Cacalo Fernandes

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As notícias chegam pelos ares

No começo desconfiaram do sossego. Foram chegando de mansinho. E descobriram que haviam viveiros em todos os cantos, com sementes e frutas. Acharam amigável. Lamberam os bicos. E perceberam que um ser humano estava também por ali. Era o Reginaldo, um grandalhão, um sujeito que só queria ver umas asas na casa. Quando os pássaros iam chegando pareciam um pouco as andorinhas que um dia bailaram sobre o céu de Campinas e lhe deram o nome – Cidade das Andorinhas. Mas os pássaros, que eu saiba, nunca souberam dessa história. Foram estudando a casa e o grandalhão. Para quem seriam as coisas dos viveiros? Não seriam para o Reginaldo, lógico. No primeiro dia, só investigaram o ambiente. Nada de meter o bico em nada. Por enquanto. Assim, os pássaros foram chegando. Quer dizer, os pardais eram os mais numerosos, mas …

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Professor de yoga sem paciência

Tio Fernando foi um exemplar estudante de engenharia civil na Universidade de São Paulo. E desde os 14 anos já namorava tia Clio, irmã de minha mãe. Com o início do namoro, combinara com ela como queria se casar: “Para a gente ter um amor perfeito, você não poderá mais olhar para nenhum rapaz, e nem eu para nenhuma moça”. A namorada olhou nos seus olhos e disse: “Mas isto é Claro, Fernando”! Antes de sair seu primeiro salário de engenheiro, tia Clio deu o primeiro sinal da penca de filhos que se anunciava. Depois não teria mais parada. Nascia um e já vinha outro.  O casal teve seis filhos, entre eles, uma mulher. Foi aí que o médico falou que chegara a hora de parar. “Por que”?, questionou tio Fernando. O médico explicou, explicou, explicou… E tio Fernando manteve …

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Escada rolante em transe

Encostei a cabeça na poltrona do ônibus. Comecei a fechar os olhos.  Era uma sorte para quem nunca sequer “cochilava”. Resolvi nem pensar no assunto. E me deixei levar. Dormi. Mas acordei logo. Foi apenas um pedaço de sono. Meu vizinho nem tentou se preocupar com o assunto. Preferiu o atropelamento de joelhos. Despertei assustado. Saí da minha cadeira e o deixei passar. Ele começou a procurar algo no porta-treco do lado de cima. Na verdade, começou a vasculhar tudo que via. E todos acordaram. Foi quando lembrei-me que no meio da viagem alguma coisa caiu lá de cima. Tomei cuidado, apanhei o  embrulho  e pus lá em cima novamente. Foi o que aconteceu. Mas não era isso que ele via agora. Ele andava como um louco por todos os assentos. O motorista resolveu acender a luz interna. E enfim …

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O sonho morava ao lado

Veio o barulho. Parecia um relâmpago. Olhei no relógio e ainda eram cinco horas da manhã. Mas verifiquei que o tempo estava bom. O que teria sido aquele estrondo. Parecia ser no Bosque dos Italianos, que ficava meia quadra de minha casa. Fui dar uma olhada. Estava escuro ainda. Não dava para saber de onde viera o ruído. Sentei na sarjeta de uma das ruas que cercava o bosque. Esperei. E de repente veio outro barulho. Deu para perceber mais ou menos de onde viera. Mas a escuridão era danada. Teria que esperar mais uma vez. Veio outro estrondo. Se não estivesse escuro eu acharia logo de onde ele partira.  Passei pela cerca de arame farpado e segui para o lugar que eu achava provável a queda. Olhava, olhava, olhava… Não via nada. A escuridão não atrapalhava tanto como antes, …

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Falação

Atendi ao telefone. Quem falava era uma moça muito educada. Feita a apresentação, de repente ela desatou a falar numa velocidade estonteante. Pensei: o que houve com aquela moça tão doce e suave que começara a falar agora como locutora de corrida de cavalo? Enquanto a falação seguia, lembrei-me que havia colocado a água do café para esquentar. Tentei explicar a situação. Mas ela não me escutou e foi adiante emendando as palavras sem pausa. E eu não sabia ainda nem qual era o assunto. Fui verificar a temperatura da água e deixei que ela conversasse um pouco com o telefone. Voltei. Ela continuava a falar como se nada tivesse acontecido. Tossi. Ela continuou o discurso. Tossi de novo – uma, duas, três, quatro vezes. E ela não dava sinal de que alguma coisa estaria ocorrendo. Comecei a achar esquisito. …

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Sonâmbulo

Quincas resolveu mais uma vez pegar as melancias que estavam no quintal do vizinho. Não era roubo. Era tomar posse das melancias que estavam ali tristonhas, esquecidas. Na verdade era uma caridade. Foi devagarzinho. Subia o muro, pegava uma, dava um jeito de subir pelo muro com a melancia, depositava na beira da sarjeta. Depois era outra, e seguia o mesmo ritual. Depois a última. Sentou-se na beira da sarjeta da rua de terra.  Olhou para as melancias. E babou. Abriu a primeira e começou a devorá-la. Logo conseguiu comê-la e só examinou a casca que sobrara. Até os caroços estavam em sua barriga. Olhou sedento as outras duas. Comeu a segunda. Olhou a terceira. Olhou de lado. Ninguém o via.  Comeu-a de cabo a rabo. Não havia sobrado nada. Abaixou o calção, sem levantar da sarjeta, e mijou. Durou …

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A sorte foi obrigada a acordar

A vida do casal estava perfeita. Tudo caminhava com doçura. Ela trabalhava em casa e ele na rua. Ela lavava e cozinhava como se tivesse uma vara de condão. Ele fazia tudo que podia e um pouquinho a mais. E tornou-se um bom trabalhador. Se havia qualquer problema, a primeira coisa que falavam era “chama o Zeca, ele resolve”. A vida do casal tornou-se exemplar no bairro em que moravam. E todo mundo chamava o Zeca para o que acontecesse. Se havia um problema com um parafuso, que enroscara e não se movimentava nem implorando, a solução estava nas mãos dele. Privada, lâmpada, fusível; tudo.  A fama de Zeca começou a espalhar-se para os bairros vizinhos. Quando tinha feira no bairro, é que eles sentiam que a pobreza chegara ao fim. Todo mundo queria trocar uma proza. “Aquele chuveiro está …

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Desentendimento com o arame farpado

Alonso Luiz era um primo de terceiro grau. E era filho único e bem gordo – gorduchinho, vai; termo menos cruel de me referir a ele. Depois da chegada de minha família à sua casa, eu e meu irmão aceitamos o convite de Alonso Luiz para um passeio a cavalo em sua fazenda, uma fazenda linda nos arredores de Campinas. Depois de apertarmos a teta da vaca para tomarmos leite, resolvemos sair pelo caminho que Alonso Luiz nos indicava. Ele conduzia o grupo na frente, na condição do proprietário da fazenda, e nós íamos atrás, na qualidade de primos aprendizes. Estava sendo uma cavalgada como nunca tínhamos feito – aliás, era a primeira vez em que andávamos em algo que não fosse carrinho de rolimã. Ele mesmo cuidara dos assentos, dando ordens aos empregados para isso. E fomos embora. Em …

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Um guia turístico desatento

Certa noite, entre cervejas e cervejas, um amigo que trabalhava em uma empresa de turismo, o Gonçalves, me chamou de lado e me convidou para atuar como guia turístico. E abriu um sorriso. O que? Guia turístico? Para levar alguém pra Marte? Ele ficou me olhando. Sumiu o sorriso. Como, levar alguém pra Marte, pensou? Este cara está louco! Continuou me olhando. Cheguei a ficar inibido. Olha aqui, Gonsalves. Não imaginei nada disso. Mas, cá pra nós: guia turístico? Tentei explicar minha atividade atual. Sou bom em português. Sou bom em matemática. Sou bom em todas as disciplinas. Mas bom no que é preciso conhecer um curso para trabalhar. Nada mais. E isso não seria interessante para ninguém que fosse passear. Seguiu de olho na minha cara. Explico: no início do cursinho pré-vestibular, em São Paulo, num apartamento minúsculo na Avenida …

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Mãe é mãe, paca é paca.

O que uma bola daquele tamanho estaria fazendo no meio da rua. Mas estava presa por um cabo de aço. Parecia o mundo agarrado pelo rabo. Comecei a andar um pouco mais rápido. Virei a esquina. Espiei pelo rabo de olho. Nada. Espiei de novo. E não é que ela apareceu? Que praga era aquela? Acelerei ainda mais os passos. Virei outra esquina. Olhei de novo pelo canto dos olhos. Nada. De novo. Nada. Ufa! Desacelerei os passos. Passou a desgraça. Ia olhar pra cima. Resolvi Não fazer nada. Anda rápido, vai. E não é que a “redonda” apareceu de novo. Ela ocupava a rua toda. Resolvi correr. E quanto mais eu corria mais ela caminhava rápida. Não acredito. Entrei em outra rua. Mas era uma sem saída! No final tinha um muro enorme. Tentei pular. Não deu. Pulei mais …

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