Paradeiro

carlaozinho_0256_1200x600Não eram maltratados, isso o rapaz era obrigado a reconhecer. Tinham alimentação balanceada, acomodações razoáveis e até atividades de lazer. Claro que, além da sacanagem de terem sido, de alguma forma, sequestrados, havia inconvenientes típicos de um campo de concentração, mesmo um hi-tech como aquele. As filas no refeitório, por exemplo, eram absurdas: naquele momento mesmo, o local estava apinhado pelos 3 mil soldados chineses que juravam terem sumido no ar em 10 de novembro de 1939, durante a guerra sino-japonesa!

Após anos de convivência forçada, as barreiras linguísticas/culturais e as inibições cediam naturalmente, o que permitiu ao rapaz conhecer a história contada e recontada pelos chineses. Segundo eles, tudo aconteceu quando estavam acampados próximos a uma frente de combate, sob o comando do coronel Li Fu Sien. Quando seus equipamentos de rádio deixaram de transmitir, as equipes de busca logo acionadas encontraram tudo em perfeita ordem no local: as armas e também os restos das fogueiras. Os japoneses negaram ter capturado aqueles homens, até disseram que nunca tiveram contato com eles. Foi apurado também que não desertaram.

Aliás, o confinamento de contingentes militares naquele lugar maluco era até comum. Outro caso impressionava ainda mais, por supostamente ter contado com centenas de testemunhas: em 28 de agosto de 1915, durante a 1ª Guerra Mundial, 400 soldados britânicos, do regimento First Fourth Norfolk, que enfrentavam forças turcas em Gallipoli, na Turquia, teriam sumido ao penetrarem numa nuvem densa que se formara no topo de uma elevação denominada Morro 60, contrastando com o céu extremamente claro, num dia banhado por um sol radiante. Finda a guerra, o governo inglês exigiu da Turquia a imediata devolução dos seus soldados, oficialmente dados como desaparecidos. A resposta foi, porém, lacônica: a Turquia jamais tomara conhecimento da existência daquele regimento e muito menos o capturara…

Férias fatídicas

Ante relatos tão fantásticos, a desventura do rapaz até soava prosaica. Além de ser bem mais recente: há poucos anos, em férias com a noiva, atravessavam as rasas águas do desaguadouro do Rio Martim de Sá, na Praia de Caraguatatuba, quando ele se evaporou no ar, como se tivesse cruzado uma porta invisível para o desconhecido, diante do olhar incrédulo da moça.

Extensas buscas realizadas por autoridades policiais e também pela montadora multinacional de automóveis da qual ele era funcionário nada encontraram. Supondo tratar-se de areias movediças ou que talvez uma cratera que o tivesse tragado, até estudos geológicos do local foram procedidos, mas nada se apurou.

Crédito: Renaud Camus/creativecommons.org
Crédito: Renaud Camus/creativecommons.org

Ilustres desaparecidos

Aliás, histórias bombásticas capazes de obscurecer o drama do rapaz era o que não faltavam. Como toda a aldeia esquimó Angikuni, cujas centenas de habitantes desapareceram sem deixar o mínimo vestígio. O estranho fato teria se dado em 1930, ao norte do Canadá, quando tudo foi encontrado nos seus lugares: alimentos, roupas e armas. Todos os homens, mulheres e crianças, porém, simplesmente se evaporaram, somente ficando amarrados e sendo achados, quase mortos de fome, sete cães.

Porém, o rapaz não demorou a sacar que nem todos os casos envolviam ilustres desconhecidos, mesmo que aos milhares. Ele ficou sabendo de episódios emblemáticos. Por exemplo, o dito navio fantasma Holandês Voador, espectro temporal que costuma assombrar os navegantes: aquela imensa caravela, originária do Século 17, e que fora comandada pelo capitão Van Der Straten, misteriosamente desaparecida com toda a sua tripulação em meio a uma tempestade no Cabo Horn, costuma surgir por breves instantes nas rotas até mesmo dos navios militares e dos grandes transatlânticos modernos (sem todavia ser assinalado nas telas de radar, os quais costumam registrá-la nos diários de bordo como “miragem”). As lendas dizem que seu capitão (que seria adepto de práticas de magia negra) fora castigado por uma maldição divina, condenado assim a vagar sem rumo por toda a eternidade, juntamente com a toda a sua tripulação. Mas se é que é mesmo uma miragem, aqueles que o viram, contudo, dizem parecer bem real: são perfeitamente visíveis os contornos do grande barco-espectro na sua fantasmagórica escuridão, envolvida por uma sinistra aura avermelhada.

— É, o navio deu um jeito de voltar, ao contrário de mim e da minha tripulação… Mas, a parte da magia negra é pura invencionice! — foi o que rapaz ouviu um dia, da boca de um sujeito que se apresentou como sendo o próprio Van Der Straten.

Outro caso em que, aparentemente, um veículo envolvido num desses sumiços parece dar as caras mundo afora teria envolvido um ex-piloto alemão, na verdade um ás da 1ª Guerra Mundial, Manfred Von Richtofen, conhecido como “Barão Vermelho”. Seu avião, um Fokker totalmente pintado de vermelho (daí o seu cognome), ostentava o emblema de um círculo voador, que identificava o seu famoso e temido piloto, responsável pela destruição de muitos aviões aliados. A sorte de Von Richtofen acabou, porém, quando um certo capitão Brown teve mais perícia do que ele e o abateu sobre a França.

— Oficialmente, meus “restos mortais” teriam sido repatriados pra Alemanha, onde receberam altas honrarias militares. Só que eu vim parar neste inferno, onde vegeto até hoje. — afirmou o cara que dizia ser o próprio Von Richtofen.

— Até que em 1940, um avião militar pilotado pelo tenente Grayson efetuava patrulha noturna sobre Dover quando avistou outra aeronave, antiga e desconhecida, que se situava distante, bem na sua lateral. Partindo em manobra de interceptação, o tenente Grayson chegou bem perto e percebeu que a estranha aeronave não fazia qualquer ruído. A luz do luar deixou-a ainda mais assombrada, ao notar, pouco antes de o estranho espectro sumir no ar, que o mesmo era todo pintado de vermelho, ostentava a cruz de ferro da Alemanha Imperial e também um círculo voador na sua fuselagem! — continuou o “Barão Vermelho”.

Crédito: Hans Glaser/creativecommons.org
Crédito: Hans Glaser/creativecommons.org

O verdadeiro mistério

Uma das comodidades do campo de concentração era a existência de uma espécie de sistema televisivo, o que permitia aos prisioneiros se informar sobre as novidades na Terra — sim, eles estavam convencidos de que aquele lugar, fosse o que fosse, só poderia estar situado em outro planeta. Assim, ficaram sabendo que cientistas terráqueos mais de vanguarda já consideram a hipótese de “portas induzidas”, segundo a qual certos lugares teriam a propriedade de desencadear tais fenômenos, num “efeito túnel”, que afetaria dobras dimensionais e alteraria os conceitos e padrões conhecidos do espaço/tempo.

Não que os prisioneiros fossem especialmente interessados em exercícios teóricos. A grande pergunta que pairava sobre eles, na verdade, era: por que os captores nunca se revelavam?

Porque isso poderia comprometer enormemente a operação toda, submetendo-os a rígidas penas acadêmicas. Jovens estudantes de Estudos Avançados de Megafísica, haviam iniciado a coisa como uma brincadeira. E tempos depois, incrementaram a prática, elevando-a ao status de competição, para ver quem conseguia a abdução mais extraordinária. E ainda sob a mais absoluta clandestinidade, para não atrair suspeitas do corpo docente.

— Acho que deveríamos parar, antes de nos ferrar… — ponderou um estudante.

— Tá brincando? Agora é que a bagaça tá ficando mais emocionante! — retrucou uma colega.

 

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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