Questão de família

carlaozinho_0256_1200x600Como sempre, bebeu e cheirou como se não houvesse amanhã. E, como sempre, tombou “heroicamente” no primeiro vão que a cidade fria lhe oferecia. Sim, estava “curtindo” mais um rompimento amoroso: afinal, que mulher aguentaria tanta manguaça e falta de plumo?

Meio que acordou por força das botinadas obstinadas que sentiu estar recebendo, mas os olhos ainda estavam nublados pelos resíduos dos excessos a que se dera o luxo antes de desmontar na calçada (como sempre). Assim, conseguiu vislumbrar apenas a silhueta do cara alto que o fitava, as mãos enluvadas alojadas arrogantemente na cintura.

Mesmo após recobrar um pouco mais da consciência, não entendeu bem o que via: o cara vestia uma roupa estranha, que emitia certos brilhos que pareciam brincar de pique-esconde com a pouca luz emitida pelo poste mequetrefe. Semblante duro. Cabelos grisalhos, denotando ser mais velho que ele, que já lambia sarjetas mal tinha completado 20 anos de idade.

— Levante. Precisamos conversar. — rugiu o estranho.

— Aí, esquisito, quem te deu o direito de foder com minha soneca? Quem é você e que merda quer comigo? — reagiu, porém já tratando de reassumir a postura ereta, com uma dificuldade do caralho.

A voz do sujeito soou sinistramente cava:

— Vamos por partes, até porque não sei o quanto você está capaz de entender o que quer que seja, no estado em que está: você pode duvidar de imediato, ou atribuir a teus delírios alcóolicos/cocainômanos. Por isso, engula duas dessas. — e o cara lhe passou um frasco com diminutas pílulas translúcidas.

Sem medir muito as consequências, obedeceu. De imediato, o sol severo da lucidez irrompeu em sua mente. O estranho explicou:

— São compostos restauradores. Agora, sim, podemos conversar.

— Ué… então vamos.

— Pra começar, vim do futuro.

— Ih… acho que essas porrinhas não restauraram foi nada!

— Restauraram sim, pode crer. Venho do ano 2076.

Como a boca do ouvinte ficou travada, o estranho tentou esclarecer:

— Até lá, desenvolvemos a tecnologia da viagem no tempo.

— Cara, isso é impossível. Os físicos mais sérios dizem que é…

Crédito: Tatiana Popova/Pexels
Crédito: Tatiana Popova/Pexels

— De quando eu venho, muitos tabus científicos caíram por terra. Com as viagens temporais isso se verificou com celeridade impressionante. As, por muitos séculos, persistentes reservas dos chamados “físicos sérios” ao conceito tiveram que tirar o time de campo quando, finalmente, foi localizado e mantido em monitoramento constante um genuíno buraco de minhoca nas imediações do buraco negro no centro da Via Lacta. De dimensões suficientes para ser atravessado por uma nave compacta mas veloz. A partir disso, foi mole pros gatos: já mandamos tripulações inteiras para incursões temporais.

Contando com a boca aberta do ouvinte, o cara continuou:

— E sabe um detalhe importante? Necas de evidências de que viajantes temporais só poderiam aportar em “realidades paralelas”: já nas primeiras experiências, fora nocauteada a grande lenda, pois os viajantes chegavam na exata linha temporal de onde haviam partido. A teoria M ainda não foi de todo descartada, porém “universos alternativos”, não, até o momento, não existe comprovação.

E mais:

— Conhecer o futuro até se tornou uma espécie de esporte mundial. E com o bônus de se poder aconselhar a correção a tempo para os patrocinadores dos deslocamentos, em “tempo real”, sobre cagadas que, acumuladas, poderiam desembocar em catástrofes. Lógico que o povo do futuro visitado colabora alegremente, fornecendo as informações e as soluções tecnológicas necessárias. No entanto, por aí residia o motivo de entrave no programa: até então, nos limitávamos a incursões ao futuro. Não que a possibilidade de viajar ao passado não se tornasse teoricamente viável: tornara-se sim, desde que descobrimos aquele arranjo geocósmico exótico, bem pertinho do buraco de minhoca. O que puxava os freios eram as incertezas ainda ditadas pelos tabus antigos, melhor dizendo, os ditos “paradoxos” tão cultuados pela ciência antiga.

Mesmo percebendo que o outro já não conseguia seguir tão facilmente a linha de raciocínio, o estranho prosseguiu:

— Dentre esses, certamente o menos importante, havia aquele que dizia respeito à alegada impropriedade de se deslocar qualquer massa intertemporalmente sem que os extremos do “trajeto” se ressentissem da quebra do equilíbrio causada pela subtração ou adição súbitas de matéria. Ora, basta que um escambo temporal seja programado simultaneamente à experiência, de modo que, a cada chegada de uma “carga”, massa e peso atômico de material equivalente — mesmo que não passasse de sacos com amostras particularizadas extraídas mineralmente — seja despachada, via buraco de minhoca, para o ponto temporal que ficaria em “déficit”. A computação quântica e o programa de extração ultra-rápido davam conta. Certo que não abusávamos: estávamos longe ainda de nos arriscar a deslocar tripulações numerosas e grandes tonelagens de equipamentos, muito menos cidades inteiras; um único viajante, a bordo de uma nave compacta, afinal, era só do que precisávamos, ao menos por ora.

— Cara, chega logo ao ponto, ‘cê tá zoando minha cabeça, com pílulas restauradoras ou não…

— Bem, o que continua pegando é justamente o paradoxo mais popular: o do avô. Aquele que estabelece: se alguém puder voltar ao passado, poderia assassinar o próprio avô, anulando, assim, sua própria existência no futuro; Então, como poderia viajar ao passado, já que simplesmente não existiria? E, uma vez que linhas temporais alternativas não resistiam a um escrutínio mais moderno, eis que tínhamos ali, realmente, um dilema duro na queda.

— Sei…

— Até que resolvemos ousar. Escudando-nos na falta de evidências de que realmente imperaria no cosmo a tal “lei de proteção cronológica”, enunciada um dia pelo genial porém vetusto Stephen Hawking, resolvemos ousar. E preparamos a primeira tentativa de incursão ao passado. E a experiência teria que ser imensamente radical. Ajuda em muito a mudança abrupta dos parâmetros morais/éticos da sociedade como um todo.

— ?

— Agora, duas revelações. Primeira: você é meu avô.

— Como pode, cara? Eu tenho 20 anos, sou um cachaceiro que nem consegue manter mulher, e você deve ter o dobro da minha idade!

— Lembre-se: venho de 2076. Em mais alguns anos, você tomará um rumo mais tranquilo. Vai se casar, ter filhos e netos. Você morreu quando eu ainda era pequeno, mas nunca esqueci os passeios nos parques a que você me levava…

— Que bonito… mas você disse que eram duas revelações…

— Pois é: eu vim te matar.

Tinha interagido com o estran… vovô tempo suficiente para se borrar de medo:

— Qualé, neto, ‘cê não pode fazer isso, somos família, né não?

Crédito: Pawpaw67/creativecommons.org
Crédito: Pawpaw67/creativecommons.org

— Sinto muito, mesmo, mas sou um oficial da Força de Investigação Temporal; sigo ordens, que inclusive me foram impressas genicamente…

— E que raio de vantagem, vocês tiram disso?

— Ora, provaremos ou não a validade do paradoxo do vovô.

O neto vomitou de nervosismo, antes de conseguir balbuciar:

— Porra, meu, você não pode matar um cara, ainda mais um que você mesmo acredita ser seu avô, só pra testar uma hipótese maluca!

— Posso e vou. — na sequência da resposta fria, o cara sacou uma arma, que pelos detalhes coloridos, parecia mais um brinquedo. Mas que na verdade era uma Pulser 300F, a rainha das pistolas de plasma.

Entre tremores e mais acessos de vômito, ainda apelou:

— Vei… ah, neto, não te dizem nada nossos momentos felizes passeando no parque?

— Já te falei que os parâmetros morais/éticos da humanidade mudaram com o tempo. E nós, oficiais da Força de Investigação Temporal, somos especialmente brindados contra sentimentalismos primários. Sinto muito, vovô…

Mesmo prevendo que não tardaria para que aquela arma bizarra o reduzisse a pó de nada, resolveu arriscar uma última cartada. Animou-se um pouquinho ao perceber — ou pensar perceber — que o grandalhão dava uma leve hesitação ao gatilho:

— Mas, afinal, o que você ganha se me matar?

— Ora, gratidão da ciência, quer motivação maior? Se eu continuar existindo, provarei que o tal paradoxo do vovô não passa de uma superstição. Caso contrário…

Enfiou na cabeça desesperada que o estranho estava gastando muita saliva, o que poderia ser favorável… tentou ganhar tempo:

— Caso contrário o quê?

— …caso contrário, eu me fodo tanto quanto você. Pra você, talvez, ficar mais conformado, nesse caso, tenho tanto a perder quanto você, certo?

— Ah… não, certo porra nenhuma.

Mobilizando o pouco do que lhe ofertava seus bofes exauridos, comemorou mentalmente quando o ser ameaçador, após alguma vacilação, abaixou a arma. Pareceu meditar por um instante, deu um suspiro triste, e disse, resignadamente:

— Certo, vô, não vou te matar.

Aparentando indiferença às manifestações de alívio de sua quase vítima, perdeu-se em pensamentos sobre como elaboraria seu relatório para os chefes da Força de Investigação Temporal. Conseguiu esboçar um começo: “O propalado paradoxo do avô não deve ser considerado seriamente um impeditivo a excursões ao passado. Mas não pelos motivos imaginados até agora: é que, pela minha experiência, mesmo com todo o condicionamento a que os agentes são submetidos, nenhum deles terá coragem de matar o próprio avô”.

Deixando o resto para mais tarde, dirigiu-se de novo à quase vítima:

— Vamos, vô, levanta daí. Por mais que as pílulas restauradoras prometam milagres fisiológicos, certas verdades não mudam com o tempo: a melhor forma de curar uma ressaca é com o chamado “fogo de encontro”. Vamos tomar umas!

E, alegremente, pegaram o rumo do boteco mais próximo. Como se antecipassem os passeios no parque que realizariam um dia.

 

 

 

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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