Artigos Recentes

A intenção foi boa…

A vibração se alastrou rapidamente por todas as porções de solo úmido do planeta. O engraçado era que a fonte da interferência nunca poderia ser detectada facilmente, face que encontrava-se a milhões de anos-luz. O que não impedia que todos os espécimes de cogumelos da Terra que carregavam os genes dos “percussores” percebessem nitidamente o fenômeno. Estava posta a assembleia. “Pois é, bravos operativos”, — batucou cosmicamente a suprema e longínqua intervenção — “Já tínhamos previsto o desdobramento, mas a questão agora é que, finalmente, a ‘ficha caiu’ de vez”. Os “bravos operativos” captaram a mensagem, inscrita com precisão no cerne de seus pés, parcialmente enterrados nos substratos, e que suportam os chapéus. Contudo, sua primeira reação foi um imenso “?” O vozeirão quase imaterial, porém semi-silencioso, prosseguiu: “Até que enfim, respeitáveis centros de etnobotânica concluíram que o consumo habitual …

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Os tomates vão recuperar o seu gosto? (Foto André Sarria)

O que minha tia reclamava ao vendedor de verduras

Toda semana passava, lá na rua de casa, um “verdureiro”. Ele vinha toda quinta-feira com a carroceria de sua velha Saveiro abarrotada de frutas e verduras. Ainda me lembro de sua voz sonolenta que anunciava o preço do tomate: “traz a bacia minha senhora, que hoje você leva dois quilos…” Um dia desses, escutei minha tia reclamando pra ele que os tomates já não tinham mais o mesmo gosto. Dizia ela que, antigamente, os tomates eram mais cheirosos e que tinham mais gosto do que os de hoje. “Sei lá”, dizia ela, “antigamente, parecia que as fruta e as verdura tinha mais gosto, hoje em dia os tomate não têm gosto de nada, de que adianta ser tão vermelho se são tudo aguado…” Recentemente, saiu na revista Science um trabalho provando exatamente o que minha tia tanto reclamava: “Os tomates …

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Isabelle Huppert: magnífica em "Elle" (Foto Divulgação)

Tudo ao mesmo tempo para Isabelle Huppert

Sabe aquele filme recente com a Isabelle Huppert? Qual? Tem “Elle”, “O Vale do Amor”, “O Que Está Por Vir”… são tantos filmes estrelados pela atriz de 64 anos nos últimos meses que vem a pergunta: como é que ela consegue? A francesa muda de personagem como quem troca de roupa e a cada atuação, além de elogios e prêmios, fica a comprovação de que é uma das grandes atrizes dos nossos tempos. Com seu tipo “comum”, consegue realmente se transformar, o que rendeu a ela o apelido, não sei se maldoso, de “Meryl Streep da França”. Entre os filmes recentes da atriz, o que mais provocou polêmica e, portanto, saiu do circuito cult para se tornar notícia, foi “Elle”. Pela interpretação da fria empresária dona de uma empresa de games que é violentada, Isabelle Huppert chamou atenção e ultrapassou …

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Cacalo_Cavalo e praia 01

Desentendimento com o arame farpado

Alonso Luiz era um primo de terceiro grau. E era filho único e bem gordo – gorduchinho, vai; termo menos cruel de me referir a ele. Depois da chegada de minha família à sua casa, eu e meu irmão aceitamos o convite de Alonso Luiz para um passeio a cavalo em sua fazenda, uma fazenda linda nos arredores de Campinas. Depois de apertarmos a teta da vaca para tomarmos leite, resolvemos sair pelo caminho que Alonso Luiz nos indicava. Ele conduzia o grupo na frente, na condição do proprietário da fazenda, e nós íamos atrás, na qualidade de primos aprendizes. Estava sendo uma cavalgada como nunca tínhamos feito – aliás, era a primeira vez em que andávamos em algo que não fosse carrinho de rolimã. Ele mesmo cuidara dos assentos, dando ordens aos empregados para isso. E fomos embora. Em …

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Crédito: Mark Hillary/creativecommons.org

Êita Via Crucis mais arretada, sô!

Era um grupo de amigos muito unidos e todos cursavam Artes Cênicas na cidade grande. Nos feriados voltavam em peso pra cidadezinha natal e gozavam de um — sejamos honestos — injustificável prestígio por parte dos conterrâneos. Por isso, naquela Semana Santa não foi nada difícil convencer o pároco a deixá-los encenar a Paixão de Cristo pelas ruas do lugarejo e filmar a montagem, pra pontuar como projeto experimental da faculdade. Descolaram o vestuário, os apetrechos cênicos e até ensaiaram. Na Sexta-Feira da Paixão, horas antes da apresentação, armaram o ritual de “concentração”, como não podia deixar de rolar. Só um deles não pode se “concentrar”, justamente o mais bonitão, de olhos azuis, cabeludo, que faria o papel de Jesus: pai separado, era sua vez de ficar de babá da filhinha. Os outros cheiraram uma duna de pó e mamaram …

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