele lhe explicasse como tudo de ruim poderia aparecer por tanto tempo e sumira num instante, sem explicação. Esse tudo era tudo mesmo. A escova de dente caía com a pasta lambendo o chão. O mesmo acontecia com o cachorro quente – e lá ia salsicha e todo o molho que fizera com suor danado. Até o cachorro, o único ser do …

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O padre que descobriu o ouro

Todo mundo de Cantão só falava na rifa do padre. Tinha hora em que o zum-zum-zum era um inferno: “vai dar águia, vai dar zebra, vai dar cobra, vai dar vaca”… Os palpites ganhavam volume quando os romeiros passavam em frente à Igreja do Rosário. O que corria na boca miúda era de que a intenção era sensibilizar os santos para quando as bolinhas da loteria rolassem. E como só eles, os santos, poderiam provar a tese, restava ao padre rezar para que a cidade não enlouquecesse de vez. O padre só sabia que tinha inventado a loteria pra igreja, uma loteria como dessas encontradas em tudo que é esquina. Apenas uma rifa, uma loteria mais livre. O padre só queria isso, só isso. A intenção era, com o dinheiro arrecadado, pintar o prédio e, se desse, fazer outras reformas, …

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As bolas coloridas diziam tudo

Eu conhecia Dona Nena só de vista. Ela era a dona do circo. De origem italiana, ela não era muito boa de papo, o que era estranho. Não sei o momento em que ela falava. Mas Dona Nena devia exprimir-se em algum momento, tenho certeza. Mas eu conhecia o Bigorrilho, e isso me bastava. Ele é quem cuidava de Fátima, aquela elefanta fantástica que ficava no campo de futebol do Libertad, atrás de minha casa. E ele me permitia observar os animais do circo um pouco mais cara a cara. E Fátima, acredito, ficara minha grande amiga por isso. Amicíssima. Do meu quarto, aos fundos do campo, a primeira coisa que fazia no dia era escancarar a janela e olhar a Fátima. Ela era linda mesmo. Além disso, pela primeira vez, eu me senti mais importante que meus primos da …

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