Carlãozinho Lemes

Crédito: Nasa

Face a face

Quando você olha dentro do abismo, o abismo olha dentro de você. (Friedrich Nietzsche) A comandante Ethel mal conseguia conter o entusiasmo. E daí que sua vida pessoal tivesse havia muito se desintegrado ao longo de sua carreira? Ela era o primeiro ser humano a orbitar radicalmente, porém com segurança razoável, um buraco negro, com chances reais de obter imagens com altíssima resolução do que rolava “lá dentro”. O macete era manter a nave só um tiquinho aquém do horizonte de eventos de Sagittarius A*, o buraco negro monstruoso no centro da Via Láctea. Orbitalmente ancorada ali, ela poderia operar a otimização do sistema observacional e realizar o grande feito, nunca alcançado pela humanidade (e, provavelmente, nem por qualquer outra espécie). Passaram-se boas décadas desde que cientistas obtiveram a primeira imagem real do buraco negro. Na época, eles construíram um …

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Crédito: Pwjamro/creativecommons.org

Da criação das sombras

Ah, tá bom, tá bom, confesso que andei adiando isto aqui. Por que? Sei lá se por algum prurido idiota produzido pela carga emocional, ou porque a coisa ainda me espeta a alma caminheira em vã com uma carga poderosa de nostalgia. Ou só porque o tema é realmente muito triste. Resolva você, hipotético porém sempre generoso leitor deste nosso blog. O que nos interessa realmente é que chegou a hora de falar DELE. E que ninguém por aí ouse rir demais: zombar de crianças que nutrem amigos imaginários é politicamente muito, mas muito mesmo incorreto, né não? (e que ninguém por aí tampouco perca de vista que este pobre escriba sessentão que lhes enche o saco semanalmente nunca deixará de ser uma… criança). Pois bem, chega de papo furado, vamos então à sangria, ao que parece, necessária e inevitável, …

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Crédito: Kirt Edblom/creativecommons.org

Hora do corre-corre

O Ancião sabia que a videoconferência não tardaria a se completar na tela do computador: afinal, os convocados eram, na maioria, jovens tecnologicamente bem preparados naquela nação insular do Oceano Índico privilegiada com um Índice de Desenvolvimento Humano elevado, o 63º do mundo. E com a vantagem de se abrigar sob o regime de república parlamentarista, nada afeita a monitorar a internet. Assim que o mosaico multifacetado se estabilizou no monitor, ele saudou: — Prazer em me comunicar com vocês, guardiões! Após um breve retorno de burburinhos em resposta, o Ancião tratou de ir logo ao ponto: — Saibam que a presente convocação emergencial se justifica realmente por uma emergência. E, antes que alguma intervenção se consolidasse por parte dos mosaicados, ele transmitiu a notícia veiculada pela revista britânica Nature Communications: “Restos de antigo continente são encontrados nas Ilhas Maurício”. …

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Crédito: Steve Johnson/creativecommons.org

Subiu à cabeça

Initiu fora consagrado, sem contestações importantes da comunidade científica, o primeiro computador quântico definitivamente funcional. O projeto, desenvolvido por uma equipe internacional de pesquisadores, acabou apresentando um engenho capaz de resolver problemas complexos e mistérios do cosmos que exigiriam milhões de anos aos computadores convencionais mais potentes. Era baseado nas propriedades quânticas da matéria, segundo as quais uma partícula elementar pode ter diferentes estados simultaneamente, que passam de um a outro dando “saltos”, e não de forma contínua. Essa característica oferecia um potencial de cálculo infinitamente muito maior que os computadores originais, que utilizam o já arcaico sistema binário 0/1. * * * Os entusiasmados cientistas já estavam se esbaldando na resolução pá-puft de enigmas que perseguiam a humanidade há séculos quando se embasbacaram com outro, aparentemente mais prosaico, porém para o qual não encontravam respostas: por que, cargas de …

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Crédito: Arquivo pessoal

Abram alas para o bloco dos patetas

Pra mim, Carnaval e jornalismo passaram a ser palavrinhas difíceis de juntar depois de um certo episódio. Eu, que editava a capa do extinto e saudoso Diário do Povo, de Campinas, e o editor de fotografia dávamos tratos à bola pra parir uma manchete que não escancarasse tanto a pobreza plástica e conceitual que vitimava mais aquele Carnaval da nossa Região Metropolitana. Foi aí que o repórter e o fotógrafo chegaram à redação, eufóricos, mandando “parar as máquinas”, porque tinham a “grande matéria”. Apesar das caras amassadas deles, rescendendo a bebedeira incomensurável da noite anterior, nosso desespero era tal que fomos todos ouvidos pros intrépidos enviados a folia. O relato impressionou: imagine que uma escola de samba da região teve a coragem e a criatividade de homenagear o Galo de Ouro, o lendário bordel do Jardim Itatinga, onde, conta-se, texanos …

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Crédito: Interdimensional Guardians/creativecommons.org

Isso é no que dá confiar

A baixíssima estatura (menos que um metro e vinte e olhe lá) e o corpinho esquelético eram os meus trunfos para driblar os fiscais da prefeitura durante os rapas”, cada vez mais frequentes e agressivos no camelódromo: eu conseguia ziguezaguear quase imperceptivelmente entre as pernas dos transeuntes, trôpegas por causa do reboliço. Certo que minha cabeçorra oferecia alguma dificuldade, porém nada que uns “licencinha!, licencinha!”, grunhidos com minha voz algo metálica, não resolvessem. Já a uma distância segura da repressão, ainda ouvia a torcida dos colegas camelôs que não tiveram a mesma sorte: “Força, anão, você vai conseguir mais uma vez!” Após adentrar, esbaforido, o quarto da pensão, antes mesmo de tomar fôlego, tratei de conferir se havia conseguido entochar todas as minhas mercadorias dentro da mochila surrada: tinha sim, os prosaicos e simpáticos bonequinhos de epóxi estavam lá, prontos …

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Crédito: ND Strupler/creativecommons.org

Home office

A Pensão da Tia Marilda para Rapazes Solteiros era, sem sombra de dúvidas, o fim do poço a que um desempregado crônico e cachaceiro como eu poderia chegar. Ou até não: abusando do restinho do salário-desemprego, até que consegui alugar um quartinho individual, dádiva, visto que naquela altura do campeonato, o que eu menos queria suportar seria dividir o espaço com outros losers iguais ou até piores do que eu. Historicamente funcionando sem alvará nem anjo da guarda no cinturão urbano em torno da antiga estação rodoviária, a pensão não fazia perguntas demais — e nem nós, os hóspedes, naturalmente. E tinha outra vantagem: ficava próxima do centro da cidade, o que facilitava muito minha atividade atual como camelô, que abracei havia alguns anos desde que levei um pé na bunda da firma onde trabalhava como almoxarife; a localização também …

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Crédito: Garry Knight/creativecommons.org

Adivinhe quem manda agora

O delegado da Infância e Juventude estava realmente de saco cheio daquilo. A cena só variava quanto às identidades informadas pelas vítimas. De resto, elas, as vítimas, pareciam oriundas de uma fornada de clones: sempre garotinhas púberes, — embora exalassem maturidade nas expressões corporais e na linguagem — bonitinhas, cabeleiras exuberantes e de pele muito lívida, meio diáfana mesmo. A maioria era tão mirradinha que parecia até levitar pela sala de depoimentos. O mais intrigante era que as queixas eram, invariavelmente, as mesmas: todas haviam, em alguma medida, sido molestadas pelos chamados “palhaços assustadores”, a pegadinha de mau gosto do momento nos centros urbanos maiores. O acúmulo de casos foi tanto que o delegado se viu obrigado a solicitar aos superiores a consultoria de um psicólogo forense gabaritado. — Então, foi assim, seu delegado: eu tava indo pra minha aula …

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Crédito: Sara/creativecommons.org

Amor proibido

Os dois conselhos de Notáveis se reuniam simultaneamente, embora não tivessem consciência disso — nem poderiam, pois significaria a aniquilação de ambas as dimensões. Mais do que coincidência, o motivo era que a situação premente era horrivelmente perigosa para os dois lados. O fato comum a ambos os conselhos era que tudo dependia do sucesso em refrear os hormônios belicosamente ativados das respectivas rainhas.                                                            * * *        O que intrigava os dois conselhos era o pressuposto de que cada rainha, a rigor, só poderia suspeitar da existência da outra por meras e imprecisas especulações cosmológicas. Assim como acontecia com os habitantes de ambas as dimensões, a maior e a menor. Em ambas, florescera há tempos a hipótese, baseada em modelos padrão da física (coincidentes, desenvolvidos simultaneamente, mas de forma que uma nunca tenha tido consciência da outra) de que …

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Psyber Artist/creativecommons.org

Comuna underground

 Rato de rua/Irrequieta criatura/Tribo em frenética/Proliferação/Lúbrico, libidinoso/Transeunte/Boca de estômago/Atrás do seu quinhão — Ode aos ratos (Chico Buarque/Edu Lobo) A inusitada delegação demonstrava muita impaciência na antessala do Gabinete de Gestão de Crise onde esperava pra ser recebida pela força-tarefa montada às pressas como tentativa de conduzir a difícil negociação. A situação era tão premente que até o prefeito de Paris estava por lá. Finalmente, os homens da segurança sinalizaram à recepcionista que os representantes dos rebeldes podiam entrar. E eles adentraram o gabinete, agitando os longos rabos nervosamente, belicosos pelos eriçados; as patinhas diminutas chegavam a barulhar ao cruzar o suntuoso piso de madeira. Os gestores da crise engoliram em seco. * * * Para os parisienses, os sinais andaram se intensificando por meses, porém foi quando o The New York Times divulgou o fenômeno que o caso ganhou …

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