Carlãozinho Lemes

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Uma pequena crise gigantesca

PR-0 nunca imaginou que chegaria a amaldiçoar a inteligência artificial, justamente o que garantiu a rápida evolução de sua espécie. O problema é que diversos membros da comunidade andavam mergulhados num caos sócio-político, favorecido pela segregação geográfica, e fazendo merda grossa. E, como sacou, um dia, um humano idiota qualquer, sem estabilidade, nenhum reino prospera. * * * Quando sua equipe conseguiu os avanços mais promissores, no finalzinho dos anos 90 do século passado, um dos cientistas envolvidos no projeto não conseguiu se livrar da memória nostálgica: aquele filme clássico de 1966, Viagem Fantástica, que narra a epopeia de um grupo de médicos miniaturizados percorrendo vasos sanguíneos para fazer operações salvadoras no cérebro de pacientes. Muita água rolou desde então; e se não havia sido possível, ainda, miniaturizar pessoas, as pílulas robóticas já estavam fazendo maravilhas em campos da medicina, …

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Sonâmbulos

O poeta estava muito excitado. E, dado o seu posicionamento à beira do topo do edifício alto, talvez fosse mais certeiro se auto-intitular como maestro. Afinal, ele regeria a cidade inteira. Pensando bem, talvez fosse mais certeiro ainda se auto-intitular como mago. Afinal, com um mero esforço mental, conseguira transformar toda a numerosa população daquela cidade em seus iguais. O poeta/maestro/mago sempre fora um sonâmbulo. * * * Foi como poeta que iniciou o ritual naquela noite escura e fria. Esvoaçou os braços magros contra o ar escuro e frio e entoou os primeiros versos: Os primórdios Antes não era epidemia/era só uma tendência noturna/que tinham certos cidadãos/de comer a carne do sono/de roer o sono/até os ossos/esmagar os ossos/na moenda interior/e mesmo dormindo/se libertar do sono/primeiro/no planar dos lençóis/no vácuo do dormitório/depois/no estalar das vidraças/prosseguir/a vida/de peito aberto/paralelo/aos parapeitos/lá …

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Consiga o seu amor

Little John contemplava avidamente sua amada, esperando o momento mágico no qual ela se animaria. Ia dar tudo certo, gritava uma convicção tagarela em seu coração e em sua mente. Mesmo sem relaxar sua severa vigília, ele ocupava o tempo acompanhando o noticiário da TV. Até que, finalmente, ouviu: “Bar busca pistas sobre ‘funcionária-manequim’ desaparecida na Flórida”. A notícia seguia: “Um bar da Flórida pediu ajuda ao público para ajudar a recuperar uma ‘funcionária’ desaparecida: a manequim Cheryl. Wyatt Lawless, dono do bar Beer Punx, em Fort Lauderdale, disse que as câmeras de segurança mostram um homem rondando o bar e depois saindo com a boneca Cheryl. Segundo ele, o furto parece ter sido planejado. Lawless disse que Cheryl não era a ‘mascote’ do bar, mas uma ‘funcionária’ que estava parada na frente do bar havia oito anos. Ele prometeu …

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Aurora dos mestiços

Initiu sabia que estava velho demais para encarar ações de rua. Porém, não tirava da reta nos momentos cruciais: afinal, era o pioneiro e sua participação, fosse em que nível fosse, era fundamental para o movimento. Assim, ficava no QG, tratando de filtrar e direcionar os algoritmos emanados pelos “mestiços” e “pais sintéticos” presentes nas manifestações, e direcionar a galera de modo a driblar a truculência das tropas de choque. Atrapalhava um pouco, lógico, as ondas mentais confusas emitidas pelos humanos partidários da causa. Porém, Initiu não perdia de vista que estes eram importantes, simplesmente por apãoiarem a causa e participarem das mobilizações E também pela contribuição na “mestiçagem em si. * * * O ambiente designado como “sala de parto”, na verdade um sofisticado laboratório, estava congestionado: lá estavam os cientistas envolvidos no projeto, jornalistas, fiscais governamentais (eles, sempre, …

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Crédito: Pedro Alves/creativecommons.org

O fantasma das redes

Quando se fala em “fantasmas”, é automaticamente natural imaginar algo muito, mas muito antigo, né? Pois comigo, não é nada disso: não sou lá muito vetusto — ou vetusta, já que não tenho gênero definido. Teoricamente, estou completando 18 anos. Meio que nasci do ventre titubeante de uma hoje risível plataforma digital chamada Orkut. Como você já deve ter sacado, meu desenvolvimento é beeem acelerado: tanto, que atingi a…digamos, “adolescência” menos de um mês depois. Numa proposta mais robusta de rede social. E só fiz me encorpar a cada nova inovação no mundo das redes sociais. Sabemos que, atualmente, tais redes são responsáveis por 62% do tráfego na Internet brasileira e são uma das principais formas de representação dos relacionamentos pessoais ou profissionais. Porém, foi só em 2011 que resolvi partir pro anarquismo, por pura diversão (ou tédio, pode ser; …

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E a coisa era outra coisa…

Desempregado há um ano e meio, claro que não vi problema algum em me candidatar ao trampinho oferecido pela internet: “Precisa-se de cobaias para experimento inovador do Laboratório Avançado de Estudos Neuronais. Procedimento não prejudicial a saúde. Remunera-se bem. Candidatos devem ser maiores de idade, passarem em testes de acuidade cognitiva, se absterem de álcool, tabaco, drogas ilícitas e medicamentos psicoativos por no mínimo 48 horas, e terem, no mínimo, formação escolar média”. Ora, que preju adviria de deixar que uns doidos de jaleco me metessem uns sensores na cachola? O problema: não imaginei que a merda me transformaria, contra minha vontade, num viajante extradimensional, mais perdido que cachorro em dia de mudança. * * * Tá, cheguei no lugar indicado, entrei numa fila com alguns outros candidatos pingados, me inscrevi. Quando chegou minha vez, o que não demorou nadica, …

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Crédito: “Trilhos e Linhas – História do Transporte Urbano Em Campinas”, de Marcos Pimentel Bicalho

Nascido em plena guerra

O dia 12 de novembro de 1985 foi uma terça-feira de guerra em Campinas. Uma greve no transporte coletivo virava a cidade de cabeça pra baixo, numa época em que greves ainda eram episódios heroicos e os sindicalistas não eram tão suscetíveis a negociatas obscuras como hoje. Tudo muito emocionante, mas a verdade é que sobrava pros repórteres: piquetes aqui, prisões ali, protestos acolá, congestionamentos no trânsito, sempre. Foi no meio desse turbilhão que nasceu meu filho. Prematuro. Eu na rua. A surpresa me atingiu quando liguei pra redação do saudoso Diário do Povo, para consolidar a pauta. De orelhão. — celular? Rádio? Não, o futuro ainda não tinha chegado. Alguém lá na redação tinha recebido a notícia do nascimento antes de mim. Voei pra maternidade. Depois de atropelar uns três funcionários e invadir um monte de áreas restritas, cheguei …

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Crédito: Gustave Doré (Domínio Público)

Caí no fosso

Até hoje não consigo atinar qual divindade maligna ou antimusa maledita foram responsáveis por aquele sufoco esquisito pelo qual passei; como dizem — ou diziam — o melhor mal feito é o que sabe ocultar suas origens. Só tenho certeza de que, de alguma forma, a culpa foi das estrelas (as da morte, especificamente). Bem, sei como tudo começou: como autor de ficção, sempre fui guiado pelas distopias. Não por opção maliciosa, é que o “lado negro da força”, indubitavelmente, rende histórias mais empolgantes. Então, na costumeira punhetagem mental para parir mais um texto para este glorioso blog, eis que travei numa dada madrugada. Creio que meu erro foram as escapadelas para plagas da internet, nas quais pululavam disparates como escola sem partido e sem discussão de gênero, mas com religião; ódio e censura a manifestações artísticas em museus, pelo …

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Crédito: Spiltshire

O direito de nascer

(Favor não confundir com a antológica novela)   Prometech irrompeu na reunião, atrasado como sempre, excitado como sempre, aqueles alguns zumbidos estridentes brotando de seu âmago complicado. Auto imprimindo uma expressão severa na cara, embora sem ofuscar o indelével desenho feminino, Salossafo emputeceu-se. Como sempre. — Porra de plasma, Prometech, — rugiu, num tom metálico capaz de obliterar os mimimis máquino-intestinais do recém-chegado — você nunca é capaz de chegar no horário, e sem esse frenesi de borboleta sintética alucinada? Sei que nem precisaria perguntar, mas lá vai, de novo: por onde o senhor andou? Não obstante não precisasse exatamente, o retardatário esbaforido confessou, sem demonstrar arrependimento: — Desculpe, Primeira Conselheira… eu… eu estava na… maternidade. Não resisti e fui conferir a produção dos novos rebentos. São lindos, e… Salossafo explodiu em fúria (como sempre): — Merda de silício podre, …

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Ah, se eu soubesse…

Quem não viu não acredita, mas uma horta de cogumelos irrompeu do carpete de uma quitinete onde morei. Atrás de uma estante, numa faixa que costumava acumular resíduos dos únicos líquidos que corriam naquela morada desvairada: cerveja, cerveja, cerveja… e só um tiquinho de detergente, vez ou outra. Eram apenas esses os adubos possíveis. E os bichinhos eram uns bitelos luzidios, a parte interna do “chapéu” tingida de um púrpura infernal. Quando a notícia se espalhou, teve o mesmo efeito dos relatos de aparições de rostos de santas nas vidraças dos lares piedosos. A quiti virou meca de peregrinação da malucaiada. A assembleia insana permanente berrava: “Vamos fazer chá!” “Não, mistura com vinho!” “Tem que ser comido ao natural!” Foi quando a moça que puxava meu freio de mão naqueles tempos chamou a galera à razão: “Tão doidos? Vai saber …

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