A sorte foi obrigada a acordar

Cacalo FernandesA vida do casal estava perfeita. Tudo caminhava com doçura. Ela trabalhava em casa e ele na rua. Ela lavava e cozinhava como se tivesse uma vara de condão. Ele fazia tudo que podia e um pouquinho a mais. E tornou-se um bom trabalhador. Se havia qualquer problema, a primeira coisa que falavam era “chama o Zeca, ele resolve”.

A vida do casal tornou-se exemplar no bairro em que moravam. E todo mundo chamava o Zeca para o que acontecesse. Se havia um problema com um parafuso, que enroscara e não se movimentava nem implorando, a solução estava nas mãos dele. Privada, lâmpada, fusível; tudo.  A fama de Zeca começou a espalhar-se para os bairros vizinhos.

Quando tinha feira no bairro, é que eles sentiam que a pobreza chegara ao fim. Todo mundo queria trocar uma proza. “Aquele chuveiro está uma maravilha, aquele lâmpada não mais apaga, aquela descarga soltou de vez as bostas emperradas”…

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Um sábado, em que o casal pôde passear pelas ruas do comércio, Zeca descobriu uma camisa linda numa vitrine. Nem perguntou o preço. “Eu quero aquela camisa”. Zelinda – este era o nome dela – assanhou-se: “Eu quero aquele vestido azul”. Zeca achou que estava grande. Ela argumentou então que estava grávida de um menino, o primeiro depois de três meninas.

“Vai chamar-se Zequinha!”, ele gritou. Ela jogou-o contra a vitrine e garantiu: “Vai ser o caralho! O nome dele será Josselino. Não é lindo”? Ele viu seu sonho ir por agua abaixo. Mas olhou bem para Zelinda e comentou: “É lindo”. E ela deixou Zeca escorregar pela vitrine.

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Era o tempo da fartura. Ela só ficava de olho na televisão. “Olha que lindo brinquedo para a Joanina! olha que lindo brinquedo para a Zezinha!, olha que lindo o brinquedo para a Antônia!,  olha o lindo brinquedo para quando o Josselino nascer”!.

A vida foi assim delicada à espera do macho. Zelinda passava a maior parte do tempo em frente à televisão. E Zeca não saía do trabalho, e comprava presentes que Zelinda encomendara para as filhas e para o filho que estava escondido na barriga da mãe. E voltava para o trabalho.

Um dia Zelinda ficou com muita pena do marido. Como podia trabalhar tanto? E resolveu ir até o lugar onde dissera que era seu serviço. Já estava noite. E não havia sinal do Zeca. Pensou, pensou, e resolveu procura-lo na zona de prostituição. Não sabia de onde viera aquela ideia. Mas foi.

Abriu a porta. Tudo estava um pouco escuro. Mas notou alguém parecido com seu marido. Chegou mais perto. Era ele mesmo que dançava com uma rapariga toda assanhada. Voltou para a entrada da casa, pegou o machado que trouxera e partiu para o ataque.

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O machado não se cansava nunca. Era pancada para todos os lados. O primeiro a ser atingido foi o lustre do teto. Depois os vidros das janelas e em seguida todos os vidros e qualquer objeto de madeira que via pela frente. Cansada, falou: “Zeca, vamos para casa”.

Zeca só pensava durante o caminho, em que Zelinda o carregava com força pela mão, como ele iria sair daquela barca furada: “Como vou pagar três anos de prestações da Casas Bahia, prestações que foram repicando sem parar e tornaram-se gigantes? Ele estava agora na pindaíba.

Mas a mulher sorria e estava calma.

Era mesmo curioso. Mas estava calminha, calminha.

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Sobre Cacalo Fernandes

Ser paulistano foi o início de uma história de quem certo dia decidiu ser um escrevinhador. Mas quando a calça deixou de ser curta, lá no início, ajudou a construir esse lado que um dia pareceu esquisito. E hoje acho que não poderia ser outro.

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