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Escada rolante em transe

Cacalo FernandesEncostei a cabeça na poltrona do ônibus. Comecei a fechar os olhos.  Era uma sorte para quem nunca sequer “cochilava”. Resolvi nem pensar no assunto. E me deixei levar. Dormi.

Mas acordei logo. Foi apenas um pedaço de sono. Meu vizinho nem tentou se preocupar com o assunto. Preferiu o atropelamento de joelhos. Despertei assustado.

Saí da minha cadeira e o deixei passar. Ele começou a procurar algo no porta-treco do lado de cima. Na verdade, começou a vasculhar tudo que via. E todos acordaram.

Foi quando lembrei-me que no meio da viagem alguma coisa caiu lá de cima. Tomei cuidado, apanhei o  embrulho  e pus lá em cima novamente. Foi o que aconteceu.

Mas não era isso que ele via agora. Ele andava como um louco por todos os assentos. O motorista resolveu acender a luz interna. E enfim meu vizinho achou o que procurava.

Colocou no colo e desde então não tirou os olhos da minha cara. Avisei que pegara o embrulho que caíra no chão e coloquei de volta no lugar que achara correto. Errei o lugar. Só isso.

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Mas ele seguia de olho na minha cara. Era o que faltava! Olhei de volta e falei: “Até mais tarde”! E fingi que dormia.

A viagem seguiu por pouco tempo. Chegamos antes que ajeitasse minhas coisas, ele passou como um relâmpago, arrastando tudo que via pela frente.

Saí então. Enfim sentia um razoável sossego. Peguei a primeira escada rolante. E de repente notei o meu vizinho de viagem lá em cima. Ele também percebera que eu estava ali. Deixei que ele sumisse.

Quando ele desapareceu respirei aliviado. Fui para a segunda escada rolante que tinha que pegar. Foi aí que percebi que ele estava quatro degraus acima. Ele achou que eu o seguia.

Ele resolveu se virar para mim. Agora estávamos frente a frente, a alguns degraus de distância. Percebi que faltava pouca distância quando ele caiu agarrado à sua bagagem. O fim da escada rolante o surpreendeu e ocasionou o tombo.

Então pulei sobre ele, o que todos que vieram em seguida também fizeram. Parecia um jogo de pula-pula de criança. E todos foram embora, talvez revoltados com seu papel durante a noite. Mas fiquei.

Quando todos passaram, disse a ele:

– Está frio aí? Quer ajuda?

Ele só me olhou. E virou de lado.

Dei tchau e fui pra casa dormir.

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Na casa do vizinho, assim que chegou, foi a vez da cena do desabafo. Ele sabia para quem falar:

– Mulher posso dizer que vivi um dia de roubo. Pra ninguém dizer que sou mentiroso: foi um dia de quase roubo. Não fui roubado por um triz.

O ladrão estava de olho naquele testamento que fui buscar e trazia comigo. E me cercou por todos os lados. Mais: “Todos do ônibus eram da mesma trupe”. E…

A mulher já dormia enquanto ele falava.

– Que coisa esquisita! O que será que tem essa mulher?

Sobre Cacalo Fernandes

Ser paulistano foi o início de uma história de quem certo dia decidiu ser um escrevinhador. Mas quando a calça deixou de ser curta, lá no início, ajudou a construir esse lado que um dia pareceu esquisito. E hoje acho que não poderia ser outro.

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