Junho de 2013, em Campinas como em todo Brasil: o recado ainda não foi assimilado (Foto Martinho Caires)
Junho de 2013, em Campinas como em todo Brasil: o recado ainda não foi assimilado (Foto Martinho Caires)

Eles são (quase todos) bacanas, mas o Brasil não precisa de gurus

A eleição municipal deste dia 2 de outubro tornou-se histórica por vários motivos, mas um deles é o da rejeição crescente ao sistema político vigente, como demonstraram os enormes percentuais de abstenção, brancos e nulos em muitas cidades importantes, como os 40% de São Paulo, superando os votos do candidato vencedor. Esse recado tinha sido dado com força no movimento de junho de 2013 – recado que a classe política insiste em não escutar, como já comentamos aqui.

O cenário favorável à “apolítica” é perigoso, porque incentiva a emergência de “salvadores da pátria”, que volta e meia aparecem e atazanam a vida dos brasileiros. O Brasil não precisa deles, assim como não deveria precisar dos “gurus”, nova classe de intelectuais que, no mundo midiático e das celebridades instantâneas, viraram fenômeno de massa, sendo apreciados à esquerda (mais) e também à direita (bem menos, mas apreciados).

Os primeiros gurus contemporâneos, pode-se dizer, surgiram no meio da literatura de autoajuda, de grande êxito, ainda hoje, nas livrarias sem alma e identidade dos shopping centers. Esse segmento da autoajuda sempre foi muito criticado, e às vezes até ridicularizado, pelo universo intelectualizado, do âmbito acadêmico ou não.

Mas a resistência aos gurus diminuiu quando intelectuais respeitados, à direita ou à esquerda (sobretudo), também foram projetados ao panteão dos conferencistas de sucesso. De algum modo isso é bom – se a mídia projeta coisas absurdas, vazias, ocas, por que não poderia evidenciar personagens que realmente têm algo a dizer?

Acontece que a mesma mídia se encarrega de tornar esses novos gurus em donos absolutos da verdade, e isso é um risco enorme, para eles próprios, inclusive, e alguns deles talvez concordem com essa afirmação. Se há algum ponto positivo na chamada pós-modernidade é que as verdades absolutas definitivamente foram todas desfeitas. Se “todo dia” a física descobre algo novo, se o universo continua em expansão, como crer em verdade absoluta? Se até um papa renunciou, algo impensável em séculos, por que continuar defendendo verdades absolutas?

E não é tão bom não termos verdades absolutas? Pensar livremente, mesmo, sem amarras de qualquer natureza? Claro, isso é um sonho, dificilmente alguém pensaria totalmente livre, sem uma referência, um parâmetro que seja, a tolher ou induzir ideias.

Não, assim como não precisamos (ou melhor, devemos repudiar) de “salvadores da pátria”, também não podemos cair na armadilha de ter fé cega em “gurus intelectuais”, por melhores que eles sejam – e alguns são muito bons, outros nem tanto.  Talvez devamos registrar, sim, um ponto aqui, outro ali, desse ou daquele guru, mas como base para que pensemos, e ajamos, por conta própria. Mas isso será possível em um país que “nasceu” na Contrarreforma, que viveu (?) as trevas da escravidão por cinco séculos e ainda é refém de vários tipos de castas?

 

Sobre José Pedro Soares Martins

Mineiro nascido com gosto de café e pão de queijo, ama escrever pois lhe encantam os labirintos, os segredos e o fascínio da vida traduzidos em letras.

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2 Comentários

  1. Denize Assis

    Muito bom, Zé Pedro.

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