Brasília é linda, intrigante, fascinante, mas às vezes quem está lá se esquece do Brasil real, das ruas (Foto Adriano Rosa)
Brasília é linda, intrigante, fascinante, mas às vezes quem está lá se esquece do Brasil real, das ruas (Foto Adriano Rosa)

MP do Ensino Médio é convite à mobilização estudantil

A classe política – e parte da intelectualidade – não entendeu mesmo o recado de junho de 2013, o de que a sociedade brasileira está farta de corrupção, de serviços públicos ineficientes (diante da carga tributária existente) e da falta de legitimidade do atual sistema de representação. Esta constatação ficou evidente com a Medida Provisória do Ensino Médio, que demonstrou uma total ausência de sensibilidade com o momento histórico que atravessamos e um cristalino déficit de estratégias de comunicação no setor educacional.

As mobilizações de 2013 mostraram que o brasileiro – a exemplo de povos que estão se rebelando no mundo todo – está “por aqui” com decisões tomadas de cima para baixo, de cunho tecnocrático ou meramente de interesse econômico ou deste ou daquele grupo partidário. Os políticos, de maneira geral, não ouviram o clamor das ruas e o resultado é a crise política e econômica em que todos estamos metidos, sem nenhuma perspectiva de término.

Um exemplo da falta de tato com a temperatura das ruas foi a decisão do governo de São Paulo, que anunciou em 2015 uma “reorganização escolar” de cunho autocrático, sem consulta à comunidade educativa, estudantes incluídos. A consequência foi uma escalada de ocupação das escolas estaduais, em movimento que depois acabou se espraiando para outros estados. A imagem dos jovens varrendo as escolas e promovendo aulas livres, para a discussão de tudo, comoveu muita gente, assim como causou raiva, revolta, a visão desses jovens sendo agredidos brutalmente pela polícia.

Mas esse antecedente de forte conotação e impacto popular não foi levado em conta, como é do feitio de alguns acadêmicos e lideranças políticas, e o erro foi novamente cometido, por ocasião da apresentação da MP do Ensino Médio. Desconsiderando a mobilização histórica da Educação, um pequeno grupo decidiu anunciar alterações que afetarão o futuro de milhões de pessoas da forma mais antiquada possível, o uso das malfadadas medidas provisórias, sucessoras dos decretos-lei do regime militar e que são uma das faces negativas do chamado presidencialismo de coalizão.

O erro já começou por aí, mas não se limitou a isso. A divulgação (depois houve um aparente recuo) de que disciplinas como educação física, artes, sociologia e filosofia não seriam mais obrigatórias em parte do ensino médio caiu como uma bomba no colo de educadores e organizações que lutam há anos por uma educação crítica, criativa e de fato coerente com o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Sem falar em itens como a contratação de pessoas de “notório saber”, quando há tempos se fala na necessidade de aprimoramento da formação – e valorização – dos professores, essas molas mestras do ensino e aprendizado em qualquer nação.

Tudo indica que os protestos continuarão, e não é descartado que acabem ocorrendo novas ocupações de escolas públicas, ou outras modalidades de resistência, em decorrência da forma como a MP do Ensino Médio foi divulgada. Essa possibilidade já foi cogitada por alunos ouvidos pela mídia no final da semana passada.

Políticos e scholars estão brincando com fogo. Ou levam a sério a mensagem de que é essencial a completa reformulação do sistema político atual (a sociedade quer participação efetiva nas decisões que lhe dizem respeito), ou serão tragados pelos ventos das mudanças, que continuarão soprando, queiram ou não.

Na área da educação, este aviso é especialmente importante. O desejo de uma nova educação, afinada com o complexo mundo contemporâneo, e efetivamente marcada pela gestão democrática, é cada vez mais latente e crescente. Não haverá saída para a educação sem se considerar essa premissa.

Não há nada mais sagrado que a educação.  Milhões de mães e pais fazem, há décadas, sacrifícios diários para que seus filhos estudem, pois sabem que este é o caminho para uma vida melhor. Os filhos também sabem, tanto que continuam indo diariamente, também aos milhões, para as aulas, mesmo que às vezes as achem chatas, sem sentido, pois acreditam que a escola pode ser mudada e que ela é crucial para sua trajetória.  Ter carinho, cuidado, generosidade, quando se trata dessa área sensível, é o mínimo que se espera de pessoas que leram tanto, que dedicaram tanto de suas vidas a estudar, compreender e tentar fazer algo bom no maravilhoso universo da educação.

 

 

Sobre José Pedro Soares Martins

Mineiro nascido com gosto de café e pão de queijo, ama escrever pois lhe encantam os labirintos, os segredos e o fascínio da vida traduzidos em letras.

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