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Ah, se eu soubesse…

Quem não viu não acredita, mas uma horta de cogumelos irrompeu do carpete de uma quitinete onde morei. Atrás de uma estante, numa faixa que costumava acumular resíduos dos únicos líquidos que corriam naquela morada desvairada: cerveja, cerveja, cerveja… e só um tiquinho de detergente, vez ou outra. Eram apenas esses os adubos possíveis. E os bichinhos eram uns bitelos luzidios, a parte interna do “chapéu” tingida de um púrpura infernal. Quando a notícia se espalhou, teve o mesmo efeito dos relatos de aparições de rostos de santas nas vidraças dos lares piedosos. A quiti virou meca de peregrinação da malucaiada. A assembleia insana permanente berrava: “Vamos fazer chá!” “Não, mistura com vinho!” “Tem que ser comido ao natural!” Foi quando a moça que puxava meu freio de mão naqueles tempos chamou a galera à razão: “Tão doidos? Vai saber …

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Falação

Atendi ao telefone. Quem falava era uma moça muito educada. Feita a apresentação, de repente ela desatou a falar numa velocidade estonteante. Pensei: o que houve com aquela moça tão doce e suave que começara a falar agora como locutora de corrida de cavalo? Enquanto a falação seguia, lembrei-me que havia colocado a água do café para esquentar. Tentei explicar a situação. Mas ela não me escutou e foi adiante emendando as palavras sem pausa. E eu não sabia ainda nem qual era o assunto. Fui verificar a temperatura da água e deixei que ela conversasse um pouco com o telefone. Voltei. Ela continuava a falar como se nada tivesse acontecido. Tossi. Ela continuou o discurso. Tossi de novo – uma, duas, três, quatro vezes. E ela não dava sinal de que alguma coisa estaria ocorrendo. Comecei a achar esquisito. …

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Crédito Jay Mantri (Shutterstock)

Criador & criatura

Sabe aquela história “eu mesmo invento, depois fico com medo”? Bem, nem tudo é invenção, mas que fiquei com medo, fiquei. E o episódio me ensinou que mentir, mesmo que um pouquinho, na nossa profissão, não só é pouco ético, como consegue até ser perigoso. O povo da Vila Costa e Silva ligava sem parar na redação do saudoso Diário do Povo, denunciando um cara que aprontava todas, de roubo de carros a cantadas em mulheres alheias. Detalhe: montado num garboso cavalo branco. Partimos pro bairro. Colhemos pilhas de relatos escabrosos da comunidade. Só que nada do malfeitor. Na delegacia, monte de BOs… de “autoria desconhecida”. De volta à redação, premido pelo dead line, não vi outra alternativa a não ser tascar: “Cavaleiro da Costa e Silva aterroriza o bairro”. Ora, não era de tudo ficcional: o Cavaleiro da Costa …

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Família expõe seus conflitos, no quarto filme de Lais Bodanzky (Foto Divulgação)

“Como Nossos Pais” põe na mesa o conflito mãe e filha e dá vontade de chorar

O almoço em família mal começou e os conflitos já estão no ar. Uma mãe, rodeada pelos filhos e netos, solta aqui e ali duras críticas, daquelas difíceis de engolir. A tensão esquenta na mesma medida que a moqueca feita especialmente para o filho mais velho esfria. Uns assistem calados, mas a filha Rosa (Maria Ribeiro) não aguenta. A guerra de palavras, entre acusações e rancores, termina mal. A mãe (Clarrisse Abujamra) resolve revelar, para toda a família, um segredo guardado pela vida toda: a filha é fruto de um caso extraconjungal. Assim começa “Como Nossos Pais”, que empresta seu título da música de Belchior, o novo filme de Laís Bodanzky. Em seu quarto filme, a diretora, a mesma de “O Bicho de Sete Cabeças” (2000), “Chega de Saudade” (2007) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), vai pelo caminho …

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Crédito: creativecommons.org

O último congresso das Lendas Urbanas

Dava pra se engasgar com a atmosfera de derrota que dominava aquele congresso das Lendas Urbanas. Sentindo-se esmagadas pelo que se chama por aí de “modernidade”, elas resolveram se reunir pra discutir formas de brecar sua extinção iminente. A Loira do Banheiro abriu os trabalhos: “Pra vocês terem uma ideia do quanto a nossa situação anda crítica, imaginem que na última vez que tentei assombrar um banheiro de escola, fui ameaçada por uns moleques armados até os dentes, que me acusaram de estar atrapalhando uma transação de crack. Logo que entenderam que iam desperdiçar bala num fantasma, eles me cobriram de porrada e até me fizeram engolir os chumaços de algodão que eu usava nos ouvidos.” O Ladrão de Rins foi o próximo: “Preparei a banheira com gelo no maior capricho e quando abri a vítima que havia posto pra …

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