Cães usam bússolas para se aliviarem

Andre_PB_400x400Meu amigo Rafa sofre bastante com sua dálmata Hemy. Ela tem prisão de ventre, e meu amigo tem de estar sempre disposto a atender a Hemy que, por muitas vezes, decide se aliviar em horários um tanto quanto inesperados, como às duas da madrugada.

Quando Hemy anuncia seu desejo, ele desce com ela e, pacientemente, aguarda ela se aliviar, o que não é rápido, pois Hemy enrola bastante: ela dá uma cheirada numa flor, se coça, dá uma volta, gira um pouco, olha para o céu, boceja, olha para o Rafa, abana o rabo e, finalmente, se alivia – e assim meu pobre amigo pode voltar a dormir novamente. Talvez Hemy não sofra exatamente de prisão de ventre. O problema talvez seja que Hemy esteja com dificuldade de se alinhar com o campo magnético do planeta.

Pode parecer loucura, mas pesquisadores alemães e da República Checa descobriram que cães têm uma grande sensibilidade para perceber, até mesmo, pequenas variações no campo magnético do planeta. Em outras palavras, eles somente se aliviam quando seus corpos estão alinhados com o eixo Norte-Sul magnético do planeta.

Post do Rafael e sua luta diária
Post do Rafael e sua luta diária

O trabalho envolveu 70 cães de 37 raças diferentes, e os pesquisadores observaram os animais defecarem por 1893 vezes e urinarem por 5582 vezes durante um período de dois anos. Depois, eles organizaram os dados e fizeram comparações com a posição do campo geomagnético do planeta Terra daquele dia. Eles descobriram que cachorros preferem se aliviar com seu corpo alinhado com o eixo Norte-Sul e utilizam o campo magnético do planeta para se guiarem, pois, de alguma maneira, os cães sabem a exata posição do campo. Além dessa descoberta, existe outra ainda mais marcante: não importando as condições do campo magnético, eles, descaradamente, não se aliviam alinhados com o eixo Leste-Oeste.

Não é surpresa nenhuma que alguns animais se guiam de acordo com o campo magnético do planeta Terra, como os pássaros, pois essa capacidade é de extrema importância para eles se orientarem durante uma imigração. Isso é chamado de receptor magnético, e muitos animais o possuem. É muito difícil explicar como funcionam esses receptores, e uma das hipóteses é a presença do óxido de ferro, que foi descoberto em bactérias no abdômen de abelhas e nos bicos de pássaros. O ferro é o metal mais magnético que existe no planeta. Esse mineral magnético poderia ser o sensor pelo qual alguns tipos de animais, literalmente, sentiriam o alinhamento; assim como a atração e a repulsão em um imã.

Outra possibilidade é que o senso de detecção venha de uma proteína, chamada de criptocromo, encontrada na retina de alguns animais e pares de elétrons de moléculas sensíveis à luz poderiam ter sua reatividade afetada pelo campo magnético, tornando, então, o campo algo que seria visto ao invés de sentido.

O trabalho mostrou, pela primeira vez, que cachorros possuem essa característica, e os pesquisadores dizem que é ainda um mistério o porquê de os cães fazerem esse alinhamento e também de que maneira eles detectam o campo magnético, se é algo consciente (se eles realmente sentem o campo magnético) ou se é uma percepção inconsciente, algo que faz com que eles se sintam melhores e mais confortáveis.

Se eu fosse meu amigo, eu aproveitaria essa vantagem de sua dálmata para não se perder na estrada quando ele for a alguma pescaria, pois bastaria ele esperar a Hemy se aliviar, porque, com certeza, o traseiro dela apontaria para o sul.

O Trabalho (em inglês) “Dogs are sensitive to small variations of the Earth’s magnetic field” pode ser encontrado no site da revista Frontiers in Zoology

https://frontiersinzoology.biomedcentral.com/articles/10.1186/1742-9994-10-80

 

E aqui a Hemy (Foto arquivo pessoal Rafael)
E aqui a Hemy (Foto arquivo pessoal Rafael)

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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