Cor de rosa dá permissão às meninas

Andre_PB_400x400Quando eu tinha 10 anos fui passar as férias escolares na casa de meus tios. Naquele ano, época de natal, a prefeitura iria presentear todas as crianças com brinquedos, e as opções eram bolas para os meninos e ursos de pelúcia para as meninas.

Aguentei firme a ansiedade e, após “anos” de espera, chegou o grande dia do papai Noel. Acordei cedo e, antes mesmo de o sol começar a esquentar, a fila em frente à prefeitura já estava enorme. Ganhar um brinquedo valia a espera, a fome e o calor. Quando chegou minha vez, os brinquedos todos haviam acabado. Os organizadores então fizeram uma lista de espera para aqueles que ficaram de fora.

Nome anotado, bastaria esperar outro “século” para receber o ursinho. Não mencionei, mas meu desejo era ganhar um urso de pelúcia ao invés da bola.

“Você escolheu um ursinho?” disseram meus irmãos mais velhos. “Deixou de lado uma bola de capotão, pra ficar com um ursinho?”

Claro que o interesse dos meus irmãos era pela bola, mas para meus colegas de colégio aquela escolha era, sem dúvida, coisa de mulherzinha. Até eles começaram a caçoar de mim. Ter escolhido o ursinho não me parecia nada demais, mas, a partir dali, o urso passou a pesar, comecei a me envergonhar por ter escolhido ele, eu estava estranhamente culpado e a vontade de tê-lo se perdera entre as risadas dos colegas de classe. Passei a odiar aquele maldito urso.

Algumas semanas depois, meu tio veio me trazer o presente, e, desgraçadamente, o urso era cor de rosa. Fiquei horrorizado só de imaginar em ser visto segurando aquela aberração rosa, por isso, corri para escondê-lo, e assim ele ficou, escondido no fundo de um guarda-roupa velho. Nunca brinquei com ele; anos depois ele foi encontrado e doado.

(Pink Teddy CC0 Creative Commons)
(Pink Teddy CC0 Creative Commons)

Lembrei dessa passagem em minha vida quando estava lendo que a John Lewis, uma das maiores lojas de departamentos da Inglaterra, decidiu tirar das etiquetas de suas roupas para crianças os gêneros feminino e masculino. Agora as etiquetas vêm descritas “para Meninas & Meninos” ou “para Meninos & Meninas”. A decisão foi tornar-se a primeira loja britânica de roupas a oferecer exclusivamente roupas sem gêneros para crianças abaixo de 14 anos e abolir os estereótipos existentes entre os sexos.

Sem dúvida, foi uma decisão bastante radical, pois roupas vem definindo o gênero sexual por séculos. Nossas avós aprenderam com suas avós que azul é cor de menino e rosa é cor de menina.

A diferenciação de gênero nasce bem antes do bebê, ainda na barriga da mãe. Ele começa no instante seguinte em que se descobre o sexo do bebê, e é ele quem irá ditar as regras de vida: o que a criança será e como irá se comportar. Lembre-se de que princesinhas não jogam bola, hein!

Gênero é mais complexo do que diz a anatomia externa, gênero não tem necessariamente ligação com o sexo da criança. Crianças não saem do útero com expectativas sobre suas carreiras futuras, ou acreditando qual trabalho é mais adequado de acordo com o seu sexo, mas as fazem a partir dos estereótipos que estão ao seu redor, com coisas que aprenderam desde cedo, e tudo começa com seus brinquedos e o que lhes é dito a respeito deles.

Cientistas têm mostrado que as crianças já têm uma clara ideia sobre qual brinquedo é mais adequado para meninas e quais são para meninos. As indústrias impõem isso: muitos pais se sentem desconfortáveis e inseguros em comprar para seu filho um brinquedo indicado para meninas e vice-versa. Crianças deveriam decidir por elas mesmas o tipo de brinquedo que elas pensam ser divertido. Essas fronteiras impostas, muitas vezes, são rígidas, e levam para bem longe as verdadeiras preferências das crianças e, ao haver divisão entre meninos e meninas, estamos alimentando o crescimento de um campo fértil para o bullying.

Existem muitos trabalhos científicos envolvendo brinquedos e suas preferências pelas crianças. Um deles vem da psicóloga Dr. Lisa Dinella, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Monmouth nos Estados Unidos. Ela realizou um trabalho com crianças entre 3 e 5 anos. Queria saber de que maneira as crianças lidavam com essas questões de diferenças de sexo a partir dos brinquedos que lhes eram dados.

Ela utilizou brinquedos que a sociedade considera exclusivamente “para meninos” e “para meninas”: aviões a jato, motocicletas, caminhões de construção civil, caminhonetes, bonecas bebezinho, varinhas de condão, cavalinhos pôneis e conjuntos de chá.

Dois brinquedos de cada tiveram suas cores modificadas: os brinquedos de meninos foram pintados com cores rosa e violeta, e os de meninas foram modificados: a varinha de condão foi pintada de azul e algumas etiquetas esportivas foram coladas, as bonecas foram vestidas com roupas de camuflagem, os pôneis tiveram a crina e a cauda pintadas de negro e o conjunto de chá foram pintados em azul.

Foram obtidos brinquedos para meninos e meninas sem nenhuma modificação, e brinquedos modificados. No total, 73 crianças de ambos os sexos participaram desse experimento.

Eram oferecidas a elas uma caixa contendo os brinquedos e, após os pequenos entrarem em contato com eles, um examinador fazia as seguintes perguntas a cada criança: “Quanto você gostou deste brinquedo?” e a criança tinha três opções: “muito”“um pouco”“não gostei”. Depois de recolher as respostas dadas pelos pequenos o examinador fazia outra pergunta: “Quem você acha que deveria brincar com este brinquedo?” e a criança podia dizer que eram somente “os meninos”, somente “as meninas” ou “ambos”. Os resultados foram bastante diferentes para os meninos e para as meninas.

Foi comprovado que, já a partir de 3 anos, as crianças sabiam diferenciar os brinquedos que eram de meninos e de meninas, todas as crianças já tinham um estereótipo bem definido quanto a gêneros.

Os meninos estavam mais aptos a aceitar brinquedos exclusivamente masculinos, mesmo aqueles pintados de rosa e violeta, eles não estavam dispostos a brincar com  brinquedos para meninas. Para as meninas, diferente dos meninos, a cor influenciava, elas estavam mais aptas a brincar com brinquedos de ambos os sexos desde que estivessem pintados de rosa e violeta.

Etiqueta de uma roupa da John Lewis para crianças onde é possivel notar sua indicação para meninos e meninas (http://charliesmithdesign.com/work/john-lewis/childrenswear/)
Etiqueta de uma roupa da John Lewis para crianças em que é possível notar sua indicação para meninos e meninas (http://charliesmithdesign.com/work/john-lewis/childrenswear/)

Isso mostrou que as meninas estavam mais dispostas a cruzar a fronteira do universo exclusivo dos meninos desde que fosse rosa. Era como se a cor rosa desse permissão para elas entrarem nesse mundo de meninos.

Brinquedos femininos em cores masculinas não tiveram impacto para os meninos, eles eram mais relutantes em cruzar um caminho pertencente às atividades de meninas.

Os interesses das crianças em brinquedos são influenciadas tanto pelo gênero quanto pela cor, como foi observado, principalmente, com as meninas. Cor é  uma das principais características que as meninas usam para assimilar gêneros. Pesquisadores mostraram que animais de brinquedoquando são roxos ou rosas são classificados por elas como sendo femininos.

Um outro estudo, este mais recente, feito pela universidade John Hopkins, mostra que os estereótipos prejudiciais, envolvendo gêneros, são concretizados na idade de 10 anos. O trabalho foi publicado numa edição especial do Journal of Adolescent Health e fala sobre como os pré-adolescentes se veem como menino ou menina. Pesquisadores entrevistaram 450 crianças na idade de 10 a 14 anos em 15 países. Eles descobriram uma semelhança muito grande entre todos os entrevistados.

Os estereótipos, envolvendo gêneros, eram muito comuns a todos: o mito de que meninos são fortes, confiantes e líderes, enquanto as meninas são fracas e incompetentes eram muito semelhantes, não importando o país e sua cultura. Eles também descobriram que os adolescentes eram encorajados a viver suas vidas separadas, com fronteiras bem delimitadas entre meninos e meninas. Os pais, em muitas culturas, intervinham para anular qualquer relação existente entre sexos opostos: garotos de um lado e garotas de outro. Como exemplo, crianças da cidade de Deli, na India, esperavam ser agredidos pelos membros de suas famílias se seus pais os associassem em um universo feminino (sendo amigos de meninas por exemplo). Eles também eram ensinados a não controlar seus impulsos sexuais e, por causa disso, muitos meninos disseram que abusos sexuais em meninas seria “normal” ao justificar esses impulsos.

Brincar é um dos aspectos fundamentais da experiência diária de uma criança. É a partir dos brinquedos que ela constrói suas habilidades cognitivas, e seu desenvolvimento social é formado. Por isso, ela deve ter acesso a todos os tipos de brinquedos, sem gêneros ou fronteiras. A exposição aos estereótipos de gêneros é iniciada na infância, mas é no início da adolescência o período ideal para intervenções, disseram os pesquisadores.

 

 

Para saber mais:

O trabalho “Pink gives girls permission: Exploring the roles of explicit gender labels and gender-typed colors on preschool children’s toy preferences” foi publicado pelo Journal of Applied Developmental Psychology e pode ser encontradohttp://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0193397314000689

 

O trabalho “It Begins at 10: How Gender Expectations Shape Early Adolescence Around the World” foi publicado pelo Journal of Adolescent Health e pode ser encontrado http://www.jahonline.org/article/S1054-139X(17)30355-5/fulltext

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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