Abram alas para o bloco dos patetas

carlaozinho_0256_400x400Pra mim, Carnaval e jornalismo passaram a ser palavrinhas difíceis de juntar depois de um certo episódio. Eu, que editava a capa do extinto e saudoso Diário do Povo, de Campinas, e o editor de fotografia dávamos tratos à bola pra parir uma manchete que não escancarasse tanto a pobreza plástica e conceitual que vitimava mais aquele Carnaval da nossa Região Metropolitana. Foi aí que o repórter e o fotógrafo chegaram à redação, eufóricos, mandando “parar as máquinas”, porque tinham a “grande matéria”.

Apesar das caras amassadas deles, rescendendo a bebedeira incomensurável da noite anterior, nosso desespero era tal que fomos todos ouvidos pros intrépidos enviados a folia. O relato impressionou: imagine que uma escola de samba da região teve a coragem e a criatividade de homenagear o Galo de Ouro, o lendário bordel do Jardim Itatinga, onde, conta-se, texanos em folga dos negócios internacionais acendiam charutos com notas de US$ 100,00. Frente à decadência que corroía o velho Itatinga, era um resgate histórico e tanto!

Crédito: David Merrett/creativecommons.org
Crédito: David Merrett/creativecommons.org

Aliviados, “vendemos” a ideia ao editor executivo, que deu sinal verde: até que enfim íamos sair com uma manchete carnavalesca local de peso. Pusemos a mão na massa: sob o gritante título “A volta do templo do prazer”, colocamos a foto da destaque da escola, explicando que aquela mocinha representava as “sacerdotistas insaciáveis” do tal templo. O cronista, que vivia reclamando de falta de assunto, foi conferir o que era aquele burburinho no aquário do editor executivo e, assim que ouviu a história, voou ao computador pra escrever um texto inspirado. A capa foi reforçada por uma crônica, na página de opinião, detalhando sem frescuras o apimentado cotidiano do Galo de Ouro. Tudo estava completo. Salvos por Momo!

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Crédito: Indiana Humanities/creativecommons.org

No dia seguinte, a quarta-feira pareceu ter desabado sobre nós ainda mais cinzenta que de costume, quando uma comitiva de carnavalescos com caras de poucos amigos irrompeu na redação. A explicação soou como uma marcha fúnebre: Galo de Ouro era só o nome da escola de samba e a relativamente jovem diretoria sequer tinha ouvido falar na existência do mítico puteiro. O máximo de prazer a que o enredo aludia era à inocente fabricação de cerveja. E a moçoila a quem demos o título de sacerdotisa do furunfunfum era filha única do presidente da agremiação e estava com casamento marcado para março. Foi a errata mais cabeluda que tivemos que amargar na vida.

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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2 comentários

  1. Não sei se para o bem ou para o mal, mas eu estava de folga nesse Carnaval.

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