Adrenalina

carlaozinho_0256_400x400Hibernados em lan houses bem distantes entre si, Ahgrr Awa e Sepza Trinchyey-A seguiam a rotina diária, que ora determinava a vitória de um, ora a do outro, indistintamente. Apesar do generoso estoque de bebidas energéticas, barras de chocolate e comprimidos de metanfetaminas que jazia aos pés dos consoles, tinham a inequívoca certeza de que aquele exercício não passava de um pálido arremedo das grandes aventuras que viviam antigamente, antes do decreto de proibição baixado pela Federação do Sistema Galáctico Anphro-12.

Infelizmente, por enquanto se viam obrigados a se restringir aos prosaicos videogames terráqueos de combates espaciais. Até para não enferrujarem de vez. E até que conseguissem, durasse o tempo que durasse, restabelecer a tecnologia que os permitiria alcançar os céus de novo, gloriosamente.

Os competidores esportivos de combates sub-orbitais irritavam a federação havia muito tempo, já que escancaravam precocemente a existência de inteligências aliens a mundos subdesenvolvidos, além de constituírem um risco de retaliações imp0nderáveis, mas possíveis.

O grande problema é que a maioria desses caçadores de emoções escolhia sistemas planetários pouquíssimos desenvolvidos em matéria de exploração espacial, sob a expectativa de plateias mais interessantes; em mundos evoluídos, as estrepolias sub-orbitais já eram consideradas uma tolice, mal merecendo o status de esporte.

No caso de Ahgrr Awa e Sepza Trinchyey-A, o agravante foi escalarem um planetinho telúrico orbitante de uma estrela amarela de quinta grandeza e, como se não bastasse, valendo-se de um buraco de minhoca, deram para se exibir numa época (segundo o referencial cronológico vigente no planeta) que antecedeu em um século a invenção do primeiro telescópio (o que dirá então do início das excursões espaciais mais primárias ou mesmo da primeira experiência com flutuação de objetos mais pesados que o ar…).

A ousadia certamente constituiu um fator determinante para o draconiano decreto proibitivo da Federação do Sistema Galáctico Anphro-12.

Em consequência da linha dura, mais do que um competidor preferiu se exilar voluntariamente em outros planetas menos evoluídos tecnologicamente, até que conseguissem meios para voltar ao jogo. E Ahgrr Awa e Sepza Trinchyey-A resolveram se refugiar justamente… no planeta chamado Terra. Afinal, sua morfologia era indistinguível da dos humanos dominantes naquele mundo.

(Crédito: Hans Glaser/reprodução)
(Crédito: Hans Glaser/reprodução)

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É, justamente a Terra, onde haviam cometido sua polêmica travessura. Nos anais da Federação do Sistema Galáctico Anphro-12 estava registrado que em 14 de abril de 1561 (cronologia da Terra), na localidade de Nuremberg, Alemanha, testemunhas relataram um “horripilante espetáculo no céu”. Existe um registro do caso, elaborado pelo artista Hans Glaser em 1566, que hoje se encontra na Zentralbibliothek (Biblioteca Central de Zurique), na chamada Suíça.

Segundo Glaser, durante cerca de uma hora, logo após o amanhecer, os habitantes de Nuremberg teriam assistido a uma “batalha envolvendo cilindros de grande tamanho que lançavam bolas azuis e negras, cruzes cor de sangue e tubos de vários tamanhos equipados com esferas, um contra o outro”.

As testemunhas também teriam visto uma “imensa figura alongada, parecida com uma lança em meio a tudo isso, e relatado que os objetos teriam “queimado ou explodido no céu ao se aproximar da Terra e desaparecido em meio a uma espessa nuvem de fumaça”.

Coincidentemente, o fenômeno celeste da cidade suíça de Basileia teria acontecido no mesmo ano que o registro sobre o suposto incidente de Nuremberg foi criado — isto é, 1566 —, e o documento que descreve o caso, desta vez de autoria de um homem chamado Samuel Coccius, também se encontra na Zentralbibliothek. Segundo o relato, o avistamento teria acontecido nas primeiras horas do dia 7 de agosto.

De acordo com o relato de Coccius, naquele dia “esferas negras” teriam sido vistas “voando de forma frenética no céu, realizando manobras mirabolantes e colidindo umas contra as outras como se estivessem no meio de uma batalha. Além disso, várias das bolas voadoras teriam se tornado vermelhas e incandescentes — e desaparecido após serem consumidas pelo calor”.

Sim, algumas vezes, os combates sub-orbitais resultavam na eliminação física do oponente derrotado… imbuídos de “espírito esportivo”, os competidores até tentavam evitar tal desfecho, porém nem sempre dava certo.

(Crédito: Hans Glaser/reprodução)
(Crédito: Hans Glaser/reprodução)

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Findo mais um dia de masturbação digital, Ahgrr Awa e Sepza Trinchyey-A se despediram por e-mail. “E aí, pensou numa forma de voltarmos ao jogo verdadeiro?”, perguntou um, como de praxe. “Nada ainda, nobre adversário… acho que avançaríamos mais se não perdêssemos tanto tempo em lan houses”, respondeu o outro, como de praxe. “Tem razão”, encerrou o interlocutor, como de praxe.

Com os olhos ardendo e a tendinite comendo solta, foram cada um para suas casas, descansar um pouco: afinal, pela manhã, teriam que retomar os ganha-pão, um como chapeiro de uma lanchonete fast-food, o outro como controlador de qualidade de produção de uma fábrica de cuecas. Profissões modestas, escolhidas justamente para não chamar atenção sobre eles.

Ao fim do expediente, estariam de volta às lan houses da vida, empenhados no arremedo dos tempos de glória.

(Crédito: Stockbild)
(Crédito: Stockbild)

 

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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