Pescaria

Cacalo FernandesMais interessante que tio Machado era sua mulher, a tia América. Eles não tinham filhos. Mas tinham enteados que zanzavam pelo sobrado o tempo todo. Mas o mais curioso da vida dos Machado era quando saíamos de casa para conhecermos ‑ nós “os caipiras”, como dizia tio Machado ‑ as belezas de uma “cidade idealizada por Deus”.

Tio Machado nos levava em seu carro inglês, bem comprido. No banco do passageiro ao lado, ia tia América. No banco de trás, meus pais. Na traseira, eu e os meus dois irmãos, meu irmão mais velho e minha irmã mais nova.

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E o mais surpreendente é que quando saíamos no carro de tio Machado, antes mesmo de partir, tia América, silenciosa até então, mostrava sua voz, estridente e em alto volume. Era o início da gritaria da tia América. Quem diria? Parecia tão mansa!

Nem bem tio Machado engatava a ré para deixarmos a garagem, ela berrava:

‑ Breca, breca, breca!!!

Eu me assustava e olhava para trás e não via nenhuma obstrução: ninguém passava, nem carro; nada. O carro nem tinha se movido ainda e ele brecava. Tio Machado obedecia à tia América a qualquer gritinho.

Ela dizia em seguida:

‑ Vai, vai, vai!!!

Ele ia devagarinho. Quando estava passando o portão, bem devagar, ela gritava.

‑ Breca, breca, breca!!!!

Era assim nossa viagem: uma gritaria sem fim e um breca e anda incessante. Mas tio Machado era um sujeito calmo. Ele só sonhava mostrar a cidade e o mar para “os caipiras”. Percebi que os berros faziam parte da viagem. Tapei discretamente os ouvidos. Percebi então que os outros viajantes faziam o mesmo, com exceção de meu pai e tio Machado – respeito com tia América.

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E o carrão inglês seguia lentamente. E os homens adultos voltavam a conversar nesses momentos de calmaria. Era uma leveza. Até que, com o carro tão vagaroso que parecia dormente, o mundo acordava com os berros de tia América. Até o carro soluçava com os pés assustados de tio Machado.

Enfim chegamos de volta à casa de tio Machado. Era hora do almoço. Tio Machado deu um sinal para meu pai que chegara a hora de beber uma caipirinha. Cortou pacientemente o limão e começou a preparar as bebidas. Pronto. Perguntou para a minha mãe se ela queria um pouco. Diante da recusa, serviu as caipirinhas para ele e meu pai. Para a tia América, ficou mudo. Só lhe deu um beijo na face. Ia começar.

Começou rapidamente. As conversas iam se animando. Caipirinha, queijinhos, caipirinha, caipirinha, caipirinha. E as falações foram se animando acompanhadas de muitas recordações e rizada. Até que veio uma voz conhecida.

‑ O almoço está na mesa.

Fomos imediatamente. Tia América serviu a comida e um garrafão de vinho tinto.

No final do almoço e do vinho veio a sobremesa. Tio Machado tirou uma uva de um dos cachos. Lavou a uva, cortou a casca delicadamente, com garfo e faca, e deu para minha mãe experimentar. Falou depois:

­­­

— Agora é com vocês, meninos. Vocês viram como eu fiz. Agora façam.

Virou de lado e voltou a conversar. Olhamos bem os cachos de uva. Ordem do tio Machado era ordem. E minha irmã ficou fora das uvas.

Depois, tio Machado voltou a falar, a falar, a falar.

Tia América não abriu mais a boca.

E terminou assim nosso fim de semana na praia.

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Sobre Cacalo Fernandes

Ser paulistano foi o início de uma história de quem certo dia decidiu ser um escrevinhador. Mas quando a calça deixou de ser curta, lá no início, ajudou a construir esse lado que um dia pareceu esquisito. E hoje acho que não poderia ser outro.

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